Uma borboleta surgiu no
meio da cidade grande. Talvez tenha cruzado por um milhão de pessoas
que a ignoraram. Uma delas, no entanto, deixou seus afazeres e
dedicou parte do seu tempo a seguir o voo solitário. Disfarçadamente
fez que não viu um conhecido. Não desejava perder de vista a
pequena intrusa. Nem queria ser confundido com um louco, um debiloide
qualquer que no meio da tarde quente anda por aí,
irresponsavelmente, correndo atrás de borboletas pela rua. Isto,
convenhamos, seria um atentado à reputação de qualquer um.
As desventuras do velho
cronista seguindo uma simplória borboleta foi tema de uma crônica
de jornal, de autoria do insuspeito Rubem Braga. Os leitores, com
certa ansiedade, acompanharam durante três dias o surgimento, a
trajetória e o sumiço da borboleta, que se perdeu das vistas de seu
acompanhante sem deixar qualquer sinal, misturando-se aos prédios,
árvores, carros e ônibus.







