07/04/2014

Era frustrada

A cidade pacífica onde os moradores deixavam os carros abertos, onde os muros eram meramente decorativos e as pessoas sentavam na calçada para compartilhar um mate, é coisa do passado. São imagens antigas como aquelas velhas fotos que vão perdendo as cores e o brilho. A passagem do tempo tem sido cruel com os costumes provincianos. O que se vê hoje, em qualquer cidadezinha interiorana é o crescimento cada vez mais intenso no uso dos aparatos de segurança. Cercas, muros, câmeras, seguranças particulares. Adeus conversa de vizinhos sobre a cerquinha de madeira.
Aquilo que era realidade nos grandes centros há décadas, agora faz parte do dia a dia das médias e pequenas cidades brasileiras. Até nos interiores do interior, a preocupação com a segurança tem crescido sobremaneira.

28/03/2014

As opiniões

arte (extrasm.com.br)
Opinar é bom. É necessário. É fundamental, especialmente no processo democrático. Opinar sempre, independentemente do assunto torna-se cansativo. Perde a graça. Causa incômodo.
Nos dias de hoje, vive-se o império da manifestação. Nas redes sociais, então, não há limites. Compartilhe algo e chove manifestações questionando quais seriam as tuas intenções, criticando por isso e por aquilo. Se alguma ação do governo local é curtida, em segundos os guerrilheiros do outro lado crivam de comentários negativos. Ressalte qualquer aspecto da vida nacional e os críticos de plantão vão derrubar seus barris de ódio ao PT, à Dilma, ao Tarso e a qualquer um que possa ser criticado, mesmo que não tenha nada a ver com a história.
Está ocorrendo na internet aquilo que nós gaúchos estamos carecas de conhecer: a regionalização. Se alguém comenta uma vitória de seu time, algo banal, comum, corriqueiro e, muitas vezes despretensioso, acaba mexendo com uma galera radical que não sabe levar na esportiva. Alguns mostram os dentes ameaçadoramente, destilando ódio por todos os poros, babando pelos cantos da boca como os lobos enfurecidos. Homofobia, racismo, xingamentos diversos, expressões chulas, tudo sem muita medida, coisas desnecessárias poluindo aquilo que deveria ser uma ferramenta de diversão, de entretenimento, um reles passatempo.

27/03/2014

O tempo, a vida e o amor

Daqui a pouco o Romário me manda uma mensagem: “e aí, tá pronta a coluna?”. Respondo, invariavelmente não importando o estado em que se encontra: “te mando em um minuto!”. Força de expressão, é claro. Neste caso, um minuto dura bem mais do que isso. Já chegou a durar uma hora ou mais. O Romário, que trabalha na redação do Jornal Bons Ventos, sabe como poucos que o tempo é relativo.
E não é especulação. Trata-se, isto sim, de uma verdade absoluta. Está comprovado de que a percepção do tempo depende muito da visão do indivíduo. O multitarefado, que faz um monte de coisas no mesmo instante, sente a passagem dos minutos e das horas diferentemente daquele que vive no ócio. Muitos conseguem acessar às redes sociais, dando pitacos geniais ou bestiais (depende do gosto e da capacidade de cada um), preenchendo o malfadado Imposto de Renda, ouvindo The Kooks, lendo as notícias do site e ainda produzindo alguma coisinha para a firma. Tudo ao mesmo tempo, com o telefone celular notificando a cada segundo as atualizações das mensagens e dos aplicativos. Já na ilha dos que nada fazem, seja por aposentadoria, por inaptidão ao trabalho ou por deliberação própria mesmo, a segunda-feira e o domingo são a mesma coisa. Com a diferença, é claro, de que na segunda-feira o Faustão está descansando em Miami e gozando o doce sabor que deve proporcionar alguns milhões de dólares.

11/03/2014

A borboleta

Uma borboleta surgiu no meio da cidade grande. Talvez tenha cruzado por um milhão de pessoas que a ignoraram. Uma delas, no entanto, deixou seus afazeres e dedicou parte do seu tempo a seguir o voo solitário. Disfarçadamente fez que não viu um conhecido. Não desejava perder de vista a pequena intrusa. Nem queria ser confundido com um louco, um debiloide qualquer que no meio da tarde quente anda por aí, irresponsavelmente, correndo atrás de borboletas pela rua. Isto, convenhamos, seria um atentado à reputação de qualquer um.
As desventuras do velho cronista seguindo uma simplória borboleta foi tema de uma crônica de jornal, de autoria do insuspeito Rubem Braga. Os leitores, com certa ansiedade, acompanharam durante três dias o surgimento, a trajetória e o sumiço da borboleta, que se perdeu das vistas de seu acompanhante sem deixar qualquer sinal, misturando-se aos prédios, árvores, carros e ônibus.

