15/06/2011

Energia renovável para um mundo sustentável

Fac-símile da capa do
caderno Nosso Mundo 
Sustentável, de ZH

Os computadores de mesa ainda não haviam chegado por aqui. As novidades do Vale do Silício eram coisas para americano endinheirado. A internet era embrionária, servindo somente para comunicação entre os bancos de dados de grandes universidades dos EUA. Neste pedaço de Rio Grande, muita estrada de chão batido e pouco asfalto. A década de 80 marchava para o seu final. Semanalmente eu e o Sérgio Tressoldi, o Bolão, numa Brasília branca, nos dirigíamos a Palmares do Sul onde produzíamos um material jornalístico para a Rádio Osório.  Com um gravador realizava entrevistas com as autoridades de então. Se algum fato extraordinário ocorresse, um telefone convencional quebraria o galho, muito embora, algumas vezes, a voz fosse suplantada por um ruído fortíssimo.

07/06/2011

Noticiário pornográfico

Tal qual ocorre depois dos anúncios de cigarros, após os noticiários de tevê deveria ser divulgada uma vinheta onde o locutor apressadamente diria: “o Ministério da Saúde adverte, assistir noticiários à noite pode causar enjoo, ansiedade, depressão e insônia”.  Ou melhor, o mais correto para evitar problemas de saúde aqui na planície seria rodar a vinheta após cada notícia que envolvesse a Capital Federal e os seus condôminos.
A impressão que fica para todos nós que ignoramos solenemente o tamanho da roubalheira que assola as finanças do país é de que o Brasil não é a sexta economia do mundo, mas sim a mais poderosa de todas. Basta ver as cifras que se divulgam todos os dias em esquemas milionários que desviam verbas da Saúde, da Previdência, da Educação, da Segurança Pública, das obras públicas federais, estaduais e de muitos municípios. A gatunagem não respeita nada, absolutamente nada. Nem o remédio dos doentes da nação, nem a merenda dos nossos pequenos e futuros cidadãos que, um dia comandarão esta máquina, ficam imunes à insana malícia desta gente.

01/06/2011

Os gênios e os loucos

Raul Seixas ( arte sobre foto)
Televisão não havia em casa. Valia-me da vizinha mais próxima para assistir a algum programa. A diversão não era segura, pois dependia do humor do casal. O problema é que, vez por outra, elegiam as tardes de domingo para colocar a vida afetiva em ordem. Ciumento e calibrado com alguns goles a mais de cachaça, o marido – gente boa quando sóbrio - muitas vezes partia para a ignorância, tentando agredir a esposa. Entre gritos, impropérios e empurrões, desferidos de lado a lado pelos desafetos, eu e os filhos do casal prudentemente abandonávamos o conforto do sofá e fugíamos para o lado mais seguro, o de fora da casa. As crianças retornavam quando os ânimos acalmavam. Eu, dotado de alguma dose de prudência infantil, abortava qualquer tentativa de diversão e fitava a casa de longe, ouvindo somente os sons do programa preferido.

31/05/2011

Aqui tem Mu-Mu

Uma vaquinha preta, cabeça branca, com uma florzinha na boca e a língua de fora, a inconfundível vaquinha Mu-Mu, talvez tenha sido o primeiro caso de marketing gaúcho. Não havia boteco, venda, bolicho ou  armazém que não ostentasse o anúncio no lado de fora do prédio: "Aqui tem Mu-Mu".
O Doce de Leite Mu-Mu é uma instituição gaúcha. Sua fórmula inconfundível acompanha a vida dos gaúchos desde 1945. Recentemente a empresa passou a ser comandada pela Vontobel (Vonpar Alimentos), fabricante e distribuidora da Coca-Cola no Estado. A vaquinha, porém, passou por algumas intervenções com a intenção de torná-la mais moderna. A estratégia do passado, no entanto, permanece a mesma. Agora, ao invés de plaquinhas nos comércios, a empresa preferiu utilizar grandes outdoors.
Além de potes o Doce de Leite Mu-Mu, no passado, também era embalado em sachês, em tamanhos variados, podendo ser adquiridos por pessoas de todas as rendas. Até hoje no RS Mu-Mu é sinônimo de doce de Leite.

