17/02/2011

As dores de Ronaldo

Fenômeno (arte sobre foto)
A comovente despedida de Ronaldo Nazário, apelidado apropriadamente de Fenômeno, deixou pelo menos meia dezena de questões a serem dissecadas. Uma delas é o limite do corpo. Ronaldo sentia dores, intensas dores, resultantes das intervenções cirúrgicas a que foi submetido para combater as lesões colecionadas ao longo da vitoriosa carreira. 
Dono de uma arrancada inconfundível, Ronaldo jamais pediu licença para defensores. As tevês cansaram de mostrar, nesta semana, o atleta na sua melhor forma bufando, partindo para cima da zagueirada adversária, jogando a bola na frente e atropelando aqueles que encontravam-se na sua frente. Imagens de um passado brilhante. Juntando força e sutileza na medida certa, vencidos os zagueiros, bastava uma ginga para derrubar o goleiro e empurrar mansamente a bola para as redes.

10/02/2011

Os heróis e os super-heróis

Capa da primeira revista
do Super-Homem (1938)
O Bruno tem nove anos. É o meu filho mais novo. Dia desses, num final de tarde, envolvido em suas fantasias, enquanto caminhávamos entre as praias de Atlântida Sul e Mariápolis, lançou uma questão curiosa: caso fosse possível, qual o super-poder que gostaríamos de ter? Perguntinha danada esta! Vai daqui, vai dali e nem eu nem minha esposa Marta conseguimos chegar a uma resposta objetiva.
Acredito que o primeiro entrave que aparece é a dificuldade dos adultos perceberem o mundo como os pequenos. O componente da magia, do surpreendente, do extraordinário, que compõem as histórias dos heróis, ficou para trás suplantado por preocupações como a administração do tempo, das relações familiares, carreira profissional, contas a pagar etc. Enquanto as crianças ainda vivem no meio da fantasia, entre nós, adultos, predomina a realidade. Assim, o tempo dos heróis vai se distanciando cada vez mais, permanecendo, quando muito, restrito a um cantinho da memória.

04/02/2011

Veríssimo, o BBB e o Circo dos Horrores

Recebi dia desses um e-mail onde um suposto Luís Fernando Veríssimo analisava o Big Brother. Analisava não, descia o cacete sem piedade, sem misericórdia. Criticava a Globo, o Bial e todos os que protagonizam o triste espetáculo televisivo. Li uma ou duas frases. A conclusão foi rápida, não era o LFV, muito embora embaixo do texto seu nome aparecesse com destaque. Havia sangue demais, indignação demais. Nada de humor, nada de sutileza. Tudo revelado sem meias palavras, sem aquele conhecido sentido oculto que ele habilmente imprime em suas obras. 
Um professor universitário disse certa vez que, quando nós, acadêmicos de Direito, estivéssemos perdendo a discussão jurídica, deveríamos jogar algumas palavras na boca de Rui Barbosa e xeque-mate! O conselho, se rasteiramente analisado no âmbito jurídico, induzia a um comportamento desonesto, também conhecido como 171 ou estelionato. A desfaçatez, a  esperteza a nosso serviço. Lição de desonestidade na sala de aula.

31/01/2011

Verão apressado

A temporada de verão gaúcha, de uns anos para cá, mudou. Lá pelos anos 70, as pessoas fechavam suas casas na cidade e se mandavam para o litoral no final do ano e só saiam daqui no final de fevereiro. As crises econômicas, as incertezas dos anos 80, quem sabe influenciaram na mudança do costume. 
Hoje, mais do que nunca, como diria Faustão, a temporada tem se resumido aos finais de semana. Sexta-feira, depois das 17h30min, as estradas de acesso ao litoral recebem um número infindável de carros que se jogam em direção ao mar. Gente apressada que vai atropelando quem está pela frente, mudando a rotina dos nativos acostumados com o trânsito tranquilo do resto do ano. Eles têm pressa, muita pressa. Estão secos pela água salgada e pela areia. Pelo burburinho da orla, pela bermuda, pelo boné e pelas havaianas.

