Aqui pelas bandas dos pampas, nos anos 70 e 80, quando se falava em refrigerante (ou refri como preferia a turma do Bom-Fim), não estava se falando da Coca-Cola. Os gaúchos foram os últimos a se entregar aos encantos da Coca. Foi o reduto onde a Pepsi resistiu bravamente na preferência popular.
Mas a Pepsi tinha os concorrentes locais. Dois deles se destacavam entre a garotada. Minuano Limão e Guaraná Frisante Polar eram os grandes refrigerantes desta terra. O Minuano, fabricado pela Vontobel, era delicioso. Na sua publicidade um gaudério exclamava no final: Eu bebo porque gosto, tchê!
O Guaraná Polar tinha um jingle especial que não saia da cabeça dos meninos: "Guaraná Frisante Polar, refrescante, refrigerente, Guaraná Frisante Polar...".
O Guaraná Fruki, vendido em caminhões pelo interior do Estado, também tinha um bom espaço por aqui. Aliás, foi o primeiro que eu tomei. Tão logo o caminhão passou na Vila das Pererecas (hoje Loteamento Popular) sai correndo com algumas moedinhas na mão. Cheguei suado e ofegante. O vendedor, no meio de engradados aquecidos por um sol escaldante de verão, abriu a garrafinha e me entregou. Ali mesmo, o líquido quente desceu pela minha garganta!
Segundo consta o panorama está mudando, pelo menos no quesito masculinidade. Saem de cena os metrossexuais e voltam à cena os homens normais. Os homens excessivamente preocupados com a aparência, com a aplicação de generosas camadas de hidratantes na cútis, com os cuidados com as unhas, com depilação e com os últimos lançamentos de produtos de beleza, ao que tudo indica, estão se despedindo. Em seu lugar entram homens não tão barnabés quanto os antigos, mas preocupados com o bem-estar, com a saúde, porém, não se torturam na frente do espelho, nem entram em crise com o aparecimento de cabelos alvos ou, ainda, com a impossibilidade de adquirir aquele produto recém lançado em Londres.
Par e passo, aparece ainda com timidez nas redes sociais o movimento que ressalta a beleza das mulheres comuns. Uma resposta ao padrão de beleza atual, onde os ossos proeminentes agridem nossos olhos. É tão absurda a ditadura da moda que as modelos, estas mocinhas pálidas, visivelmente sem saúde, parecem volitar pela passarela conduzindo vestimentas que só cabem naqueles corpinhos esquálidos. Dão a impressão de que vão desmaiar de fome nos próximos passos. Contraditoriamente, quanto mais privações sofrem, mais valorizam sua estampa. Porém, para um cidadão comum, como eu e tantos outros, que somos de carne e osso (e, quem sabe, alguns pneuzinhos aqui e ali), estas modelos são retratos de sofrimento. Não há sensualidade, não há beleza. Alguém já disse que nos desfiles de modas as modelos são meros cabides.
Até bem pouco atrás, os gaúchos não diziam tênis. Os calçados tão apreciados pelos jovens eram chamados de guidis. Segundo consta, o primeiro modelo de tênis adotado aqui nos pampas era fabricado pela empresa americana Keds, que está até hoje no mercado. Era um calçado colorido, de lona e de solado de borracha. Pouco conhecedor do inglês, o gaúcho de então acabou corrompendo o termo que se transformou em "guidis". E guidis virou sinônimo de tênis.
As marcas mais apreciadas por aqui, especialmente entre o povo menos endinheirado, nos anos 70 e 80 eram as singelas congas azuis, que faziam parte do uniforme escolar; o Kichute - quem usava virava um craque no futebol e o Bamba - um pouco mais refinado e ideal para o futebol de salão (como o futsal era chamado na época).
