11/03/2011

Tristes manchetes

Esta sexta-feira é um dia de tristes manchetes. Fúria da natureza no Estado, terremoto, destruição, mortes, tsunami. A imprensa não tem tempo para respirar. Por aqui, a tarde foi corrida. Zum-zum-zum, notícias desencontradas, informações incompletas. Tumulto, correria. Pelas ruas da cidade um movimento incomum. No Hospital São Vicente de Paulo uma aglomeração jamais vista. São centenas de pessoas na frente querendo saber algo mais. Um jovem osoriense foi assassinado. 16 anos de idade. Comoção geral. O atleta de futuro partiu.

08/03/2011

Crônica para uma quarta de cinzas

Carnaval de salão - foto: patosonline

Palavras que denunciam

As escolas já passaram. Passistas, comissões de frente, alas das baianas e destaques são coisas do passado. Na avenida vazia alguns garis recolhem o que sobrou. Quem brincou, brincou; quem sambou, sambou. Agora é só esperar aquela inconfundível voz, em rede nacional, anunciando a “nota 10!”. Vibro com a nota 10, mesmo sem saber para que quesito, para que escola ela foi atribuída. Nesta busca pela perfeição, nota 9,5 é merreca, é fracasso, é derrota. O que vale mesmo é a vibração do “10!”.

01/03/2011

Scliar, o Carnaval e as mulheres

Scliar (arte sobre foto)

Moacyr Scliar é imortal. Não só pela cadeira na Academia Brasileira de Letras, que ocupava desde 2003, mas sim pela produção de 70 obras entre contos, novelas, ensaios e romances. São histórias vivenciadas por cada um dos seus milhares de leitores espalhados por todo o mundo. Os anseios, as lutas, os problemas dos seus personagens são as mesmas lutas, os mesmos anseios e os mesmos problemas dos homens e mulheres comuns que se identificam com suas obras.
Scliar bem que poderia ser pedante. Bem que poderia posar de estrela. Teria todo o direito de lançar em suas muitas colunas semanais na Zero Hora expressões difíceis, palavras rebuscadas. Porém, preferia sempre atingir o maior número de pessoas. Nestes tempos de culto à celebridade, onde muitos representam personagens, Scliar interpretava a si mesmo.  É o que dizem seus amigos mais próximos. É o que diz sua obra.

23/02/2011

A queda dos muros

Os muros, construídos com suor e sangue, com destruição de homens e mulheres, com perseguições políticas e religiosas, estão sendo destruídos, no mundo árabe.  A população oprimida por regimes de força reage sitiando os tiranos, encurralando seus comparsas de maneira surpreendente. Encastelados, protegidos por soldados hesitantes, os ditadores tentam se segurar na cadeira. Com a força de águas represadas, a população pressiona de tal forma que vai abrindo fendas, corroendo vagarosamente as estruturas do poder.

17/02/2011

As dores de Ronaldo

Fenômeno (arte sobre foto)
A comovente despedida de Ronaldo Nazário, apelidado apropriadamente de Fenômeno, deixou pelo menos meia dezena de questões a serem dissecadas. Uma delas é o limite do corpo. Ronaldo sentia dores, intensas dores, resultantes das intervenções cirúrgicas a que foi submetido para combater as lesões colecionadas ao longo da vitoriosa carreira. 
Dono de uma arrancada inconfundível, Ronaldo jamais pediu licença para defensores. As tevês cansaram de mostrar, nesta semana, o atleta na sua melhor forma bufando, partindo para cima da zagueirada adversária, jogando a bola na frente e atropelando aqueles que encontravam-se na sua frente. Imagens de um passado brilhante. Juntando força e sutileza na medida certa, vencidos os zagueiros, bastava uma ginga para derrubar o goleiro e empurrar mansamente a bola para as redes.

10/02/2011

Os heróis e os super-heróis

Capa da primeira revista
do Super-Homem (1938)
O Bruno tem nove anos. É o meu filho mais novo. Dia desses, num final de tarde, envolvido em suas fantasias, enquanto caminhávamos entre as praias de Atlântida Sul e Mariápolis, lançou uma questão curiosa: caso fosse possível, qual o super-poder que gostaríamos de ter? Perguntinha danada esta! Vai daqui, vai dali e nem eu nem minha esposa Marta conseguimos chegar a uma resposta objetiva.
Acredito que o primeiro entrave que aparece é a dificuldade dos adultos perceberem o mundo como os pequenos. O componente da magia, do surpreendente, do extraordinário, que compõem as histórias dos heróis, ficou para trás suplantado por preocupações como a administração do tempo, das relações familiares, carreira profissional, contas a pagar etc. Enquanto as crianças ainda vivem no meio da fantasia, entre nós, adultos, predomina a realidade. Assim, o tempo dos heróis vai se distanciando cada vez mais, permanecendo, quando muito, restrito a um cantinho da memória.

04/02/2011

Veríssimo, o BBB e o Circo dos Horrores

Recebi dia desses um e-mail onde um suposto Luís Fernando Veríssimo analisava o Big Brother. Analisava não, descia o cacete sem piedade, sem misericórdia. Criticava a Globo, o Bial e todos os que protagonizam o triste espetáculo televisivo. Li uma ou duas frases. A conclusão foi rápida, não era o LFV, muito embora embaixo do texto seu nome aparecesse com destaque. Havia sangue demais, indignação demais. Nada de humor, nada de sutileza. Tudo revelado sem meias palavras, sem aquele conhecido sentido oculto que ele habilmente imprime em suas obras. 
Um professor universitário disse certa vez que, quando nós, acadêmicos de Direito, estivéssemos perdendo a discussão jurídica, deveríamos jogar algumas palavras na boca de Rui Barbosa e xeque-mate! O conselho, se rasteiramente analisado no âmbito jurídico, induzia a um comportamento desonesto, também conhecido como 171 ou estelionato. A desfaçatez, a  esperteza a nosso serviço. Lição de desonestidade na sala de aula.

31/01/2011

Verão apressado

A temporada de verão gaúcha, de uns anos para cá, mudou. Lá pelos anos 70, as pessoas fechavam suas casas na cidade e se mandavam para o litoral no final do ano e só saiam daqui no final de fevereiro. As crises econômicas, as incertezas dos anos 80, quem sabe influenciaram na mudança do costume. 
Hoje, mais do que nunca, como diria Faustão, a temporada tem se resumido aos finais de semana. Sexta-feira, depois das 17h30min, as estradas de acesso ao litoral recebem um número infindável de carros que se jogam em direção ao mar. Gente apressada que vai atropelando quem está pela frente, mudando a rotina dos nativos acostumados com o trânsito tranquilo do resto do ano. Eles têm pressa, muita pressa. Estão secos pela água salgada e pela areia. Pelo burburinho da orla, pela bermuda, pelo boné e pelas havaianas.