28/01/2011

Brasil que canta e é feliz

Menino Maluquinho, de Ziraldo
O Brasil é um país de contrastes. Isso não é novidade. A sentença, na realidade, é um bordão repetido exaustivamente. E, convenhamos, tem lá muito de verdade repaldada em estudos científicos. Pobreza e riqueza vivem lado a lado. Economia punjante por aqui, miserê profundo em outros cantos. Mansões de primeiro mundo e esgoto a céu aberto. Clínicas recebendo pacientes do exterior e falta de leitos para atendimento dos nativos, acometidos de doenças da estação. E assim a barca vai.
Houve tempo em que a economia deprimia. O processo inflacionário jogava os preços lá no alto, enquanto os salários eram mantidos congelados. A autoestima brazuca andava pelos pés. Com a consolidação da democracia, os ventos mudaram.  Melhoria substancial na economia, crescimento do nível de emprego, salários um pouco maiores e melhores condições de vida da população até então excluída. Resultado, crescimento no orgulho das pessoas e aumento na confiança no futuro do país.

26/01/2011

A imortalidade do Fantasma

Fantasma, criação de Lee Falk

Não tinha como adquirir revistas em quadrinhos, naqueles anos 70. Duas opções restavam: passar na Miscelânia, um sebo de propriedade do Mick, onde furtivamente folheava os gibis enquanto tentava disfarçar dúvida na escolha do produto, que nunca seria comprado, ou, ainda, herdar de alguém revistas antigas.  Em algumas casas era costume descartar os gibis antigos colocados estrategicamente perto da calçada. Uma das casas onde se juntavam preciosidades era a do ex-prefeito e deputado Romildo Bolzan. Mais de uma vez meus olhos brilharam diante de preciosidades como Tio Patinhas, Recruta Zero e O Fantasma ali na calçada ao meu alcance.  
Foi neste tempo que entrei em contato com a questão da imortalidade. Não foram longos estudos filosóficos, nem debates religiosos. Com pouco mais de 10 anos, o tema me apareceu justamente através das histórias em quadrinhos. O personagem Fantasma, o Espírito que Anda, criado por Lee Falk - também criador do mágico Mandrake-, completa 70 anos de atividade, promovendo a justiça na selva africana. 

20/01/2011

As dores do Rio em janeiro

Para muitos, o Verão é a estação da liberdade, da inventividade, da criatividade. A incidência solar anima. A alegria é a tônica no sul do Equador. Surgem as modinhas, os amores casuais, as relações que duram até o fim da temporada. É quase um tempo sem compromisso. Não é para menos que o pior dos cardápios televisivos, o BBB da Globo, invade e devasta a programação. Nos últimos tempos, porém, têm residido justamente neste período os maiores desastres relacionados à convivência entre humanos e natureza.
O Rio de Janeiro, cartão postal da humanidade, é a grande vítima daquilo que se convencionou chamar de "fúria da natureza". A região serrana carioca contabiliza o desastre. Correntezas de águas e de lama transformam o cenário por onde passam. Antes uma pousada paradisíaca, onde imperava a alegria de turistas, hoje um monturro. Ferros retorcidos, vidas consumidas.

17/01/2011

Em busca da água perfeita

Já faz tempo. A voz estridente de Belchior anunciava para todo o país: “Eu sou apenas um cantor latinoamericano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior...”. Tínhamos 10 anos. Apesar de morar no litoral, mar não conhecíamos. Em nossa vidinha, sem orçamento, poucas emoções sobravam. O calor era sufocante como este de agora. Chuveiro, nem pensar. Os banhos eram em bacias, com água do poço comunitário. A água servida em casa era retirada em baldes, que deixavam um gosto inconfundível de metal. Na falta de um, uma lata velha lata de tinta quebrava o galho.
A temperatura era alta. As rádios não se preocupavam tanto com isso. Trinta e cinco, trinta e sete, sei lá. Para nós pareciam cinquenta graus. O suor corria pelo rosto de cada menino. Um pequeno açude, na verdade um bebedouro para os animais, era o nosso grande oceano. Primeiro jogávamos o caniço. Pequenos carás, traíras e até mesmo uma imprevidente tartaruga vez por outra eram fisgados pelo pequeno anzol. Cada puxão na linha era uma festa. Um calorão passava por todo o pequeno corpo, aumentando ainda mais a temperatura.  Parecia que o bicho era enorme. Na maioria das vezes não passava  de um minúsculo peixe.