Lembro que certa feita houve uma temporada grande de chuva. Minha mãe colocou o meu Kichute a secar no forno do fogão. Era o único par que dispunha. Entretida com seus afazeres, acabou esquecendo do calçado e quando se deu conta havia passado do ponto. Ao retirar encontrava-se seco e quebradiço. Que dor! Era meio de mês e durante as semanas que se seguiam as Havaianas foram minhas companheiras.
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Quem está na moda não se incomoda. É o que diziam os antigos. E, de certo modo, estão cobertos de razão. A moda é a uniformidade, é a unificação. Todos os seres agrupados, sem distinção. Tribos marchando no mesmo passo. Azar dos outros que estão transitando na contramão.
Senti na pele, dia desses, os efeitos da ditadura da moda. Estava me preparando para a formatura do jovem Renan Marculan. A noite prometia um calor daqueles. Iria trabalhar. Com antecedência preparei o repertório para garantir a festa dos convidados. Som equalizado com antecedência, equipamento pronto, tudo certinho. Faltava a camisa. Sai pelas lojas da cidade em busca da vestimenta mais adequada. Não poderia ser pólo porque é informal demais, mesmo para um DJ tardio. Também não poderia ser excessivamente formal. Restava o quê, então?
Nas araras de todas as lojas que entrei descansavam ordenadamente uma imensidão de camisas, centenas delas, todas no mesmo estilo. Todas elas com estampa xadrez. Uma com quadrados largos, outras com quadrados menores. Algumas com o vermelho mais acentuado, outras com o branco e o preto em destaque. Verde e preto. Azul e preto. Lilás com preto e branco. Enfim, uma infinidade de variações, bem ao gosto do Agostinho Carraro.Em alguma destas lojas cheguei a brincar, lembrando que no meu tempo de guri (nos idos dos anos de 70 e 80 do século passado) os astros da música caipira Milionário e José Rico apareciam nas capas dos LPs com grandes violões coloridos e aquelas camisas quadriculadas. Exagero meu, é verdade!
A moda é assim mesmo. O que hoje é de mau gosto, amanhã é lindo. E assim segue reciclando gostos, impondo padrões de beleza, modificando o panorama de uma a outra estação. E a economia, com estes ciclos, vai se aquecendo. E o nosso guarda roupas vai ficando desatualizado, necessitando da aquisição permanente de novas joias saídas das cabeças iluminadas dos estilistas. Ou não!
Certo é que, depois de uma boa caminhada (o que é muito positivo), encontrei quase que escondida entre dezenas de camisas xadrezes uma rara representante do grupo das discretas. Um desenho simples, estilo anos 80, um azulzinho que quase se confunde com o branco. Algo assim como uma Ellus, uma Gledson, uma Levis ou uma simples, porém competente US Top. É verdade que um xadrezinho, quase imperceptível. Daquelas que o Fernandinho ostentava na reunião da empresa, ganhando um elogio do chefe: “bonita camisa Fernandinho!”.
Pois bem, a festa foi muito legal. O calor foi enorme. Minha encantada camisa ficou encharcada. Tocamos a noite toda, até as cinco e pouco. Músicas para todos os gostos, todos os estilos, sem intervalo. Todas as modas juntas num caldeirão quente, borbulhante. Afinal, a música não pode parar.
Para quem não conheceu ou não lembra da publicidade das camisas da US Top, dos anos 80, publicamos o vídeo do Youtube, abaixo.
Sou uma pessoa musical. Não tenho preconceito. Nasci ouvindo música. O Teixeirinha, o Gildo de Freitas, o José Mendes, o Pedro Raimundo, os trovadores do Grande Rodeio Coringa, da Rádio Farroupilha, foram parceiros de infância. Depois surgiram os sertanejos antigos, aquelas duplas mineiras, goianas e paulistas que cantavam o Brasil interiorano a plenos pulmões. Léo Canhoto e Robertinho, Pedro Bento e Zé da Estrada, Milionário e José Rico, sempre apresentados pelo talentoso Zé Bétio. Coisas de interiorano, de um Brasil com vocação rural.
