29/08/2012

As aparências enganam

Elis Regina
As aparências enganam aos que odeiam e aos que amam. Diz a bela canção imortalizada pela extraordinária Elis Regina, de autoria de Sérgio Natureza e Tunai. Nada mais correto. As notícias divulgadas nos telejornais insistentemente confirmam a tese. Na política: “Fulano de Tal, influente deputado, recebia recursos de empreiteiro”. O político e o empreiteiro até então figuravam nas colunas sociais. Exemplos de homens probos, prósperos, corretos e todos os demais adjetivos que se possa usar para definir um indivíduo do bem, descobertos passam para o lado dos corruptos, dos delinquentes, juntando-se aos desonestos da escória nacional.
Porém, durante muito tempo ostentaram uma aparência de confiáveis. Caminharam ladeados por outros tantos que se beneficiaram dos contatos, dos contratos e das mamatas concebidos com o intuito de sacar dos cofres públicos recursos que farão falta na saúde, na segurança e na educação de milhões de pessoas. Como as aparências enganam.

Os imprestáveis

A cena deve se repetir por todo o Brasil. A dona de casa, caprichosa como ela só, comprou um sofá novo. O outro, que perdeu o lugar na sala, puído pelo uso não serve mais. Como a madeira que o sustentava foi vítima da ação predatória dos cupins nem o mais pobre dos pobres da vizinhança o aceita como presente. Sem pestanejar a diligente dona encarrega dois meninotes para sumir com o móvel. Como a paga é pequena, dois picolés de suco, carregam o pesado sofá até um terreno baldio e ali o abandonam. 
Claro que a historinha acima foi gerada pela minha criativa mente. Porém, mesmo que com uma ou outra variante, não encontro outra explicação para o número exagerado de sofás, cadeiras sem um dos pés, geladeiras sem portas, mesas claudicantes e armários sem serventia que são abandonados em terrenos baldios em nossa cidade. As pessoas resolvem os problemas de falta de espaço nas suas casas e largando as quinquilharias que um dia serviram por aí.

16/08/2012

Sorriso londrino

Renato Sorriso mostrando
sua arte na avenida
Alguns jornalistas ingleses dizem que os londrinos foram contagiados pela vivência com os latinos durante os Jogos Olímpicos. Foi um período pequeno é bem verdade. Impossível, portanto, que os frios e circunspectos súditos da Rainha se transformem em italianos ou brasileiros. Suas mãos continuarão sendo pesadas demais para viajar em gestos continuados na tentativa de esclarecer ainda mais a mensagem. São comedidos e assim continuarão quando os espíritos que regem os jogos descansarem.
As festas de abertura e encerramento foram grandiosas. Velhos roqueiros, alguns ilustres desconhecidos nossos, saíram da inatividade e ganharam novamente os holofotes. Não incluo aqui o sempre presente e jovial Paul McCartney tocando e cantado Hey Jude (aqui sim um espetáculo magnífico que valeu pela abertura e também pelo encerramento). No mais juntaram Bee Gees, The Who, Pet Shop Boys com Mister Ben e a Orquestra Filarmônica. Luzes, som e a indispensável participação do público presente. Tudo tecnicamente perfeitinho, no horário certinho, sem nenhum errinho. Com algumas emoçõezinhas.

08/08/2012

Medalhas

A impressão que todos temos ao olhar o quadro de medalhas, que ostensivamente vem sendo apresentado na mídia, é a de que o Brasil poderia e deveria subir uns muitos degraus. É francamente desanimadora a presença do país que, apesar do crescimento econômico, da estabilidade política, não consegue desenvolver uma política desportiva que privilegie os esportes olímpicos.
Há países muito menores que o Brasil e que, apesar disso, dão um verdadeiro passeio em nossos atletas. Não falo da China que investe milhões de dólares para formar vencedores profissionais. São jovens recrutados nas escolas, preparados cientificamente para vencer provas. São papas-medalhas, submetidos a uma rotina desumana desde a tenra idade. São outdoors do sistema chinês tanto quanto russos e cubanos durante o período da guerra fria.
Falo de países como a Jamaica que investe pesado no desenvolvimento de esportes de alto rendimento como os 100 e 200 metros rasos. Mas há os quenianos que contrariam a regra. Os investimentos são minúsculos, mas os resultados estupendos. Superam o abandono correndo pelo país. Depois conquistam medalhas em todos os cantos do mundo. Para completar o espetáculo passeiam nos Jogos Olímpicos com seus corpos magérrimos, suas pernas longas, passadas rápidas. São incansáveis. São inalcançáveis.

