28/02/2013

As cores da volta às aulas


A volta às aulas é sempre motivo de festa. Nos bairros, meninos e meninas caminham em fila pelas ruas em direção às escolas carregando nas costas suas inseparáveis e coloridas mochilas, sempre abarrotadas de material.  Nas escolas do Centro da cidade, as filas são de carros e vans transportando a alunada. Disputam cada vaga de estacionamento, artigo raro no presente momento. Filas duplas e até triplas não são novidade.
A imagem dos estudantes, alegres ou sonolentos, com ombros e coluna vertebral sobrecarregados pelas pesadas mochilas, me leva a um tempo muito distante onde havia muito pouco glamour. As roupas não eram da moda. Os corredores do colégio, como se dizia então, não eram passarelas onde a gurizada mostrava a última peça da coleção de Outono. Os estudantes da escola pública usavam guarda-pós brancos. Todos, sem exceção. Quem não chegasse ao portão com o uniforme era mandado embora, acompanhado de um bilhete. Os pais não eram comunicados por telefone, porque isto era artigo de luxo.  Não eram muitas as escolas que tinham um aparelho instalado.

25/02/2013

O casamento

Os noivos na lente da competente Susi Moraes

Na noite de 23 de fevereiro, na sede do Clube Atlético Milionários, minha filha Amanda, a quem chamo desde que nasceu de Princesa, foi por mim conduzida ao altar. Com Marcelo Campos Wagner começa uma nova caminhada. Construirão uma nova família. 
Fui intimado a apresentar uma mensagem. Durante  a festa alguns amigos pediram que fosse publicada. Compartilho com os seguidores deste blog parte da emoção que tive naquele momento.


"Quando nossos filhos estão felizes, nós, os pais, somos contagiados por isso". 

O pai e a Princesa
(foto Antão Sampaio)
Durante boa parte da sua existência, a humanidade busca entender o que é o destino. Como a história individual de cada homem, de cada mulher se desenvolve? Quais os fatores que determinam a felicidade ou a infelicidade; as graças da fortuna ou a aspereza da carência? O que está reservado para cada um dos humanos?
A solução mais simples de todas foi lançar às centenas de divindades, criadas para explicar o funcionamento do mundo, o poder sobre todos os acontecimentos da vida. O ato criador, o nascimento, o crescimento, o desenvolvimento pleno, a sorte no amor, a vitória na guerra, o resultado da safra, as tempestades, a bonança, a saúde e a doença, a vida e a morte. 
Tudo acontecendo a cada um dos homens sempre pela interferência direta dos deuses. Só deles.
O homem era uma espécie marionete. Sua vontade pouco importava. Sua vida não lhe pertencia. O seu destino era  o destino traçado pelas divindades.
Para agradar a estes deuses, complacentes com uns e coléricos com outros, os homens primitivos desenvolveram uma série de artifícios. Banquetes, oferendas, festivais, pactos, imolações e sacrifícios. Tudo para que tivessem uma boa sorte, uma deferência especial e uma vida privada de sacrifícios.
Desnecessário dizer que as estratégias não funcionaram. 
Hoje, porém, com o avanço conquistado nas ciências, na tecnologia e no mundo das ideias, o homem sabe que ele é o próprio construtor da sua existência. Os caminhos pelos quais passa a sua vida, presente do Criador, estão intimamente ligados à sua vontade, à sua força, à sua determinação.
O homem, sabemos hoje, é o protagonista do espetáculo chamado destino. Sua trajetória depende de seu esforço. Sua caminhada depende do investimento que fez.
O futuro é o resultado daquilo que vem sendo produzido ao logo dos tempos. 
Hoje, aqui nos encontramos para celebrar a trajetória em comum que vocês, Marcelo e Amanda, desejam empreender. Rogamos todos nós, pais, irmãos, familiares e amigos que esta caminhada seja harmônica. Que tenham a exata determinação que demonstraram até hoje, que sejam perspicazes perseguindo seus sonhos, buscando construir a estrada que lhes convém.
Marcelo e Amanda, o encontro de vocês não é obra do acaso. Aliás, o acaso não dirige os homens. Há leis naturais muito bem arquitetadas pelo grande Criador dos mundos. Leis inflexíveis, imutáveis, inderrogáveis. Leis perfeitas que explicam tudo, o encontro e o desencontro, o início e o fim.
Dentro destas leis está a do Progresso. Ela determina que todos nós caminhemos rumo ao desenvolvimento do ser. E por isso necessitamos do outro. Da compreensão, do carinho, da amizade, da parceria dos nossos semelhantes num processo de concessões onde mutuamente vamos nos apoiando para o crescimento de cada um de nós. 
A constituição de família é uma decorrência deste processo. Deixamos a família paterna para voar com nossas próprias asas. Em alguns momentos poderá advir certo distanciamento. Isso é salutar para todos. Porém, em outros, o que mais se quer é a proximidade. Que bom que é assim!
Marcelo e Amanda: sejam felizes! Continuem construindo o seu destino, agora um caminho comum. Não anulem seus sonhos. Continuem investindo no crescimento intelectual, moral e espiritual. Continuem trabalhando pela construção da felicidade. 
Quando nossos filhos estão felizes, nós, os pais, somos contagiados por isso. 
Por isso todos nós, pedimos neste momento que as boas energias emanadas pelos que os amam estejam com vocês os auxiliando nesta trajetória.
Que nosso Pai, Criador, Senhor da Justiça e da Bondade esteja com vocês intuindo e auxiliando na construção da estrada que vem sendo pavimentada por vocês.
Sejam felizes: é o que desejamos!