Obs: postada originalmente na página Anos 70/80

25/05/2011

A dor do abandono


Um fenômeno silencioso vem ocorrendo no interior. Casas, ainda em bom estado, foram fechadas. O mato toma conta do que outrora era um bem cuidado pátio. Os moradores há muito abandonaram a propriedade.  Mudanças na legislação expulsaram os antigos colonos para a cidade. Já envelhecidos, com saúde comprometida, não restou mais nada o que fazer. Aqueles que construíram algum patrimônio abandonam os hábitos antigos e se tornam citadinos, preservando o gosto pelo cultivo na manutenção de pequenas hortas. Outros tantos ocupam um puxadinho estrategicamente construído nos fundos das casas de um filho.

20/05/2011

O Espírito que Anda

Há mais de ano minhas crônicas, publicadas aqui no Jornal Bons Ventos, são postadas no meu blog. Foi a forma que encontrei para reunir todo o material produzido ao longo de mais de dois anos. O sucesso foi surpreendente. Não suficiente para me tornar uma personalidade do mundo virtual, é claro, nem para trazer quaisquer dividendos financeiros. Porém, através da web, as ideias ganham o mundo, chegando a locais antes inimagináveis. É o pensamento viajando, rompendo fronteiras, projetando-se além do físico, tal qual faz nossa alma em nossos sonhos.  
Diferentemente da prática que me impus, hoje subverto a ordem e publico uma coluna que nasceu para o blog, num tema que é muito caro: a imortalidade.

  A Imortalidade do Fantasma*

Fantasma- Reprodução
Não tinha como adquirir revistas em quadrinhos, naqueles anos 70. Assim, restava encontrar alternativa para não ficar distante daquela febre infantil. Uma delas era passar na Miscelânia, um sebo de propriedade do Mick, onde furtivamente folheava os gibis enquanto tentava disfarçar dúvida na escolha do produto, que nunca seria comprado. 
Outra forma concreta era a herança. Em algumas casas do Centro da cidade era costume descartar os gibis antigos colocados estrategicamente perto da calçada. Uma das residências onde se juntavam preciosidades era a do professor, ex-prefeito e deputado Romildo Bolzan. Mais de uma vez meus olhos brilharam diante de preciosidades como Tio Patinhas, Recruta Zero, Madrake e O Fantasma ali na calçada ao meu alcance.

13/05/2011

Vitórias no futebol e na vida

O ex-presidente Lula utiliza com rara maestria a linguagem do futebol para explicar os fenômenos da política e da economia. Confesso que não sou um ardoroso defensor do reducionismo futebolístico. Porém, como se sabe, nada conquista tanta simpatia entre os brasileiros do que o distinto esporte bretão. Dentro de um barraco da favela carioca, nas casas rodeadas de jardins de inverno da serra gaúcha, nos casarões existentes dentre os muros dos condomínios mais pomposos do país, residem os técnicos mais inteligentes do futebol brasileiro. Jamais perderam uma partida, conhecem todos os atalhos para a vitória e identificam a quilômetros a burrice dos luxas, dos falcões, dos renatos e dos tites.

11/05/2011

O Guaraná Fruki do Beckhan

O astro inglês David Beckhan descobre agora o que descobri lá no início dos anos 70: o doce sabor do guaraná!  É o que conto nesta pequena crônica.

 Aqui pelas bandas dos pampas, nos anos 70 e 80, quando se falava em refrigerante (ou refri como preferia a turma do Bom-Fim), não estava se falando da Coca-Cola. Os gaúchos foram os últimos a se entregar aos encantos da Coca. Foi o reduto onde a Pepsi resistiu bravamente na preferência popular.
Mas a Pepsi tinha os concorrentes locais. Dois deles se destacavam entre a garotada. Minuano Limão e Guaraná Frisante Polar eram os grandes refrigerantes desta terra. O Minuano, fabricado pela Vontobel, era delicioso. Na sua publicidade um gaudério exclamava no final: Eu bebo porque gosto, tchê!
O Guaraná Polar tinha um jingle especial que não saia da cabeça dos meninos: "Guaraná Frisante Polar, refrescante, refrigerente, Guaraná Frisante Polar...".