14/06/2012

Encontros e despedidas

Solaninho  (foto-Solano Reis)

Ele chegou bem de mansinho. Sem fazer muito alarde foi conquistando um espaço entre nós. Discreto, certamente se assustou quando foi recepcionado por um sem número de máquinas e celulares que tomaram conta da maternidade. Todo mundo ali, como uma torcida em dia de clássico.  Olhos vidrados acompanhando cada cena, captando imagens, vibrando, delirando com um chorinho, com um aperto dos olhos, com uma careta. Levou sua pequena mão à boca. Ficou longo tempo com a mão no queixo, parecia um pensador buscando uma solução a um problema intrincado. Problema, que nada, o rapaz ainda desconhece o que seja isso. Seu mundo é o do descanso, é o da introspecção. Dorme o sono dos justos, inatacável, irremovível. 
O Solaninho, assim chamado por todos os familiares, chegou há pouco mais de uma semana. Filho do Marcelo e da Camila. É meu primeiro neto. Recebeu meu nome de presente, causando certo constrangimento. Não para mim é claro. A Camila, no entanto, já tem até discurso pronto. Suas conhecidas e amigas não conseguem disfarçar a surpresa quando perguntam o nome da criazinha.  Depois de explicar que o nome é uma homenagem ao avô ouve, invariavelmente, um “é um nome diferente, né!?”.

09/06/2012

O mistério das bergamotas

As bergamotas mais doces e mais belas são aquelas que nossos braços não alcançam. Estão lá no alto, na ponta de galhos finos que não suportam qualquer apoio. É necessária uma obra de engenharia para fazê-las descer das alturas e transformá-las na sobremesa desejada. Para atingir o objetivo vale de tudo. Sacudir a árvore, estratégia das mais usadas e que pouco resultado apresenta. Vêm ao chão as bergas doentes, as feinhas, aquelas que não são desejadas. As belas permanecem lá onde estão. Parecem rir de nosso inútil esforço. Cutucá-las com uma taquara também é válido. Porém, da mesma forma se mostram resistentes e risonhas, especialmente diante de nossa falta de mira.
As bergamotas, que nestes tempos de Outono são encontradas em profusão nos mercados, são frutas ácidas que empreenderam uma longa viagem até chegarem até estas terras. Conhecidas também como vergamota, mimosa, mexerica, tangerina, laranja-mimosa, poncã saíram da Ásia e aqui chegaram em tempos remotos. Segundo consta o nome original é Tangerina ou Laranja de Tânger que curiosamente fica no Marrocos, na África.

08/06/2012

Ademir Brum: O último Dia

Ademir Brum (Foto- Vadinho)

Recebemos hoje pela manhã, dia 08 de junho, a triste informação da partida de Ademir Brum. Era um cronista da cidade, um amigo de todos, um sujeito de respeito. Gostava de coisas simples como o futebol, do cafezinho com os amigos, de um bom papo. Era agradável. Tinha um texto limpo, simples, leve. Era capaz de abordar os assuntos mais difíceis, mais complexos com graça, com um humor leve, nunca ofensivo. Fomos colegas no Jornal Novo Tempo, lá nos anos 80. Ultimamente escrevia no Jornal Bons Ventos e colaborava no site Osório News. 
Em sua homenagem posto uma de suas tantas crônicas.  


O último dia

O que você faria se só lhe restasse apenas um dia de vida? Se por um motivo qualquer você descobrisse que está prestes a morrer e que às 24 horas seguintes são as últimas de sua vida? Nessa hora a mente entra em parafuso e é povoada de lembranças, dos sonhos que não realizou e de todas as oportunidades que não aproveitou. Você começa a desenterrar aqueles desejos mais íntimos que passaram anos escondidos no fundo da alma. Lembra-se das pessoas que passaram na sua vida e que significaram algo para serem lembradas durante estas últimas 24 horas, Alguns responderiam prontamente que no último dia fariam aquela viagem tão sonhada, no entanto não daria tempo. Outros poderiam responder que gostariam de rever aquela pessoa especial, no entanto...não daria tempo.
Ainda assim, as pessoas insistiriam em querer realizar sonhos e desejos que certamente não são compatíveis com o tempo disponível. Você lembrará do gesto de delicadeza que muitas vezes não foi lembrado, o bom dia que não foi dito, o sorriso que não foi ofertado. Você se questionaria de todas as desculpas que inventou pra si mesmo, para evitar aquela fantasia que lhe consumiu uma vida inteira. Não haverá tempo para aquele projeto, aquele desejo.
Todos nós temos os mais diversos anseios, sonhos que fervilharam nossas noites de insônia e a frustração diante da impotência de realizá-los. Sofremos com a aparente dificuldade em sermos felizes, pois acreditamos que a felicidade está no desejo mais distante, menos palpável, mais arriscado. Por isso, no último dia de nossas vidas, a vontade imediatista, corriqueira, torna-se simples. Relaxe e respire fundo, pois a situação é hipotética. Mas esse dia, fatalmente chegará, portanto, não deixe para depois o perdão a ser pedido, não deixe para depois o beijo ensaiado. Faça um grande favor a si mesmo, não deixe para depois, pois um dia você vai se dar conta que não há mais tempo.