19/02/2013

A cidade antiga

Aspecto do Centro de Osório (foto-Memória Osoriense)

A cidade que foi vista pelos olhos de nossos avós e pais não existe mais. O singelo casario, testemunha de um distante passado, foi posto no chão.  Substituído pelos feios prédios de linhas retas, sobrevive ainda nas fotografias antigas. Ali, nestes flagrantes de um tempo antigo, a cidade é outra. As ruas são outras, as árvores são outras, as pessoas são outras. Os homens de terno e chapéu, moleques de calções largos, amarrados com cordão na cintura e pés descalços, mulheres de roupas discretas e pouco insinuantes. Tudo é sóbrio nas fotos em preto e branco.
As velhas ruas, de areia com leve cobertura de cascalho, distribuíam pó quando os poucos carros ousavam transitar por ali causando verdadeiro desespero em Dona Joaquina que minutos antes havia distribuído suas roupas recém lavadas no varal nos fundos da casa. Nos dias de chuva, o drama era outro. O lamaçal empantanava as botinas grosseiras, os sapatos mais refinados e os pés dos moleques. O pó e a lama, que tanto incomodavam as prestimosas donas de casa e todos os outros, não existem mais. Foram sepultados pela pedra irregular que machucou durante décadas os maçambiqueiros do Morro Alto.  Até que outra camada, desta vez de asfalto, fosse lançada sobre as pedras cobrindo de uma vez por todas o pó da Dona Joaquina e as pontas irregulares que machucavam os pés dos negros da corte da Rainha Ginga. Os dançarinos não são mais os mesmos. Os versos, porém, que embalam seus corpos e suas mentes são os de então: “Ei, nossa rainha saia para fora, com a sua ordenança, vamo-nos embora”.

08/02/2013

A prevenção

Tranca de ferro

Depois da porta arrombada, tranca de ferro. Quem nunca ouviu este adágio popular pelo menos uma vez na vida? Hoje, no entanto, este ditado é muito mais presente.  Vem sendo repetido à exaustão após a tragédia de Santa Maria. Uma verdadeira histeria, compreensível diante do chocante número de vítimas fatais, se estabeleceu no Estado e no país, visando evitar outros incidentes semelhantes. As instituições estão em estado de alerta. Agora, só agora, é hora de fiscalizar!
A impressão que se tem é de que realmente são necessários eventos altamente danosos para que os responsáveis comecem a agir como devem. E isto não é um costume exclusivo do nosso povo.  Os EUA, que registram cada vez mais casos de extermínios com uso de arma de fogo, também têm se valido deste expediente. A situação é tão apavorante que o presidente Obama está realizando um esforço enorme para convencer os cidadãos de que é necessário sim um regulamento mais restritivo em relação à liberação de armas.