Minha vocação, no entanto, revelou-se urbana. A enxada e a pá não fizeram calos na minha mão. Já no fim da infância surgiram outros nomes como Secos e Molhados, Raul Seixas Rita Lee, Erasmo Carlos e Milton Nascimento. Conforme crescia, me aproximava um pouco das canções com conteúdo. O ouvido foi gostando de Chico, Caetano, Elis e Gil foram parceiros de adolescência. Muita coisa não entendia. Meias palavras, metáforas, jogos de linguagem, expressões que pareciam dizer uma coisa, mas no fundo queriam dizer outra bem diferente. Eram os subterfúgios usados para fugir da censura e até da porrada dos defensores do regime do medo.
Há diferenças marcantes entre pessimistas e otimistas. O sedento otimista encontra um copo com um restolho de água e bendiz a sorte. Os olhos do sedento pessimista, por sua vez, captam muito mais a imensidão vazia do objeto desprezando o valor que tem o pouco líquido que jaz no fundo. Enquanto o otimista vê no pouco uma boa razão para vibrar, o pessimista vê no muito que falta uma razão a mais para lamentar.
Nós, os humanos, somos por natureza bipolares. Convivemos diariamente entre o pessimismo e o otimismo. Na grande maioria esta bipolaridade não chega a causar danos. Não é uma disfunção. É um estado normal. Não é exagero considerar mesmo um estado ideal de quem vive alerta. Com os pés no chão. Somos aqueles que não enxergam tudo com cores vivas. Há, isto sim, aqueles dias mais cinzentos, mais escuros, em que a cor teima em sonegar a sua presença.
Cena do filme O Cavalo Branco, 1953,
dirigido por Albert Lamorisse
O cavalo bravo corcoveia, negaceia daqui para lá e de lá pra cá. Rápido, destemido, mantém o gosto primitivo pela liberdade. Sobre seu lombo, com destreza incomum, agarrado nas crinas, o mirrado moleque, de pele clara e penetrantes olhos esmeraldas, se apruma. Com valentia incomum equilibra-se como pode. Determinado como ninguém, prometeu a si mesmo que não sairá de cima do animal enquanto ele não ceder.
A refrega é intensa. O animal sua. Tenta desesperadamente lançar aquele corpo estranho para longe. Por fim, cansado da lida, o bichinho esmorece. O garoto triunfa. Mandem outro potro maleva para o genioso menino. Ele o devolverá amável a seu dono.
As cenas épicas que abrem esta crônica são frutos da minha criatividade. É pura ficção. Nasceu da necessidade que tenho de contar a luta que se passa entre este menino e um cavalo selvagem nos dias de hoje. É bem verdade que este menino não existe mais. Ele é hoje um velho senhor, que não mantém a destreza do pequeno domador. Porém, os olhos esmeraldinos, estes sim, ainda estão ativos, como lanternas acesas chamando a atenção de todos.
Moro no trecho entre a Estrada do Mar e o Hospital São Vicente de Paulo. Assim como eu, todos os milhares de moradores deste longo trecho estão acostumados à cena que se repete insistentemente. Não importa o dia, a hora. É certo que uma ambulância ou um caminhão de bombeiros irromperá em disparada pela av. Santos Dumont. Poucos minutos depois o veículo retornará em alta velocidade, com as sirenes abertas abrindo espaços no trânsito. No seu interior uma equipe de salvamento acompanhando um indivíduo ferido em mais um dos incontáveis acidentes de trânsito. Nos desastres de maior proporção as ambulâncias vão e voltam rapidamente socorrendo os envolvidos.
Houve um tempo em que se dizia que as mortes no trânsito são o resultado de uma guerra silenciosa. As sirenes abertas em sinal de socorro, que nossos ouvidos percebem a longa distância, porém, nos alertam para um problema que cresce assustadoramente apesar dos alertas das autoridades e da ampla divulgação que a mídia proporciona.