22/12/2012

Deu pra ti

Não há gíria mais anos 80 e portoalegrense do que "Deu pra ti". Mas, enfim, de que forma surgiu esta expressão?
Os anos 70 iam ficando para trás. O sentimento era de que o cenário de opressão, de ditadura, de censura iria ser impiedosamente soterrado nos anos que se seguiam. Pelo menos era o desejo recorrente naquela época, suplantar os pesados anos de chumbo.
Eis que um belo dia Porto Alegre acorda com os muros pichados com a bela frase "Deu pra ti anos 70". De onde surgiu aquela deliciosa iniciativa?
Na realidade a pixação era uma chamada para um show do Nei Lisboa. Depois, virou filme Super 8 dos cineastas Nélson Nadotti e Giba Assis Brasil. Kleiton e Kledir, sucesso nacional naqueles anos, aproveitando o clima da capital gaúcha, cravaram nas paradas de todo o Brasil os versos "Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, Tchau!".
A expressão voltaria depois na música Horizontes, de Flávio Bicca Rocha, interpretada pela Elaine Geissler, que fez parte da trilha sonora da peça Bailei na Curva, em 1983. "Anos setenta não deu pra ti/ E nos oitenta não vou me perder por ai", dizia a bela letra.

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19/12/2012

Previsões que não falham


O futuro está logo ali. No entanto, a ansiedade, a incerteza ou a insegurança são responsáveis pela tentação de antecipar os acontecimentos. E, cá entre nós, quem nunca pensou em viajar no tempo e descobrir o que vem pela frente? Quem nunca sonhou em visitar o futuro?
Isto não é uma tendência atual. A história começou em tempos imemoriais. Entre os gregos, por exemplo, já havia o costume de lançar perguntas aos deuses para que o futuro fosse revelado. Oráculos, pitonisas, sacerdotes e adivinhos têm presença constante na mitologia grega.  
Porém, a tarefa de prever o futuro é muito mais espinhosa do que se imagina. O presidente americano Franklin Roosevelt que o diga. Tido como o maior estadista dos EUA, Roosevelt pode ter sido tudo isso. Porém, foi um rotundo fracasso como adivinho. Consta que o vulto histórico nomeou uma respeitável comissão para antecipar quais as novidades tecnológicas do seu tempo seriam importantes no progresso da humanidade. Publicado em 1937, o relatório apresentou índice zero de acerto. 
Ao longo dos tempos, alguns seres privilegiados bem que tentam desvendar os caminhos do destino.  São as cartomantes, as ciganas, os feiticeiros e outros tantos adivinhadores de plantão. Munidos de bolas de cristal, de borra de café, das linhas das mãos, das expressões faciais, do jogo de búzios, das entranhas de algum animal ou de algum insuspeitável auxílio do mundo extrafísico, adentram ao mundo do desconhecido. Viajam por um mundo que ainda está sendo construído.
Dizem alguns espertos que não há como errar. O adivinho deve traçar três cenários possíveis. Um otimista, um pessimista e um intermediário. Um deles certamente será o correto. “A manha do ganso” é jogar no próprio curioso a responsabilidade pelo andamento da história. Se tiver fé, se investir, se insistir, se planejar, se suar, se se dedicar, o futuro será um. Se, no entanto, o curioso só esperar, deixar de investir, se tiver muita preguiça, se não planejar o futuro será outro. 
E não é que dá certo! Não há futuro, não há destino que seja construído sem a força do indivíduo. Os deuses gregos que traziam a ventura ou a desgraça ao mundo curtem suas merecidas aposentadorias numa divina festa onde não faltam ambrosia e vinho. Não estão mais de plantão organizando destinos. Seus ouvidos estão fechados para as reclamações dos simples mortais.
Então o que nos resta, se o Olimpo está em recesso? 
Viver os dias de hoje como construtores é uma das respostas possíveis. Fé, investimento, insistência, planejamento e suor. Pensamento positivo, mesmo no meio da tempestade. 
O futuro é um livro que vem sendo escrito aos poucos. Uma página por dia. Algumas delas com muita emoção, muito movimento. Outras mais tranquilas. Drama, sátira, comédia, romance e poesia.  Tudo encordoado. A linguagem é a peculiar de cada autor. Em roteiros tão diferentes, tão variáveis, impossível que os outros definam o nosso futuro. Somos os escritores, os protagonistas. De nossa atuação nasce o futuro. 
Ele tem a nossa cara. A nossa forma. O nosso suor. Nem mais nem menos.