30/01/2013

A dor, o sofrimento e a galhofa


Enquanto a dor, o sofrimento e a comoção tomavam conta de todo o país num domingo cinza; enquanto milhares de voluntários arregaçavam as mangas para atender as vítimas e seus familiares; enquanto milhões de pessoas incrédulas assistiam as fortes cenas da boate Kiss em chamas; enquanto muitos internautas tentavam de alguma forma contribuir, parte pequena e ruidosa mostrava total alienação e falta de comprometimento para com a tragédia alheia.
Escondidos atrás de suas máquinas, inconsequentes e insensíveis navegadores lançavam sujos comentários. Uma menina achava graça de tudo.  Rude, grosseira, deselegante brincava com o hábito gaúcho de fazer churrasco aos domingos. Talvez algum soldado nazista, cumprindo as ordens emanadas pelo tirano, tenha em algum momento sentido mais compaixão do que ela.  
Não demorou  para que alguém, apressado, rancoroso e insensível ligasse a morte dos estudantes aos desmandos políticos da nação, aos “mensaleiros” e ao ex-presidente Lula. A pressa demonstrada por alguns era tão grande em agredir que nem a atitude da presidente Dilma, que deixou encontro de presidentes e se deslocou com presteza até Santa Maria, foi poupada. Aquilo que se vê de admirável, de humano no presidente Barack Obama, que suspende sua agenda em casos de comoção e se desloca até o local da tragédia para prestar solidariedade, em Dilma é aproveitamento político. 
O querido amigo Luís Henrique Benfica, atento a tudo na redação da RBS, estranhando a quantidade de comentários inapropriados e desumanos durante todo o domingo cinza nas redes sociais, postou no Face questionamento sobre tudo isso: “Será que estou louco?”. Não, não estamos loucos, respondo.  
Democrática como é, a internet dá voz a quem não deve ser ouvido. Dá notoriedade a quem não deve ser notado. Tudo vira motivo de piada. Cérebros inábeis transformam coisas sérias em meros gracejos. Assuntos densos viram brincadeirinha infantil. A galhofa por vezes é o tom. Nem mesmo a medida sensata e responsável da suspensão temporária do Planeta Atlântida, que seria realizado no próximo final de semana, passou incólume.  Um que outro lembrava os arranjos feitos no trabalho e os esforços necessários para a compra do ingresso.  “Quem pagará o meu prejuízo?”, perguntava com ansiedade. 
Apesar dos desatinos de alguns, que causam desconforto e desconfiança em relação aos limites do homem, é importante ressaltar que, nos momentos cruciais, como nas tragédias como esta de Santa Maria, parte mais significativa do gênero humano demonstra que no seu íntimo residem os sentimentos de pesar, de compaixão, de solidariedade e de cumplicidade prontos a serem libertados diante da necessidade. 
Ninguém conseguirá amainar a dor dos que perderam seus filhos, seus familiares e amigos. Porém, todos poderão contribuir silenciosa e respeitosamente com um pensamento, com uma oração, uma prece pelos pais que sofrem e por todos os filhos que partiram.

24/01/2013

A fórmula do sucesso


Sou solidário à comunidade que protesta em todos os verões contra mais uma edição da arapuca virtual protagonizada pelos heróis globais e seu joguinho sacana. Ao que consta, porém, a gritaria não tem sido suficiente para repercutir junto a patrocinadores. Do lado de lá somente silêncio. Para eles, toda a  gritaria não passa de insignificante sussurro. 
Uma coisa é certa:  a fórmula dos shows realísticos é muito boa. E rende muito. Candidatos que pretendem amealhar algum valor em dinheiro ou impulsionar uma carreira qualquer, cercados de câmeras, impulsionados pelos olhares anônimos de milhões de pessoas, vivem uma realidade fabricada na medida para que saiam do sério. Longos banhos de piscina, festas, corpos expostos, puxa daqui, empurra dali, uma bebida para refrescar ou esquentar a situação. Depois é jogar o jogo comandado pelo talentoso líder, misto de filósofo da banalidade e arauto do olimpo global.
Confinados na “casa”, deuses e semideuses, heróis da nação "pedrobialiana" expõem para um público louco por uma empulhação o melhor do pior. Conchavos, alianças, manipulações, enjambrações das mais criativas. A sede dos jogadores, por vezes cobertos por sutis edredons, lembra a relação incestuosa dos políticos pátrios com as gordas tetas da nação.
Os expectadores do show realístico, porém, estão em larga vantagem. Os mandatos dos “heróis” são diminutos. O reinado dura um só verão. Vez por outra um deles consegue uma sobrevida. Uma pontinha numa novela.  Uma participação num desfile. Umas fotos nas revistas e pronto. É uma exceção. A maioria volta para a fila dos comuns. Fim da linha.
Já o show protagonizado pelos jogadores das finanças do país é coisa que não tem fim. De vez em quando um escândalo derruba meia dúzia. São substituídos logo ali por outros párias. E a sacanagem segue interminável. 
O show televisivo termina ou é abortado pelo uso consciente do controle remoto, a melhor arma que dispomos de controle de qualidade. Porém, não há controle remoto para segurar os saqueadores do erário público. Uma pena. Seria de grande valia!