03/08/2012

As boas notícias

As maiores notícias não estão relacionadas a acontecimentos positivos. As mais lidas, as mais acessadas, as preferidas do grande público são as grandes tragédias. Mortes violentas e acidentes dramáticos causam emoção, compaixão e envolvem os leitores, ouvintes e espectadores. Puxam os ávidos olhos que se fixam automaticamente na televisão, no jornal ou no site de notícias.
Os jornais publicam com destaque. A tevê dá ênfase. O rádio transmite ao vivo. Os sites atualizam a notícia com novos dados segundo a segundo. O objetivo é saciar a sede de informação. Quanto mais chocante a informação mais valiosa é.
Mesmo nós que militamos na imprensa por décadas vez por outra nos perguntamos: onde estão as boas notícias? Será que temos necessidade de ouvir, de ler, de acompanhar tantas tragédias? As pessoas não cansam do verdadeiro bombardeio diário que sofrem?

26/07/2012

O mate solitário

Nem mesmo o saudável hábito de compartilhar o chimarrão tem escapado do temor da Gripe A que assola a Região Sul do Brasil. O medo do contágio talvez venha contribuindo para o desenvolvimento do hábito do mate solitário.

O pânico da Gripe


Verdadeiro pânico tem causado estas insistentes notícias sobre a incidência da Gripe A no Estado. Famílias vivem em prontidão na busca da vacina. O locutor do rádio diz que as clínicas não mais anunciam a chegada de novas doses. Evitam com isso o tumulto, a correria e o desespero das pessoas, dispostas a buscar a imunidade contra a enfermidade que tem ceifado vidas no Estado, em Santa Catarina e no Paraná.
É a repetição do quadro que se estabeleceu há alguns anos com maior ou menor intensidade.  As autoridades da saúde também estão de prontidão. Na tevê, alguns apresentadores, useiros em encontrar os culpados e denunciá-los à opinião pública como se justiceiros fossem, utilizam seus espaços denunciando os desmandos, o despreparo, a imprevidência deste ou daquele órgão. A assistência mais se apavora.

18/07/2012

Candidatos na rede

 A rede social é um instrumento de manifestação. Portanto, não há uniformidade. Imprescindível bom-senso e tolerância. Como todo mundo ganhou voz e vez, somos fadados a conviver num ambiente que reúne  algumas boas coisas e muitas insanidades. Não é incomum que grupos, que são formados a partir de boas intenções, implodam. As regras de boa convivência, de respeito e de bom-senso nem sempre são observadas. 
Agora nota-se uma ferocidade ímpar em relação à campanha eleitoral. Ora, somente os ingênuos imaginavam que as redes sociais seriam zonas livres e que os candidatos, ávidos por espaços, não colocariam seus santinhos no seus murais. Somente os mais ingênuos ainda imaginam que eles, os candidatos, terão a grandeza de respeitar os espaços privados (como se alguma privacidade fosse possível na internet). Não estranhe se eles começarem a encher nossos murais com suas carinhas. Se isso ocorrer será apenas uma demonstração de mau uso, de falta de respeito.

10/07/2012

Rede democrática

O fácil acesso às redes sociais democratizou sobremaneira a opinião. No passado somente estavam autorizados a publicar seus pontos de vista alguns poucos escolhidos pela mídia. Agora, com um computador e com uma conexão o sujeito solta o verbo. Assuntos em profusão, opiniões para todos os gostos.  Não são necessários conhecimento, prudência e nem perícia. A liberdade é total. Com isso, a negligência com a língua é marcante. Não satisfeitos em curtir e compartilhar, os espertos ainda se deixam levar pela delícia de comentar. Aí, sai da frente!
Alguns conseguem o exagero de engatar quatro a cinco erros em uma linha. Não é incomum cansaço virar “cançaso”, princesa virar “princeza”, exceção virar “excessão”, a gente (nós) se transformar em “agente” (secreto? funerário? de viagens?). A desculpa mais corriqueira é a “preça” (perdão!),  a pressa. Digitar rápido potencializa o erro. É correto. Quanto mais rápida a resposta, o comentário, mais próximo do erro se encontra o indivíduo. Porém, que tanta pressa é essa que não dá tempo para uma mísera revisão? Que imposição é essa de que tudo tem que respondido num flash? E a qualidade? Foi suplantada de uma vez em detrimento da destreza, da rapidez?