O amanhã
Letra: João Sérgio
Intérprete: Simone

"A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
E eu sempre perguntei
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?"


12/12/2012

Bloco de notas


Perfil - No passado, em regra, o fim de um relacionamento trazia consigo certa dose de dor, de compaixão dos verdadeiros amigos, de recolhimento. Agora parece que se transformou em troféu. A maior das preocupações, nos tempos atuais, parece ser a mudança no perfil na rede social. “Fulano de Tal atualizou o perfil de relacionamento sério para disponível”. 
É possível imaginar até o espocar de fogos de artifício. Os tempos são outros.

Pode crer” – A expressão “pode crer” ou “podes crer” é uma daquelas que foi enterrada com a passagem do tempo. Era usada com regularidade pela juventude urbana na distante década de 70 do século passado. A expressão era daquelas que valia para tudo. 
-Vamos dar uma volta? –Podes crer!
-É verdade que a Maria trocou o Manoel da padaria pelo João do Armazém? – Podes crer!
Em certo ponto “pode crer” representava o papel do curtir das redes socais. Alguém hoje posta: “Um grande drama se abateu nesta quinta-feira: saí de casa cedo, no caminho do trabalho fui assaltado, na chegada o chefe me demitiu, pelo celular me informaram que o Oficial de Justiça estava lá em casa com uma Ação de Despejo, voltando para casa sofri um acidente. Estou hospitalizado!”. 
Fulano, Cicrano e Beltrano curtiram. 
-Curtiram o quê, caras pálidas?

Amizade Virtual – Quantos dos amigos virtuais convidaríamos para cinco minutos de prosa? Quantos são os que passam por nós neste mundo material que nos cabe e nos cumprimentam? É normal ficar perguntando quando passamos por um algum amigo virtual, “eu conheço esse cara de onde mesmo?”.

Zoação – Há dose cavalar de irresponsabilidade nestas pegadinhas que algumas rádios FMs fazem. Lá na Austrália a estratégia da zoação levou enfermeira a Jacintha Saldanha ao suicídio. Com a desculpa de arrancar alguns risos na dileta audiência, comunicadores desconhecem totalmente a ética e a moral. Rir nem sempre é o melhor negócio.
Aqui na província, a turma do Casseta, do Pânico e outros menos votados vez por outra escorregam pela zoação barata. Não curto! Não compartilho. Só comento!

Dia desses – Dia desses a gurizada postou na rede uma imagem de enforcamento. Na foto a indicação de que aquilo ocorria em determinado país. Os mortos eram políticos corruptos. Foram infelizes, pois escolheram um país com regime ditatorial. Sabe-se lá que vítimas eram aquelas cujos corpos pendiam em guindastes. No impulso publiquei comentário dizendo que talvez fossem vítimas da opressão de um governo bárbaro, corrupto. Talvez fossem opositores, resistentes. Pessoas normais que queriam a liberdade. Talvez o crime fosse somente pensar diferente.
Um que outro não gostou. Outra publicou uma série de letrinhas iguais. Não sei se era xingamento, se era reprovação ou aprovação.
Sei lá, na rede se vê cada coisa!

06/12/2012

Os sabores da infância


Numa daquela conversas triviais, disse que não tenho fixação por algum tipo de alimento em especial. Erro meu. “Só por doce de abóbora”, emendei com certa pressa, notando que havia feito uma afirmação inverídica.  “Ambrosia é muito bom”, disseram do lado de lá. “Só se for feito pela mãe, pela avó ou por uma tia idosa”, completei com certo ar professoral. 
Chegamos à conclusão de que os sabores, as texturas e as cores dos doces feitos em casa a partir daquela receita especial de alguém da família são diferentes e não podem ser reproduzidos por ninguém. Nem aquele famoso cozinheiro que exibe sua arte na tevê, com maestria e graça, é capaz de fazer o doce da mamãe, da titia ou daquela vovó. Não é incompetência do diligente cozinheiro não! A culpa é nossa.  Isto porque a grande diferença está na nossa afetividade, no prazer de quem se serve e no prazer de quem faz.

