27/03/2012

Um muro no meio do caminho

Todas as pessoas têm dificuldades. É praticamente impossível passar por aqui sem algum desencanto, alguma dor, algum sofrimento. E isto não é uma constatação pessimista. É fato. Em menor ou maior grau, com maior ou menor intensidade, todos os humanos passam por problemas ao longo do tempo. A perda de alguém, uma decepção aqui ou acolá, frustrações das mais diversas ordens sempre marcam nossas existências. Ainda bem que, mesmo diante de tudo isso, ainda sobra tempo para termos nossas satisfações e prazeres.    
Há, diante das dificuldades, uma infinidade de caminhos. Há os que não solucionam o caso. Sucumbem. Vivem os seus dias acossados pelos problemas insolúveis que os seguem ininterruptamente. Outros se dedicam a eliminar os entraves. E lutam dias e dias criando estratégias para vencê-los. Quando cansam, e o cansaço faz parte da luta renhida, dão um tempo e depois voltam à peleja.  Há, ainda, aqueles que transformam os obstáculos em catapultas que os impulsionam a locais nunca explorados. Transformam a dor,  socializam o sofrimento não como um pesado lamento, mas sim como um peça de arte.

23/03/2012

O fim do mundo

Nostradamus
Não é só em São Francisco de Paula que há temor pelo fim do mundo. Em todo o planeta pipocam os partidários de que a Terra chegou a 2012 e daí não passará. Aliás, esta crença é muito antiga. Conta-se que os europeus sentiam-se na ponta da espada. A espada descia mais sobre suas cabeças quanto mais se aproximava do ano 1000. A paranoia era tanta que nenhuma obra era iniciada, os governantes relaxaram, as pessoas passaram a aguardar o fim dos tempos.
E o tempo chegou. E, "milagre, supremo milagre!" o sol continuou a brilhar cada vez mais forte. A neve continuava a cair onde devia. E a vidinha continuou a de sempre. Os miseráveis, que se consideravam livres das dores e dos sofrimentos, continuaram carregando seus fardos. E os poderosos e exploradores continuaram em dia com a sua fúria.
Porém, os arautos do desastre que não houve foram convocados a darem suas explicações. A mais óbvia delas, alguém, desavisadamente, havia errado nos cálculos. Como naqueles tempos não havia estagiários para levar a culpa, então debitaram na conta de Júlio César e de Augusto César, imperadores romanos que reformaram o calendário incluindo dois meses (julho e agosto), a imprecisão na data do fim dos tempos.

15/03/2012

Outras do caderno de anotações


Já informei aqui que, por acaso, encontrei um caderno na rua. Um caderno com anotações em letra caprichada. Desconheço até o momento o autor, eis que nenhuma assinatura, nenhum dado de identificação permite que seja encontrado o dono das anotações. São poemas, rascunhos, pensamentos rápidos, rasteiros e, às vezes, com certa profundidade. Publico, sempre que possível algumas ideias que ali estão impressas. Carta ao Senhor é o texto que escolhi para hoje.

Senhor:

Há algum tempo resolvi que era chegada a hora de contar algumas coisas. De purgar alguns sentimentos que causam tormento e aflição. Contar algumas histórias da existência. Justificar algum erro, quem sabe? Enfim, trocar algumas ideias. O objetivo primordial, no entanto, não era bem esse. Gostaria, isto sim, era mesmo de ouvi-lo. Saber, afinal de contas, o que vens pensando, o que esperas de tudo isso, como está se preparando para os tempos que se avizinham.

08/03/2012

A revolução da mulher

Nova Iorque - 1857 - 08 de março -
greve liderada por mulheres

A mulher é dona de uma história cheia de marchas e contramarchas. Ao longo dos séculos o gênero feminino experimentou estados opostos: de deusa a bruxa, de poderosa (na sociedade matriarcal) a despossuída (na sociedade patriarcal), de dona do lar a dona do pedaço.
  Ao longo desta longa caminhada, a mulher foi silenciosamente ocupando os espaços possíveis, sofrendo com as perdas, pagando a conta pelas mudanças culturais e pelas disputas de poder. Entre os povos antigos, diz-se que os Egípcios foram os que mais admitiam direitos às mulheres. Elas podiam possuir bens, vendê-los, celebrar contratos, casar, desquitar, receber herança e peticionar. Se o homem morresse poderiam assumir a família e mesmo a administração do estado.