04/06/2012

Coisas da vida

Um tal de corredor polonês foi implantado no banheiro masculino no Colégio Conceição. Perfilados em duas colunas os agressores se colocavam dentro do banheiro. Na hora em que a pobre vítima passava era puxada para o seu interior e levava alguns safanões. Nada que não pudesse ser suportado. Não restavam marcas nem ferimentos. Era uma brincadeira. Uma violência controlada pelos meninos bem nascidos da cidade, impulsionados pelo desejo de emoção naquelas tardes frias.
Engana-se quem acha que as manifestações violentas (de leve moderação) só se davam no recreio. Imperava ainda o costume patético do castigo. Na escola pública, onde também estudei, alguns professores seguravam o ímpeto dos pestinhas e indisciplinados com verdadeiras sessões de tortura. Isso mesmo, tortura! Uma régua de madeira, quadrada e longa era manejada com rara precisão por uma professora. Éramos obrigados a mostrar as unhas diariamente. Se estivessem sujas a providencial régua zunia contra os dedos temerosos dos pequenos. Alguns tentavam ludibriá-la, retraindo a mão rapidamente. Esforço inútil. Sempre perdiam.
Ela caminhava ostentando um sorrisinho sarcástico. Talvez sentisse alguma satisfação ao olhar aqueles olhinhos temerosos, escondendo as mãozinhas e suas unhas mal feitas. A professora, por certeza uma real descendente de Tomas de Torquemada, ainda tinha no seu repertório uma série de apetrechos para assegurar a disciplina e a ordem. Uma tábua com tampinhas de garrafa pregadas com a parte cortante para cima e o providencial milho. Um deslize, uma só manifestação de indisciplina e o aluno era apresentado ao tapete de tampinhas ou ao cereal. Ali ficavam como faquires de sete ou oito anos meditando algum tempo.
Passei ao largo de tudo isso. Era comportado. Talvez fosse pequeno demais e por isso tenha ativado algum profundo sentimento humano na professora. Afinal, um pouco de ternura sempre pode residir lá no fundo dos seres malvados. Mas, ao puxão de orelhas, prática pedagógica por demais corriqueira, não passei incólume. Em outra escola, é bem verdade, a professora havia colocado no quadro uma série de contas de multiplicação. Chamava um por um para resolvê-las. Minhas pernas pesavam centenas de quilos só de pensar. Nem que quisesse teria a capacidade de levantar da cadeira e me dirigir até a frente da turma, empunhar um giz e resolver qualquer questão nem que fosse dois vezes dois. Os números se embaralhariam, o mundo começaria a rodar e seria um rotundo fracasso. Para me tirar da letargia a professora se dirigiu decididamente até minha classe, apanhou-me pela orelha e me conduziu até o quadro verde. Entregou-me o giz e disse "agora resolve!". Minha previsão estava correta. O fracasso se fez presente. A minha incompetência resultou na condução de volta para meu lugar pela orelha.
Não preciso dizer para ninguém que sempre convivi muito mal com os números. Hoje a calculadora, presente no computador, no celular, me salva. Não havia bullying nem as ações de dano moral. Prosperassem ações deste tipo e talvez fossemos milionários hoje em dia.
Percalços e interpretações equivocadas fazem parte do processo. A verdade é que, ainda assim, sou grato ao período em que estive dentro de uma sala de aula. Dali nasce um mundo melhor. Os professores estão na base da construção de um país. Por isso devem ser bem remunerados. Sem pagamento justo não há como implantar uma educação transformadora. Os salários pagos são aviltantes. As desculpas são esfarrapadas, inconsistentes. Carência de recursos, excesso de professores e blá-blá-blá-blá. O discurso de hoje não é o mesmo da campanha. Coisas da vida!

24/05/2012

O valor do silêncio

Nosso tempo é do barulho. Se ainda não notou vá até a frente da sua casa ou na sacada de seu apartamento, feche os olhos por dois ou três minutos e contem a infinidade de sons advindos das mais diversas fontes. Os automóveis contribuem para boa parte dos ruídos, a betoneira na construção próxima também. A algazarra das crianças no recreio da escola é hors concours. É um verdadeiro mistério da criação. Como seres tão pequenos conseguem emitir sons tão elevados?
O silêncio é coisa rara. Nestes tempos de frenesi, de correria, de incansável busca pela instantaneidade, a falta de barulho é mesmo vista como negação da vida. O silêncio é o fim. A vida é barulhenta. Esta premissa, no entanto, carece de verdade. É falso crer que no silêncio há inatividade. Pelo contrário, há no silêncio infinitas possibilidades de crescimento para os seres que pensam.
O silêncio é importante componente cultural. Nas sociedades iniciáticas o silêncio é considerado indispensável para que o conhecimento permaneça entre aqueles que foram admitidos nas suas fileiras. É uma herança do costume empregado pelos grandes magos e sacerdotes egípcios que exigiam o silêncio absoluto para que os aprendizes descobrissem a meditação. Buda também valorizava o silêncio como forma de contemplação.