27/11/2012

Os abutres


Não me cansava de sentir repulsa sempre que a cena se repetia. Minha visão não havia ainda sido treinada para conceber como natural aquele ataque grosseiro, destrutivo e doloroso. Olhos de criança, virgens de maldade e de experiência, ainda sofriam certa angústia quando os corpinhos destroçados de animais serviam de banquete para as aves de rapina. E isso era comum para quem vivia na beira da RS 030, a Estrada Osório-Tramandaí, especialmente na temporada de veraneio.
Sincas, gordinis, opalas, mavericks e fuscas, as máquinas da época, passavam apressadamente levando famílias numerosas em direção às praias. Nas antenas ostentavam pequenos adornos, bolinhas de isopor coloridas ou, ainda, fitinhas multicores que balançavam graciosamente com a ação do vento. Muitos dos animais, cãezinhos ou gatinhos caseiros, tartarugas, cágados, bezerros ou potros, que inadvertidamente tentavam ultrapassar a rodovia, ficavam no meio do caminho. Atingidos pelos carros, tentavam ainda sobreviver se arrastando até a beira da estrada. 
Nem bem fechavam os olhos e uma nuvem de aves escuras, os abutres, que conhecíamos como urubus, começavam a realizar vôos rasantes pelas proximidades. No início um mensageiro, um desbravador, pacientemente acompanhava a morte do bichinho. Vez por outra desferia uma bicada como que conferindo se a vida já havia se esvaído do corpo inerte. O espetáculo, para mim triste e incompreensível, se iniciava em poucos minutos. O bando de grandes aves se apossava do corpinho já sem vida. Em minutos, com bicadas certeiras, separavam a carne dos ossos. Terminado o rápido banquete, restavam alguns sinais do que um dia foi um ser vivo.

23/11/2012

Causas e consequências


O professor David Fleck dizia que mais do que os marcos históricos, mais do que os personagens envolvidos, o que realmente interessava eram as causas e as consequências. Isto não fazia muito sentido para um menino de 11 ou 12 anos de idade, ainda envolvido com questões outras mais prementes e com os salutares sonhos juvenis. 
Com o tempo, no entanto, as informações recebidas vão se juntando em forma de mosaico. O que parecia uma imagem abstrata se revela algo claro, límpido. As convicções infantis, por sua vez, se tornam garatujas, eis que não chegam à arte final.
Levou tempo para entender esta questão dos ciclos. Hoje com mais clareza sinto que onde estivermos fazemos parte de histórias paralelas. Estamos dentro de conjuntos, rodeados de semelhantes. Estes conjuntos se tocam e ocorre a intersecção. O que parecia tão abstrato, tão complicado nas aulas de matemática hoje se revela tão real.
Somos personagens. Vivemos e atuamos. Interferimos nas histórias dos outros que, por sua vez, entram na nossa vivência. E assim seguimos inadvertidamente numa troca de experiências permanente. 
Cheguei a este tema diante da manifestação de uma querida colega. Pela manhã me disse: “hoje é meu último dia aqui!”. Lembrei que a vida é composta de ciclos. Avançamos no tempo e vamos juntando as experiências possíveis. Às vezes temos a nítida impressão de que já vivemos aqueles fatos em algum momento. Os dias passam e a cada dia se abre um pequeno ciclo que se fecha logo ali. As semanas são ciclos, os meses, os anos, as décadas. A vida é um grande ciclo. Pequeno, porém, se se considerar a vida do Universo.
O fechamento de ciclos pode representar dor, perda, satisfação, esperança. A certeza que se tem é de que após um ciclo outro começa. Este, porém, um dia também se fechará. E assim seguimos todos nós protagonistas aqui ou meros coadjuvantes acolá.
Certo é que somos os donos de nosso destino. Podemos iniciar ciclos e também abortá-los. Ações, palavras, pensamentos, sentimentos, emoções de hoje vão formando o dia de amanhã. O futuro vem sendo construído lentamente. Tudo isso sem que se pense, sem qualquer sinal de alerta. O Universo inteiro se move permanentemente e em silêncio. Assim é a Lei da Natureza. Não há como contrariá-la.
O mesmo ocorre com a partida daqueles com quem convivemos. Quando se afastam deixam em seu lugar um silêncio. É da Natureza. Não há como contrariá-la.

