20/01/2011

As dores do Rio em janeiro

Para muitos, o Verão é a estação da liberdade, da inventividade, da criatividade. A incidência solar anima. A alegria é a tônica no sul do Equador. Surgem as modinhas, os amores casuais, as relações que duram até o fim da temporada. É quase um tempo sem compromisso. Não é para menos que o pior dos cardápios televisivos, o BBB da Globo, invade e devasta a programação. Nos últimos tempos, porém, têm residido justamente neste período os maiores desastres relacionados à convivência entre humanos e natureza.
O Rio de Janeiro, cartão postal da humanidade, é a grande vítima daquilo que se convencionou chamar de "fúria da natureza". A região serrana carioca contabiliza o desastre. Correntezas de águas e de lama transformam o cenário por onde passam. Antes uma pousada paradisíaca, onde imperava a alegria de turistas, hoje um monturro. Ferros retorcidos, vidas consumidas.

17/01/2011

Em busca da água perfeita

Já faz tempo. A voz estridente de Belchior anunciava para todo o país: “Eu sou apenas um cantor latinoamericano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior...”. Tínhamos 10 anos. Apesar de morar no litoral, mar não conhecíamos. Em nossa vidinha, sem orçamento, poucas emoções sobravam. O calor era sufocante como este de agora. Chuveiro, nem pensar. Os banhos eram em bacias, com água do poço comunitário. A água servida em casa era retirada em baldes, que deixavam um gosto inconfundível de metal. Na falta de um, uma lata velha lata de tinta quebrava o galho.
A temperatura era alta. As rádios não se preocupavam tanto com isso. Trinta e cinco, trinta e sete, sei lá. Para nós pareciam cinquenta graus. O suor corria pelo rosto de cada menino. Um pequeno açude, na verdade um bebedouro para os animais, era o nosso grande oceano. Primeiro jogávamos o caniço. Pequenos carás, traíras e até mesmo uma imprevidente tartaruga vez por outra eram fisgados pelo pequeno anzol. Cada puxão na linha era uma festa. Um calorão passava por todo o pequeno corpo, aumentando ainda mais a temperatura.  Parecia que o bicho era enorme. Na maioria das vezes não passava  de um minúsculo peixe.

12/01/2011

Ronaldinho e a ladainha

Ronaldinho (arte sobre foto)

Não faltava mais nada. Depois de exemplos explícitos de falta de ética e do uso de expedientes característicos de estelionatários, a novela Ronaldinho revela mais um viés lamentável. Diz-se que na sua apresentação no Flamengo, a entrevista coletiva será feita mediante a escolha prévia das perguntas encaminhadas antecipadamente pelos repórteres. Os sindicatos dos jornalistas vociferam. Censura era coisa do passado. Não se surpreenda com mais nada!


A ladainha da hora
Elaborar uma crônica semanal é um desafio. A vontade do cronista é sempre buscar o tema mais atual. A vontade é palpitar sobre o que está ocorrendo agora. Porém, as crônicas semanais não podem seguir a ladainha da hora. Cabe, isso sim, a questão mais ampla, que não vence neste exato momento. O desafio é propor um tema da atualidade que chegue ao leitor ainda dentro do prazo de validade. Se o assunto escolhido já encontrar-se superado, resolvido e defasado terá um destino inglório: será esnobado pelo leitor que, inteligentemente, passará os olhos sobre o primeiro parágrafo, abandonará a leitura e avançará para outras páginas.

04/01/2011

Hábitos desprezíveis na praia

A beira da praia é um local aprazível.  Ali a temperatura é alguns graus mais baixa. O vai e vem ininterrupto das ondas é um relaxante natural. Eventualmente, porém, somos chamados à dura realidade pelos maus hábitos que se disseminam a cada veraneio. Campanhas são infrutíferas, placas explicativas não surtem efeito, folheto com advertências são ignorados. 
Não adianta. Entra verão, sai verão e o modus operandi continua o mesmo. E ele é igual na orla gaúcha ou na catarinense. Gente velha, gurizada, marmanjos, meninada, enfim, parece que todo mundo se combinou e ninguém dá a mínima para as boas maneiras na beira mar. Também aqui em nossos dois balneários a turma anda exagerando.

