11/08/2011

O apaixonado grito do Homem Macaco

Ron Ely (Tarzan) e Chita

Ron Ely queria ser Tarzan. Tinha tanta vontade que leu toda a obra de Edgar Rice Burrougs. Porém, não cabia na descrição do personagem. Era alto demais, magro demais, loiro demais. Tal qual Tarzan, nunca desistiu. E, no fim, depois dos testes, ganhou o papel na série televisiva que sucesso estupendo fez nos anos 70. Era tanto empenho que dispensava os dublês. Dentes e costelas quebradas, arranhões, distensões, acidentes leves, médios e graves eram rotina no set.
Nos sábados à tarde, minutos após o episódio semanal, minha turminha – cinco ou seis meninos de nove ou dez anos, corríamos para a nossa selva no campinho da Dona Guria, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Pinheiro Machado. Ali, entre pés de maricás e mamoneiros, enfrentávamos animais selvagens, vencíamos rios caudalosos. Um perigo atrás do outro, oculto detrás de cada árvore, de cada moita.

03/08/2011

A cevada e o café

Não sei precisar se a crise atingia todo o país ou se era localizada sobre a nossa casa. Certo é que o armário de mantimentos, naqueles tempos de esquálidas vacas, constantemente encontrava-se em crise.  Para desespero de minha mãe que tinha que encontrar alternativas para alimentar aquelas bocas pouco exigentes. Com a criatividade que só uma mãe amorosa em desespero tem, juntava um restinho daqui e outro dali, e alguma coisa comestível, como num passe de mágica, saia da panela. Pratos pouco convencionais, como polenta e sardinha, vez por outra davam o ar da graça. E era uma delícia, sim!
A vizinhança, na mesma condição de lamúria, era comparsa em experiências, em virações, em inventividades. As ideias corriam como o fogo em um rastro de pólvora. Algumas delas, no entanto, mostravam-se absolutamente desastradas. Foi o que ocorreu certo dia em que se decidiu na vila que o cardápio do meio-dia seria um cozido de pulmão de vaca. A molecada, armada de algumas moedinhas, correu até o fétido matadouro. A iguaria trazia em saco de pano deixava um carreiro de sangue no chão. O pulmão vinha com um pedaço da traqueia. Era feito de se ver. Com tanto amor e carinho as mães jogaram-se a limpar o produto e levá-lo ao fogo. Levantava uma espuma densa, quase que derrubando a tampa da panela. Depois de pronto, bem o panorama não se mostrava dos mais animadores. A tal iguaria não passava da boca. Mastigar aquela massa era o mesmo que morder um isopor. Os cães ao menos tiveram ração de sobra entre aquelas casinhas mal caiadas.

29/07/2011

A linguagem dos anos 80

Cine Labor
Cada período tem uma linguagem que o identifica. Se hoje fizermos um exercício de memória certamente nos surpreenderemos com a quantidade de expressões que caíram em desuso, seja pela evolução natural ou pela perda de certos  referenciais. O cenário  político, os acontecimentos da época, as preferências de cada um, a região onde se vivia, os colégios que frequentávamos influenciavam diretamente na nossa linguagem. Vamos relembrar algumas das expressões mais comuns na década de 80, aqui por Osório e região, e que hoje talvez não façam muito sentido, especialmente para os mais jovens.

12/07/2011

Hora do cafezinho

As lendas são contos fantásticos, que explicam o surgimento das coisas. Há lendas para tudo. Aqui no Brasil há lendas que explicam o aparecimento da mandioca, do açaí, do guaraná, todas elas de origem indígena. Em todas há um ponto em comum: o sofrimento de alguém numa tribo deu origem a um fruto que se tornou importante para os índios. O produto mais apreciado pelos brasileiros na atualidade, no entanto, escapa a este padrão.
O apreciado café, cujo surgimento real ninguém ousa datar, teve sua origem lendária bem longe daqui. Conta-se que na Etiópia, há mais de mil anos, o pastor Kaldi notou que suas cabras aparentavam contar com energias renovadas após consumir uma fruta amarelo-avermelhadas de uns arbustos que nasceram por acaso em seu campo. Resolveu narrar a história um monge, que  apanhou um pouco das frutas e levou consigo até o monastério. Após usar os frutos na forma de infusão, percebeu que a bebida o ajudava a resistir ao sono enquanto orava ou em suas longas horas de leitura do breviário. A descoberta se espalhou rapidamente entre os monastérios, criando uma demanda pela bebida. As evidências mostram que o café foi cultivado pela primeira vez em monastérios islâmicos no Yemen.