17/05/2012

O homem de bem

Não é nenhuma novidade que os tempos são outros. Nas duas décadas que se passaram a Terra cresceu em informação. O mundo todo em só clique. Liberdade de informação a todos, indistintamente. “Dê-me um mouse e eu desbravarei o mundo”, diria hoje com razão o matemático Arquimedes. Imaginava-se que, diante desta tal liberdade, os costumes mais arraigados e menos construtivos sofreriam um grande baque.
Que nada! Não obstante o acesso e o amplo domínio da linguagem das mídias pós-modernas pela meninada resiste ainda entre estes mesmos jovens o ranço do preconceito. Não há coisa mais antiquada do que discriminar o outro. Cenas execráveis as protagonizadas pelos meninos e meninas que de celulares em punho acompanham a selvageria cometida por grupos contra colegas. Vez por outra os lamentáveis espetáculos produzidos nos corredores de escolas ou na saída das aulas tornam-se virais nas redes sociais. O que se vê? Jovens de tenra idade saciando sua sede. A violência estudantil, que não é coisa de hoje, é a reprodução do mundo intolerante que vivemos.

09/05/2012

Paciência de mãe

Minha mãe tinha muita paciência. O dia já havia se despedido a horas. No céu a lua mostrava-se brilhante. A bola, murcha, disforme, velha, ainda assim era perseguida pelo que restou da turma. Quatro ou cinco já haviam abandonado a peleia. Obedientes, sucumbiram aos primeiros chamados de suas mães.
Eu não. Era teimoso. Fome de bola. Não que fosse um filho desobediente. Era, isso sim, um moleque acometido de raro caso de surdez que durava enquanto a bola rolava pelo campinho ralo, cheio de tocos, irregular. Ali era o Maracanã. Na verdade, era uma tira de terra, espremida entre as casas e uma malha de eucaliptos. A goleira era de um passo, com as velhas havainas fazendo papel de poste.
As contendas diárias após a aula seguiam até a luz do dia esmaecer. Tentávamos acertar o que parecia ser uma bola de futebol. Minha mãe, vez que outra, apontava na janela gritando meu nome. Às vezes, entre um chamado e outro, uma verdadeira batalha se estabelecia. Tinha pressa de fazer mais um gol, mais pressa ainda tinha de deter os ferozes atacantes que se lançavam como um bando de guerreiros contra o meu território. Queriam a vitória a todo custo. Sentia-me ungido quando evitava o desastre. Acabado quando não reunia forças para impedi-los. Neste contexto, sempre parecia que um segundo a mais seria decisivo para definir aquela guerra. Era caso de vida e morte. Minha mãe entendia e tinha paciência, muita paciência.
Em casa, após as lutas homéricas no Maracanã, reunia o que sobrava de forças para um rápido banho e para um café com bolo frito. O corpo, ainda cansado, adormecia sem piedade. Acordar somente após três, quatro chamados. Muitas vezes somente após ser providencialmente sacudido pela minha mãe. Ocorre que as batalhas do campo do dia seguinte tinham sequência na noite. Nos sonhos defendia e atacava os territórios inimigos. Fazia gols e salvava milagrosamente o time. Vivia com fome. Com fome de bola. Minha mãe entendia. Ela tinha muita paciência.

08/05/2012

Uma boa conversa

O ano é de eleições. Prefeituras e Câmaras tendem a ganhar novas caras. O momento é de lançar as figurinhas. Até as convenções não há candidaturas postas. Somente postulantes. Agora, neste período que antecede a campanha propriamente dita, é a hora dos arranjos, dos acertos, da formulação de propostas para fechar os acordos partidários.
O bolo ainda não está pronto. Nem no forno está. Sobre a mesa ainda estão os ingredientes: farinha, fermento, ovo, açúcar, uma pitada de sal, leite ou suco. Alguns utensílios já estão postos, aguardando o início do processo. O bolo está ainda por ser feito. Mas o seu projeto já está sendo servido. Suas fatias virtuais, com certeza, já estão sendo milimetricamente cortadas nos encontros das cúpulas partidárias. Cada grupelho leva tantas fatias conforme sua pretensa densidade eleitoral ou conforme sua fome de poder. Máquina de calcular é indispensável sobre a mesa das negociações. Ah, e levantamentos eleitorais dos pleitos que se passaram.