17/01/2013

Apreciando o movimento


Os carros passam em fila indiana. Apressados, os motoristas mal têm tempo de apreciar a paisagem. As casas vão passando uma a uma. Aos olhos dos condutores são a mesma. Porém, são distintas. Cada uma tem uma história. Cada casinha daquelas tem uma personalidade. São lares de gente que planeja o futuro, que trabalha. Ou de gente que só vive o dia de hoje e não se preocupa com o que vem por aí. Ou, ainda, de gente que vive do passado, revolvendo memórias de coisas que se passaram, que marcaram a existência. Não planejam o futuro. Talvez até pensem que ele não exista. 
Uma senhora, alva, idosa, assiste ao movimento da BR. Com seu vestido floreado  sentada confortavelmente numa poltrona, aprecia sem pressa os carrinhos que desfilam diante de seus olhos. Talvez faça como fazíamos nós, eu e meus irmãos, que criávamos jogos. “Os carros vermelhos são teus, os azuis são meus”. Invariavelmente, em algum momento, dava algum desentendimento. Ao contrário de nós, ela não tem com que discutir, não tem como inventar regras de última hora levar vantagem sobre o oponente.  
Quando era pequeno, muitas vezes agia como a velha senhora. Gostava de apreciar o movimento que se deslocava ao litoral. Carros, carrinhos e carrões. Passavam rapidamente levando apressados veranistas secos por um pouco de água salgada e por um naco de areia da praia. Alguns vinham abarrotados de gente. Os vidros invariavelmente abertos, eis que ar condicionado naqueles tempos era luxo hollyudiano. Além do sobrepeso interno, alguns dos pobres veículos ainda traziam no teto cobertores, acolchoados, colchões e outros insuspeitos volumes.
A praia era algo distante. Não estava nos nossos planos. O orçamento doméstico era deficitário. A rubrica para o entretenimento da gurizada era zero. Não só no verão, mas sim nos doze meses do ano. A solução era procurar algum açude para pescar alguns lambaris, joaninhas, carás ou trairinhas. Após a pescaria, com meia dúzia de peixinhos acomodados na improvisada fieira, chegava a hora do banho. A água era barrenta. Pobres das mães dos parceiros que ostentavam calções brancos.  
Tal qual a velha senhora, não fazia planos para o futuro. Curtia os dias de verão brincando de maneira improvisada. Brincadeira barata. Sem custos. No mais, no final do dia, na frente de casa assistia ao desfile de carros em direção às praias. As distantes praias do Litoral.  

11/01/2013

Os melhores momentos

Houve um tempo em que os jogos de futebol, inclusive as decisões dos estaduais, não eram transmitidos pela tevê. As redes de televisão filmavam os jogos e os apresentavam no final da noite. Durante à tarde, os torcedores tornavam-se reféns dos locutores de rádio. Os narradores, na ânsia em tornar as contendas ainda mais emocionantes, transformavam qualquer chutão em perigo de gol. "A bola passou raspando" dizia o narrador. A visão do torcedor criava a imagem da bola viajando perigosamente a alguns milímetros da trave. Sofrimento em vão: na realidade a proximidade nem era tão grande.
A tevê avisava solenemente: "Assista ao vídeo tape completo do clássico decisivo, hoje, às 10h30min da noite!". Como chamamento apresentava alguns poucos lances do jogo, os melhores momentos. Todas as emoções ficariam para mais tarde.
Os jogos hoje estão na tevê. Nem só os jogos, algumas emissoras gastam um tempão com os treinos. Discutem longamente a parte tática, as possíveis soluções que os treinadores poderão utilizar. Enfim, o futebol foi devassado. Tudo está na tevê. O torcedor já não precisa esperar até o final da noite. O jogo tá na tevê, no site, no blog. Está em todos os cantos. Até no rádio.
O mesmo está ocorrendo com as fotos. Houve um tempo, o mesmo em que o futebol não era transmitido ao vivo, em que fotografias (ou retratos) solenemente guardavam os momentos especiais. Para gastar um pose era necessário certo preparo. Primeiro haveria de se ter uma máquina fotográfica. Eram caras e poucos recursos tinham. Algumas, na realidade, não contavam com recursos. Um delas, a mais popular, vinha com um flash embutido. Depois de um tempo tinha que se comprar outro flash para substituição. Havia ainda a necessidade de adquirir um filme. Havia de 12, de 24 e de 36 poses. Este filme deveria ser recolhido, enviado a um laboratório para revelação. 
Não era incomum a constatação de que todas as fotos do casamento, por imperícia do fotógrafo ou por imprudência do laboratório, haviam sido perdidas. Muitas vezes os filmes eram enviados pelos Correios para laboratórios localizados na Zona Franca de Manaus (eu disse Manaus!). Depois de quase um mês de espera chegava a encomenda. Algumas fotos aproveitáveis e um filme grátis. Ao lado das fotos algumas miniaturas que, convenhamos, não prestavam para nada.
Hoje não é necessário esforço tão grande. Basta uma máquina razoável, um celular, um Ipad ou mesmo um computador qualquer. É só clicar e pronto. 
Ficou tão comum fotografar que ninguém sai para um passeio sem uma máquina. Às vezes o passeio ou o evento nem é tão grandioso. Porém, é o máximo se render boas fotos. A impressão que me causa é de que toda a emoção vai sendo substituída pelo prazer de  postar a imagem na rede. Os melhores momentos deixaram de existir. Tudo é o melhor momento. O almoço, o restaurante. O café da manhã. O banho no mar. Não há mais tempo  para assistir ao vídeo tape.
A vida de hoje tem edição instantânea.