Há um enorme fosso separando este homem primitivo do contemporâneo. Nossos antepassados mais remotos viviam sob o império do instinto. O medo, arma mais do que eficaz para a preservação da espécie, ditava o comportamento naqueles tempos marcados pelo constante ataque das feras, de ameaças, de cataclismos, de transpiração e pouca inspiração.
09/12/2011
O homem primitivo hoje
Se um homem primitivo, daqueles que se orientavam tão somente pelo instinto, fosse catapultado até os nossos dias, levaria tal susto que seus membros ficariam imobilizados. O pavor tomaria conta de seu pequeno cérebro. Como tudo seria novo, grandioso, inexplicável, não se descarta a possibilidade de que o choque danificasse mesmo o funcionamento de sua mente. Tudo o que existe, prédios enormes, carros, tratores, aviões, escadas rolantes, anúncios luminosos, estátuas, monumentos seriam percebidos como grandes feras, prontas para um ataque.
03/12/2011
A visão do cotidiano
O cérebro humano se acostuma ao cotidiano. Uma imagem belíssima, estonteante, quando vista com frequência é incorporada de tal forma que se torna lugar comum. Também nas guerras, nas catástrofes, nos cenários de dor e sofrimento, ocorre este fenômeno. Os olhos percebem com maior intensidade o novo. As imagens corriqueiras passam batidas. É a novidade que chama a atenção. As imagens mais antigas, aquelas arquivadas nos compartimentos da memória, só são ativadas vez por outra, ainda assim quando são reunidas pelos sentimentos de saudade, de angústia, de satisfação ou tristeza.
Certa vez um grande amigo disse que estranhou quando visitava sua filha, que reside na frente de um dos cartões postais do Rio de Janeiro. Na sua constante pressa de resolver suas questões mais corriqueiras, não tinha olhos para a maravilha que se apresentava diariamente quando abria a janela de seu quarto. Era como se aquela belíssima pintura natural fosse um adereço da sala de estar, daqueles a quem não dispensamos nem um furtivo olhar.
24/11/2011
Incômodo natalino
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| Arte sobre foto |
A graça e a beleza do clima de Natal, no entanto, não são percebidos por todos. Há pessoas, entre elas alguns amigos, que manifestam sentimentos divergentes neste período pré-natalino. Tédio, pavor, irritação, desconforto são alguns referidos. Talvez contribua decisivamente para esta contrariedade o hábito, nem sempre salutar, de divulgar canções típicas a todo volume pelos estabelecimentos comerciais. Se a intenção é bombar as vendas, às vezes a estratégia se revela um verdadeiro tiro no pé.
16/11/2011
Sonhos frustrados
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| Meninos jogando futebol - Alfredo Volpi |
A gurizada corria para lá e para cá, atrás de uma bola, subindo em cinamomos para colher os frutinhos que, depois, seriam arremessados de bodoque. Os furtos de goiabas, bergamotas e laranjas, muitas vezes ainda verdes, eram tolerados e até incentivados pela vizinhança que não via mal qualquer naqueles pequenos seres. O tempo corria numa preguiça só. Os dias de Primavera e Verão, então, eram longos. Cansávamos de tanto brincar. Não havia preocupação com violência. Droga não havia por ali. Talvez um ou outro pai na vila abusasse da cachaça, do conhaque, do bíter. Porém, bebida alcoólica não era droga. Ou, pelo menos, naquele tempo ninguém dizia isso. A violência que casualmente nascia do consumo excessivo de álcool ficava circunscrita ao âmbito familiar. O sofrimento era velado, sem escândalo, sem grandes comentários.
09/11/2011
O súbito desaparecimento
| Vultos estranhos em suas danças surrealistas |
Sem que notasse, ele sumiu. Procurei daqui, procurei dali e nada. Puxei pela memória, refiz os trajetos, nada. Coloquei a família toda a procurar. Minha sogra fez promessas para São Longuinho, para São João e para todos os santos possíveis e nenhum sinal. Diante da negativa dos poderosos, novamente coloquei a família toda a procurar. Aos pequenos cheguei a prometer um incentivo, um prêmio, um agrado que pudesse aumentar a produtividade, aumentando assim o interesse na tarefa. Que, nada! As investidas foram infrutíferas, um verdadeiro fracasso.