13/11/2012

O abandono


Imagens antigas do que um dia
foio nosso presente
O tempo passa no ritmo da nossa pressa. Segunda-feira: hora de levantar, nova semana que chega. Levar os filhos na escola, café magro, trabalho, buscar filhos na escola, almoço, gols da rodada, debates esportivos, trabalho, mercado, cafezinho da tarde, passeio de bicicleta, jornal na tevê, uma música no computador, atualizar e-mails, conferir o blog, o face, filmezinho, sono, sonhos. E já é terça e já chega quarta. A quinta passa que nem um raio. Sexta-feira se anuncia puxando consigo o final de semana. Finaleira do brasileirão, Faustão, Fantástico, alguma bomba eleitoral no final da noite no noticiário regional. E assim vai. Passa o dia, a semana e o mês que vem já bate na porta.
O tempo passa e vai enterrando as coisas que fizemos. As comezinhas esquecemos.  Muitos dos sonhos também ficam para trás. E os dias passam, os meses também. E sai estação e entra estação. Faltam poucos meses para as férias e daqui a pouco as férias já se foram. A voracidade do tempo, porém, não consegue vencer o encanto dos velhos álbuns de fotografias. Aquelas abandonadas fotos, que foram um dia o presente, guardam sorrisos e poses de pessoas que vagamente lembram nós mesmos. 
As imagens se sobrepõem. Não só as impressas. Também aquelas imagens mentais que estão arquivadas em algum lugar do esquecimento e que inadvertidamente se lançam das profundezas. São também capazes de suplantar a passagem do tempo. Sensações, impressões antigas, paisagens, gostos e sentimentos. O tempo também não é capaz de impedir que aflore o sentimento desencadeado por uma bela e velha canção. Por uma voz que um dia foi presente. Por uma melodia que serviu de trilha sonora para um instante significativo ou para uma cena despretensiosa.
Remexer nos velhos baús trás à vida aquilo que muitas vezes abandonamos. Onde andará aquela pessoa que sorri ao meu lado? Parecia tão amiga e sumiu como um agente secreto, levando sabe se lá que tipo de informação a nosso respeito. Quem era mesmo aquela colega de aula, quase que totalmente encoberta pelo gordinho simpático da turma, que esticava o olho sobre minha prova de Português? Onde andará aquela professora que ficou duas semanas somente com a turma não dando tempo de decorarmos seu nome?
E eis que a tevê, por vezes tão alheia às coisas que verdadeiramente nos interessam, também resolveu mexer nos seus estimados baús. Numa dessas tantas novelas, se vale de uma velha canção da Beth Carvalho, de autoria de Eduardo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós, Andança, como trilha sonora de algum romance. Lembro dela e de uma colega que, tocando seu violão com esmero, lançava sua voz suave valorizando a aula de alguma disciplina no Curso de Letras da FACOS.  “Meu olhar em festa...(me leva amor)/Se fez feliz/Lembrando a seresta/Que um dia eu fiz(por onde for quero ser seu par)”.
O tempo passa e para trás fica tudo o que foi possível fazer. Pensando bem, o que é o futuro senão o reflexo daquilo que um dia se fez. Que graça teria tudo isso se não tivéssemos mantido em algum lugar um baú cheio de imagens, sons, sensações, sentimentos, planos e sonhos?

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09/11/2012

Os Mutantes


Tudo corre, tudo flui, tudo passa. Tudo o que existe agora se transforma logo ali. A realidade de agora não será a mesma realidade daqui a poucos segundos. Nada se repete no Universo. A transformação se dá de maneira imperceptível, ininterrupta e irrevogável. Não há como legislar sobre isso. O poder humano é pequeno diante da magnitude das inflexíveis e inafastáveis leis naturais. 
Os princípios filosóficos expostos até aqui não são obra do colunista. São interpretações livres do que disse um dia Heráclito de Éfeso, que viveu no período compreendido entre 535 e 475 a.C. O filósofo concebia a vida com algo em movimento constante. A passagem do tempo vai transformando a tudo e a todos. 
A impressão de Heráclito vale inclusive para os homens. Muito embora a aparente irredutibilidade de alguns, homens e mulheres são seres mutantes. As experiências vão se juntando de tal forma que o indivíduo hoje é muito diferente do que foi um dia. “Tudo que se vê não é/ Igual ao que a gente/Viu há um segundo/Tudo muda o tempo todo” como diria aquela velha canção do Lulu Santos.