06/07/2011

Moral da história

Esopo
(Diego Velásquez)
Hoje, na velocidade em que o mundo das comunicações se movimenta, pode parecer impossível que a tradição oral tenha sido a responsável pela difusão de algumas ideias tidas como grandes verdades que nos chegam até os dias atuais. E o mais incrível, ainda, é que três grandes responsáveis por isso podem nem mesmo terem existido.
Assim, o Grande Sócrates não passaria de um personagem criado pelo filósofo grego Platão. Da mesma forma o sábio chinês Lao-Tsé, guardião da biblioteca do império, que teria ditado os versos que originaram o Tao-Te-Ching, base do Taoísmo, também seria um mito. Outro nome respeitado,criador do gênero da fábula, o escravo corcunda e desengonçado grego Esopo também é acusado de não-existência. Não obstante as diferenças que os separam, uma característica ao menos os une: suas ideias foram transmitidas oralmente. Suas palavras foram gravadas anos depois por discípulos, pensadores e pesquisadores.

28/06/2011

Encontro de amigos numa noite fria

Comissão organizadora do Encontro dos Amigos de Osório 
A noite era de um frio intenso. Dessas invernais em que, não obstante a vontade, por qualquer motivo - existente ou ficto-, pagamos para não sair de casa. O ideal seria, com certeza, encontrar uma boca de fogão a lenha e ali colocar os pés para esquentar a alma, se houvesse como. Ainda por cima, uma chuva fina insistia em dar o ar da graça. O vento vez por outra ganhava força e se impunha, assoviando forte, batendo janelas e portas, balançando placas de sinalização, revirando sombrinhas e despenteando os corajosos. Amigos de longa data, enfrentando o clima adverso, se deslocavam para o encontro, combinado pela rede social Facebook.
Nós chegamos um pouco antes. Eu e o Jerri já tínhamos passado o som, revisado luzes, ensaiado alguma coisa. Tudo parecia perfeito. Os membros da equipe de trabalho já ocupavam seus postos. O time da organização vinha chegando. A casa, pequena, aconchegante, foi recebendo os primeiros convidados. Eram recepcionados  calorosamente com beijos e longos abraços. Gente que não se via há eras.  Amigos do passado, dos bancos escolares, das estripulias da vida infantil, dos primeiros namoros juvenis, separados pelo vai-e-vem da exigente vida adulta.

22/06/2011

Um menino comum

Arte sobre foto

Houve um tempo que imaginava contar com um poder oculto. Chegaria o dia em que tal poder viria à tona e, aí sim, daria minha contribuição decisiva mudando o mundo.  Tal qual ocorre com os grandes heróis que povoam a infância de qualquer garoto, manteria este poder envolto em um segredo absoluto. Talvez um ou outro confidente, como Batman, que contava com o eficiente mordomo Alfred, dividisse comigo este fardo que é manter ilesa e oculta a minha personagem secreta.
Durante o dia estaria por aí, como um cidadão comum, desempenhando tarefas corriqueiras, sem chamar muito a atenção. Afinal de contas, nessas histórias de heróis, discrição é a alma do negócio. Diante do perigo, porém, daria uma desculpa qualquer e me lançaria em mais uma missão onde minha interferência seria decisiva, fundamental. Depois de mais um ato grandioso, apareceria novamente, talvez com cara de songa-monga ou mocorongo, como se nada soubesse, sem deixar pistas de que havia feito um esforço fenomenal para salvar a humanidade de alguma catástrofe.

15/06/2011

Energia renovável para um mundo sustentável

Fac-símile da capa do
caderno Nosso Mundo 
Sustentável, de ZH

Os computadores de mesa ainda não haviam chegado por aqui. As novidades do Vale do Silício eram coisas para americano endinheirado. A internet era embrionária, servindo somente para comunicação entre os bancos de dados de grandes universidades dos EUA. Neste pedaço de Rio Grande, muita estrada de chão batido e pouco asfalto. A década de 80 marchava para o seu final. Semanalmente eu e o Sérgio Tressoldi, o Bolão, numa Brasília branca, nos dirigíamos a Palmares do Sul onde produzíamos um material jornalístico para a Rádio Osório.  Com um gravador realizava entrevistas com as autoridades de então. Se algum fato extraordinário ocorresse, um telefone convencional quebraria o galho, muito embora, algumas vezes, a voz fosse suplantada por um ruído fortíssimo.