Já faz tempo. A voz estridente de Belchior anunciava para todo o país: “Eu sou apenas um cantor latinoamericano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior...”. Tínhamos 10 anos. Apesar de morar no litoral, mar não conhecíamos. Em nossa vidinha, sem orçamento, poucas emoções sobravam. O calor era sufocante como este de agora. Chuveiro, nem pensar. Os banhos eram em bacias, com água do poço comunitário. A água servida em casa era retirada em baldes, que deixavam um gosto inconfundível de metal. Na falta de um, uma lata velha lata de tinta quebrava o galho.
A temperatura era alta. As rádios não se preocupavam tanto com isso. Trinta e cinco, trinta e sete, sei lá. Para nós pareciam cinquenta graus. O suor corria pelo rosto de cada menino. Um pequeno açude, na verdade um bebedouro para os animais, era o nosso grande oceano. Primeiro jogávamos o caniço. Pequenos carás, traíras e até mesmo uma imprevidente tartaruga vez por outra eram fisgados pelo pequeno anzol. Cada puxão na linha era uma festa. Um calorão passava por todo o pequeno corpo, aumentando ainda mais a temperatura. Parecia que o bicho era enorme. Na maioria das vezes não passava de um minúsculo peixe.