06/03/2014

As viúvas do General

Há alguns amigos que não perdem tempo.  Estão conectados com os anos de chumbo. Apavorados com a roubalheira, que ganha ampla divulgação pela imprensa, contrariados diante do resultado dos julgamentos dos corruptos e indignados pela fixação do regime de cumprimento da pena e por tantos outros capítulos que se seguem vagarosamente como as novelas das nove da noite, gritam por dureza, por penas mais fortes. Na realidade, o que desejam é uma resposta mais dura e que atinjam preferencialmente todos aqueles que não prestam: os outros.
No rabo deste foguete aparece uma foto de um antigo ditador de farda, fazendo previsões nada positivas sobre o futuro da nação. Requentaram até General no Facebook. E, ainda por cima, com cara de sério. Em síntese: querem uma nova ditadura para resolver o problema da sacanagem que campeia pelo país afora. Santa Ingenuidade, Batman!

26/02/2014

As lendas

Conta a lenda que, no ano de 490 a.C, soldados gregos marchavam até a planície de Marathónas para lutar contra o exército persa. O comandante grego notou, porém, que seu exército era diminuto e se continuasse marchando seria facilmente derrotado pelos adversários.
Sabiamente, estacionou sua tropa e escolheu o soldado mais veloz de todos (Pheidippedes) para que corresse os 40 km que os separavam de Atenas. Lá deveria arregimentar mais homens para se juntar ao exército. E assim foi feito.
Em pouquíssimo tempo, o soldado corredor retornou marchando com mais 10 mil homens. Com as fileiras encorpadas, os gregos venceram a batalha. Satisfeito, o comandante deu nova ordem a Pheidippedes (que deve ter pensado naquele momento: “o homem não larga do meu pé!”). Deveria retornar os 40 quilômetros e informar a todo o povo que os gregos haviam vencido. Obediente como cabe a um soldado, mesmo enfrentando a fadiga da guerra, da falta de sono, de alimento, voltou até a cidade. Ao chegar, extenuado ao extremo, juntou o pouco de forças que lhe restavam e pode somente dizer uma palavra, antes de cair morto: “vencemos”.

13/02/2014

Telejornais

Enquanto os pingos de chuva sepultam o calor intenso que incomodava a todos, dedico alguns minutos ao telejornal. Me ocorre que, diante de tudo o que o locutor apresenta, estou vivendo uma realidade particular. Ou melhor, quase todos estamos vivendo realidades particulares.
E vejo que estou muito longe de entender o que vem ocorrendo no nosso país. Nem me refiro ao mundo porque seria pretensão demasiada para quem se confessa um incompetente para entender a realidade de nossa querida pátria.
Não é falsa humildade (em princípio este sentimento não é muito comum entre os cronistas - todos eles tão senhores de si). Não é falsidade não. Confesso minha total ignorância diante destas rusgas que tomam conta das ruas, onde meninos e meninas jogam coquetéis incandescentes contra soldados, destroem veículos particulares, apedrejam ônibus (muitas vezes com mulheres, crianças e velhos no seu interior), lançam pedras e paus nas vidraças de lojas, escarafuncham no interior dos comércios levando o que não os pertence.

O fim do futuro

Crescemos pensando no futuro. Projetamos coisas para os dias que virão. Trabalhamos hoje com o olhar voltado para a aposentadoria no dia de amanhã. Se possível, guardamos um pouquinho na poupança para uma eventualidade qualquer. Previdência sempre foi uma expressão na moda. Até hoje.
Os dias de hoje, no entanto, revelam-se muito diferentes dos de ontem. As gerações que recém botaram os pés neste chão encontraram outros tempos. Outras normas, outros recursos, outras vivências. Não basta o projeto futuro. Importa o hoje. O prazer de agora. O futuro não está em pauta. Ninguém precisa de estabilidade. Precisa, isto sim, ostentar um hoje brilhante e mutante. Instável, mas prazeroso. A estabilidade não apresenta novidades. A rotina cansa.