11/03/2014

A borboleta

Uma borboleta surgiu no meio da cidade grande. Talvez tenha cruzado por um milhão de pessoas que a ignoraram. Uma delas, no entanto, deixou seus afazeres e dedicou parte do seu tempo a seguir o voo solitário. Disfarçadamente fez que não viu um conhecido. Não desejava perder de vista a pequena intrusa. Nem queria ser confundido com um louco, um debiloide qualquer que no meio da tarde quente anda por aí, irresponsavelmente, correndo atrás de borboletas pela rua. Isto, convenhamos, seria um atentado à reputação de qualquer um.
As desventuras do velho cronista seguindo uma simplória borboleta foi tema de uma crônica de jornal, de autoria do insuspeito Rubem Braga. Os leitores, com certa ansiedade, acompanharam durante três dias o surgimento, a trajetória e o sumiço da borboleta, que se perdeu das vistas de seu acompanhante sem deixar qualquer sinal, misturando-se aos prédios, árvores, carros e ônibus.

06/03/2014

As viúvas do General

Há alguns amigos que não perdem tempo.  Estão conectados com os anos de chumbo. Apavorados com a roubalheira, que ganha ampla divulgação pela imprensa, contrariados diante do resultado dos julgamentos dos corruptos e indignados pela fixação do regime de cumprimento da pena e por tantos outros capítulos que se seguem vagarosamente como as novelas das nove da noite, gritam por dureza, por penas mais fortes. Na realidade, o que desejam é uma resposta mais dura e que atinjam preferencialmente todos aqueles que não prestam: os outros.
No rabo deste foguete aparece uma foto de um antigo ditador de farda, fazendo previsões nada positivas sobre o futuro da nação. Requentaram até General no Facebook. E, ainda por cima, com cara de sério. Em síntese: querem uma nova ditadura para resolver o problema da sacanagem que campeia pelo país afora. Santa Ingenuidade, Batman!

26/02/2014

As lendas

Conta a lenda que, no ano de 490 a.C, soldados gregos marchavam até a planície de Marathónas para lutar contra o exército persa. O comandante grego notou, porém, que seu exército era diminuto e se continuasse marchando seria facilmente derrotado pelos adversários.
Sabiamente, estacionou sua tropa e escolheu o soldado mais veloz de todos (Pheidippedes) para que corresse os 40 km que os separavam de Atenas. Lá deveria arregimentar mais homens para se juntar ao exército. E assim foi feito.
Em pouquíssimo tempo, o soldado corredor retornou marchando com mais 10 mil homens. Com as fileiras encorpadas, os gregos venceram a batalha. Satisfeito, o comandante deu nova ordem a Pheidippedes (que deve ter pensado naquele momento: “o homem não larga do meu pé!”). Deveria retornar os 40 quilômetros e informar a todo o povo que os gregos haviam vencido. Obediente como cabe a um soldado, mesmo enfrentando a fadiga da guerra, da falta de sono, de alimento, voltou até a cidade. Ao chegar, extenuado ao extremo, juntou o pouco de forças que lhe restavam e pode somente dizer uma palavra, antes de cair morto: “vencemos”.

13/02/2014

Telejornais

Enquanto os pingos de chuva sepultam o calor intenso que incomodava a todos, dedico alguns minutos ao telejornal. Me ocorre que, diante de tudo o que o locutor apresenta, estou vivendo uma realidade particular. Ou melhor, quase todos estamos vivendo realidades particulares.
E vejo que estou muito longe de entender o que vem ocorrendo no nosso país. Nem me refiro ao mundo porque seria pretensão demasiada para quem se confessa um incompetente para entender a realidade de nossa querida pátria.
Não é falsa humildade (em princípio este sentimento não é muito comum entre os cronistas - todos eles tão senhores de si). Não é falsidade não. Confesso minha total ignorância diante destas rusgas que tomam conta das ruas, onde meninos e meninas jogam coquetéis incandescentes contra soldados, destroem veículos particulares, apedrejam ônibus (muitas vezes com mulheres, crianças e velhos no seu interior), lançam pedras e paus nas vidraças de lojas, escarafuncham no interior dos comércios levando o que não os pertence.