Como tudo na vida serve para desencadear e aguçar a nossa percepção e o nosso conhecimento, cheguei a pensar na existência de alguma Lei da Física que relatasse o desaparecimento súbito de objetos. A mais pura bobagem é claro! Nem no Google nem em qualquer enciclopédia encontraria tal tratado científico.
O certo é que, de uma hora para outra, me tornei um órfão da minha visão. Os óculos sumiram, deixando-me com cara de Mr. Magoo. Sorte que contava com providenciais lentes de contato que usava muito pouco. Sempre na esperança de encontrar o danado dos óculos, segui usando, com certo desconforto, as lentes até o final de semana.
03/11/2011
O canto dos pássaros
Dia desses uma colunista de destaque na mídia regional, escritora conceituada e guru das mulheres de todas as tribos, ousou nadar contra a correnteza e desconstituiu uma das clássicas imagens de beleza que a natureza nos oferece. Disse que estava cansada do assédio dos pássaros que diariamente, às 06 da manhã em ponto, insistentemente protagonizavam um barulho ensurdecedor em árvore próxima à sua janela.
Nas redes sociais levou centenas ou milhares de chineladas. Gente que, democraticamente, criticou o ímpeto da articulista. Alguns mais exaltados chegaram mesmo a qualificá-la de insensível, problemática e outras coisas ainda mais pesadas. Sem contar com uma procuração fiz a sua defesa (como se ela precisasse disso). Na oportunidade lembrei que os cronistas, em regra, estão comprometidos com a sua verdade, expressando suas ideias sem censura. Fiéis às suas convicções, mesmo que momentâneas, vez por outra não agradam aqui e acolá. Além disso, o cronista não está escondido. No alto da página encontra-se seu nome e, muitas vezes, seu endereço eletrônico.
25/10/2011
Sorria, sorria
Não sei ao certo de onde vem esta estratégia atual do mundo da propaganda e do marketing de utilizar trilhas sonoras consideradas por muitos como prá lá de brega. O Bombril, lá em 2007, apresentava o Nélson Ned cantando “que tudo passa, tudo passará”, um sucesso do início dos anos 70. Bem recentemente, em publicidade da Bradesco Seguros, o cantor Byafra apareceu com seu Sonho de Ícaro espantando um ladrão de carro. Os publicitários não têm sossego. Correm sempre contra o tempo na busca da imagem perfeita, do texto e da canção que embalará os intervalos comerciais dos ávidos consumidores. Agora mesmo, direto do túnel do tempo, como diria aquela apresentadora, o velho Evaldo Braga ganhou vida novamente. Enquanto homens choram ao ver o lançamento da Renault passar, uma versão roqueira embala o choro dos rapazes com a inconfundível música: “Sorria, meu bem/ sorria/ da infelicidade que você procurou”.
20/10/2011
Conto da escolinha
Tinha algo em torno de cinco anos de idade. Diariamente era acometido de crises de choro. Minha mãe, atenta ao sofrimento infantil, levou-me até a professora da escolinha. Disse que já não aguentava mais ter em casa aquele menino chorão, que não se consolava com a explicação de que ainda não havia atingido idade para frequentar as aulas.
A professora, de maneira diplomática, informou que não poderia ser admitido como aluno regular. Porém, poderia frequentar as aulas livremente, sem matrícula. “Ele pode ficar encostado”, afirmou, alertando que minha mãe não forçasse minha ida à escola. “Com o tempo ele vai enjoar e desistir!”, decretou. Talvez não acreditasse na sua capacidade de sedução ou, ainda, desconfiasse que o menino chorão apenas fizesse uma manha passageira.
Ir à escola foi, talvez, a maior alegria que tive na infância. Os primeiros dias então foram inesquecíveis. Meu pai trazia do seu trabalho grandes folhas duras, branquinhas. Ali rabisquei desenhos que eram coloridos com os poucos lápis que dispunha. Certa vez notei a cara de espanto de minha professora diante de um conjunto de rabiscos com tons avermelhados e azuis. Talvez tivesse algum conhecimento de psicologia ou algo assim. Concluiu que o excesso de vermelho talvez não fosse positivo. Acredito que sua análise possa ter influenciado no meu afastamento da preferência clubística de meu pai e irmão mais velho.
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