01/03/2012

Memória vazia

(arte sobre foto)
O excesso de informações que a web fornece não está contribuindo para tornar o homem mais inteligente. Pelo contrário. As ferramentas de busca e as redes sociais disseminam a cultura do rápido e rasteiro. Com o tempo, nosso cérebro, acostumado à vadiagem que a muleta da internet fornece, vai entrar em processo de atrofia. Nossa memória ficará murcha, vazia. Nascerá daí um homem com alguma dificuldade de pensar coisas complexas, especialmente quando não estiver conectado com o Google.
O quadro pessimista, caótico, foi pintado pelo escritor Nicholas Carr na sua obra The Shallows: What the internet is doing to our brains (A Geração Superficial: O que a internet está fazendo com o nosso cérebro). Conforme ele, o homem é conivente com a redução de sua memória quando escolhe ser superficial. O fenômeno de atrofia do cérebro é um caminho previsível. Com o tempo o indivíduo vai reduzindo a densidade das informações que recebe, vai navegando em água rasas e, quando vê, desaprendeu, emburreceu.

22/02/2012

Falsas previsões

O programa iniciava às 14h. Música, informação e participação do ouvinte. No meio de tudo isso "saiba como será seu dia de amanhã, com as previsões de seu signo". O horóscopo era algo importante, tanto que Zora Yonara e Omar Cardoso tinham espaços generosos no jornal, no rádio e na tevê. No meu caso havia, no entanto, um problema. Naqueles tempos não se conseguia horóscopo para o ano todo. Restavam, porém, duas alternativas: gravar a previsão transmitida por uma rádio de Porto Alegre e depois lê-la, ou, a mais fácil, criar previsões fresquinhas para todos.
Não preciso dizer que a segunda alternativa era a mais tentadora, mais fácil e mais aplicável ao caso em concreto. Assim, os ouvintes do meu primeiro programa de rádio, lá no começo da década de 80, passaram a receber as previsões que eu mesmo fazia. "Leão - seja mais cuidadoso, invista parte dos seus rendimentos. Nunca se sabe o dia de amanhã. O período é favorável para conhecer novas pessoas", lia com voz empostada.

07/02/2012

A luta do bem contra o mal

Cartaz do filme Blade Runner

O rapaz postou na rede social uma imagem de um pretenso estuprador retalhado e com o membro enfiado na boca. É chocante a foto e inúmeros são os comentários e o replicar da postagem como forma de vingança. Os jovens, como cães selvagens, se deliciam com a carne exposta. A animalidade sacramentada pelas ferramentas de então. Estado de Direito, quê nada! A vingança privada das massas anônimas. A carreta na frente dos bois como diria minha mãe.
A luta entre o bem e o mal. Não há tema mais corriqueiro, mais atual e, ao mesmo tempo, mais interessante. Cinema, teatro, romances, jogos. Os sujeitos que digladiam, invariavelmente, representam as duas faces. 
Uma das mais belas obras de ficção científica produzida pelo cinema americano, o filme Blade Runner, de Ridley Scott, na época de seu lançamento (1982) aborda esta clássica temática. Não agradou à crítica, foi um fracasso de bilheteira, enfim passou batido. Contraditoriamente, anos depois se tornou cultuado. Eu mesmo só fui conhecê-lo em 1989, numa fugidinha da redação do Correio do Povo. Ali no Cine Imperial, numa das dezenas de reprises, me instalei numa poltrona. Saí de lá inebriado, contagiado. O Detetive Deckard, Harrison Ford, caçava pelas ruas da caótica Los Angeles, em 2019, um bando de andróides que mereciam morrer.

04/02/2012

Minuano Limão: "eu bebo porque gosto, tchê!"

Aqui pelas bandas dos pampas, nos anos 70 e 80, quando se falava em refrigerante (ou refri como preferia a turma do Bom-Fim), não estava se falando da Coca-Cola. Os gaúchos foram os últimos a se entregar aos encantos da Coca. Foi o reduto onde a Pepsi resistiu bravamente na preferência popular.
Mas a Pepsi tinha os concorrentes locais. Dois deles se destacavam entre a garotada. Minuano Limão e Guaraná Frisante Polar eram os grandes refrigerantes desta terra. O Minuano, fabricado pela Vontobel, era delicioso. Na sua publicidade um gaudério exclamava no final: Eu bebo porque gosto, tchê!
O Guaraná Polar tinha um jingle especial que não saia da cabeça dos meninos: "Guaraná Frisante Polar, refrescante, refrigerente, Guaraná Frisante Polar...". 
O Guaraná Fruki, vendido em caminhões pelo interior do Estado, também tinha um bom espaço por aqui. Aliás, foi o primeiro que eu tomei. Tão logo o caminhão passou na Vila das Pererecas (hoje Loteamento Popular) sai correndo com algumas moedinhas na mão. Cheguei suado e ofegante. O vendedor, no meio de engradados aquecidos por um sol escaldante de verão, abriu a garrafinha e me entregou. Ali mesmo, o líquido quente desceu pela minha garganta!

Saiba mais sobre o Minuano Limão: Publicidade ; Lembranças