O fim do futuro

Crescemos pensando no futuro. Projetamos coisas para os dias que virão. Trabalhamos hoje com o olhar voltado para a aposentadoria no dia de amanhã. Se possível, guardamos um pouquinho na poupança para uma eventualidade qualquer. Previdência sempre foi uma expressão na moda. Até hoje.
Os dias de hoje, no entanto, revelam-se muito diferentes dos de ontem. As gerações que recém botaram os pés neste chão encontraram outros tempos. Outras normas, outros recursos, outras vivências. Não basta o projeto futuro. Importa o hoje. O prazer de agora. O futuro não está em pauta. Ninguém precisa de estabilidade. Precisa, isto sim, ostentar um hoje brilhante e mutante. Instável, mas prazeroso. A estabilidade não apresenta novidades. A rotina cansa.

29/01/2014

Os 40 anos do Homem de Seis Milhões de Dólares



O ano de 2014 marca os 40 anos de lançamento (nos EUA) da série Cyborg- O Homem de Seis Milhões de Dólares. Estrelado pelo ator Lee Majors, a série televisiva foi inspirada no livro "Cyborg" de Martin Caidin. Na série, o astronauta Steve Austin sofreu um acidente em um vôo experimental de uma nave da NASA. Para trazê-lo de volta a vida, o cientista Oscar Goldman financiou uma operação que substituiu as partes avariadas de seu corpo por partes biônicas, gerando uma criatura mais rápida e mais forte.
A série estreou no Brasil em 1976, na extinta Tevê Tupi. Depois integrou a grade da Bandeirantes e mais tarde, nos anos 80, da Globo.
A série teve boa audiência. Na terceira temporada, Steve Austin ganhou uma parceira também biônica: Jaime Sommers, interpretada pela atriz Lindsay Wagner.
Vez por outra surgem informações de que a série terá remake. Porém, até o momento nenhuma iniciativa neste sentido foi tomada.

Veja a abertura no vídeo abaixo.



Saiba mais:

27/01/2014

Mínimas coisas

Minha atenta professora de Português alertava: “jamais comece uma redação pelo título”. O título é o detalhe final. Pois bem, via de regra me vejo contrariando esta norma, sem grandes preocupações. Ao iniciar a feitura de uma crônica, frequentemente mando para o espaço a regra  ditada pela  zelosa mestra,  iniciando  justamente por onde não deveria, pelo título. Um pequeno detalhe. Uma coisa mínima. Quase insignificante.
Aliás, se pensarmos bem, não é impossível concluir que a vida cotidiana até poderia ser considerada uma sequência de fatos poucos interessantes. Um amontoado de coisas comuns com poucas pitadas de sal e de açúcar. Pelo menos a vida dos simples mortais como nós, estes privilegiados seres que trabalham para pagar as contas, para garantir algum conforto e as satisfações possíveis conforme o orçamento de cada um. Vivemos sem grandes feitos, sem heroísmos, sem grandes holofotes.

10/01/2014

Um funk aos antepassados

Fac-símile de pintura rupestre
A moça caminha lentamente. Leva em uma das mãos um par de chinelos. O tio joga bola com o sobrinho. Apesar da imensa barriga, que o limita em alguns movimentos, mostra que um dia teve alguma intimidade com a pelota. Alguns argentinos caminham, fumam e falam alto. A água, gelada e clara, encosta na areia banca e quente. Dois salva-vidas remanejam as bandeiras de área perigosa, apitando para que os meninos saiam das proximidades.
Na subida do morro, uma placa indica que a partir de agora os visitantes conhecerão as marcas deixadas pelos antigos moradores da ilha. Não se sabe ao certo se eram evocações às divindades, algum agrado aos deuses, um pedido de, ou, ainda, uma mensagem deixada para as futuras gerações. Certo, porém, é que as pedras do Sítio Arqueológico da Praia do Santinho, em Ingleses- SC ainda hoje guardam os desenhos de símbolos feitos por homens que ali viveram há mais de sete mil anos atrás.