30/12/2010

Presságios para 2011

Existem muitas formas de encarar os fenômenos naturais como este da passagem do ano, do fechamento de uma década. O comportamento dos indivíduos varia conforme sua personalidade, seu momento e mesmo sua necessidade. Há os que são indiferentes, que não prepararão nada, que se distanciarão do ritual de passagem, se esconderão na hora da contagem regressiva, dos pulinhos sobre as ondas, da lentilha no bolso e de tantas outras artimanhas construídas ao longo do tempo por supersticiosos de toda ordem. Há os empolgadíssimos, movidos pela magia da mudança, que apostam em venturas sem trabalho, em resultados mágicos, como a sorte fosse escolhê-los entre todos os outros e, embalados por um cervejão ou por espumante, quando as badaladas anunciarem a chegada de 2011 e da segunda década do século, após todos os rituais possíveis e imagináveis, repetirão a velha canção que animava o fim de ano da Globo nos anos 70: “o tempo passa e com ele caminhamos todos juntos, sem parar, nossos passos pelo chão vão ficar”.

29/12/2010

O tempo voa

O tempo passa. O tempo voa. Dizia uma peça publicitária do banco Bamerindus, de presença marcante nos intervalos comerciais dos anos 80 e 90 na TV brasileira. A instituição financeira foi engolida nos anos 90 pelo processo de quebradeira, venda e fusões do sistema bancário. O bordão, no entanto, permanece vivo. E, mais do que isso, auxilia no entendimento de algo que já foi de difícil compreensão: a relatividade do tempo.
O tempo passa conforme o nosso ritmo. Contemplativos, diante de uma paisagem relaxante, na praia – acompanhando o vai e vem das ondas; no campo – ouvindo o leve deslocar das folhas respondendo à brisa; o tempo, com certeza, passa de uma forma vagarosa. Envolvido em atividades repetitivas, o dia parece pequeno diante do número de atividades que devemos completar. Aí falta tempo.

28/12/2010

Lista de boas intenções para o novo ano

Costume é costume. Inevitável, mesmo para os céticos de toda a ordem, que sejam formuladas listas e mais listas de boas intenções para o ano vindouro. Alguns dos itens são arroz de festa, outros nem tanto. Encontrar um tempo para praticar uma atividade esportiva, aderir a uma causa nobre, economizar, nem que seja alguns trocados por mês, assumir um humor diferente, comprar um carro, pode até ser um usadinho, em bom estado, evidentemente.
O certo é que ninguém escapa da tentação de planejar algumas coisas para o ano que vem. O fechamento de um ciclo e a abertura de um novo nos impulsiona, nos dá coragem para realizar um balanço de nossas vidas. E isto, convenhamos, é muito bom. Raramente temos momentos de análise verdadeira sobre o caminho que estamos trilhando. Poucas são as oportunidades que se apresentam mais adequadas para planejar mudanças. Mais raros, ainda, os momentos em que paramos e chegamos à conclusão de que há mudanças por fazer.

22/12/2010

Os meninos e o tempo

O tempo passa rápido. É o que se diz! Natal, amigo secreto familiar, festa de final de ano, espumante, ceia, fogos de artifício. Verão, Carnaval, início de aulas para a garotada. IPVA, IPTU. Quando se vê, lá se foi o verão, as frutas amadurecidas começam a dar o ar da graça. A brisa dá lugar, lentamente ao frio, que vai aos poucos se tornando mais intenso. Inverno, chuvas e mais chuvas, ventos e mais ventos. Primavera, flores, dias mais longos. O sol aparece com mais decisão, enterrando os finais de tardes sombrios e encasmurrados. Dia da Pátria, do Gaúcho e, num passinho os papais noéis, que pareciam aprisionados, partem desfilando pelas ruas de Gramado e Canela. Invadem a cidade, a tevê, os jornais, tomam de assalto todos os espaços possíveis.