23/07/2014

Os índios

Reprodução da pintura 
de Maximilian Philip – séc. XIX
No final da Rua Costa Gama havia o Barcelar. Era um armazém no estilo antigo. Tinha de tudo um pouco. Querosene Jacaré, farinha, arroz, feijão, uma mesa de mini snooker e uma tevê no alto. Acho que aquela foi a primeira tevê que assisti. Era final dos anos 60 ou começo dos anos 70, não lembro bem. No ringue dois lutadores fantasiados se agarravam de maneira intrigante no meio de rabiscos e chuviscos em branco e preto. Davam golpes improváveis. Um era do bem, outro do mal. Os homens, enquanto bebericavam uma mistura de cachaça com bíter ou coisa que o valha, denunciavam aos berros a deslealdade do maldoso mascarado. Era lutinha de mentira. Uma encenação. Mas, havia quem levasse tudo aquilo a sério. Do alto dos meus nove ou dez anos não acreditava naquilo tudo. O melhor era o intervalo comercial: “Seu Cabral ia navegando/quando alguém logo foi gritando: Terra à vista/Foi descoberto o Brasil/A turma gritava: bem vindo seu Cabral...”

09/07/2014

A pescaria

O fedor de podre era muito forte na vila. Nos dias de vento, então, era quase insuportável. Chegava a arder o nariz. Vinha do matadouro. Era assim que o pessoal chamava o frigorífico, que abastecia a cidade com carne bovina. Os moradores da vila, famílias pobres com muitas bocas a alimentar, ali o que mais adquiriam era alguma carne de segunda com muita gordura, coalheiras, tripas, fígados e rins. Diziam que o cheiro vinha do sangue e dos restos dos animais mortos.
Atrás do fétido matadouro, no entanto, havia um vasto mundo inexplorado. Os olhos da molecada brilhavam pensando em conquistar aquele território. Um belo campo com açudes de águas cristalinas. Diziam que ali havia peixes graúdos às toneladas.
E foi para este lugar que saímos. Eu o Sérgio, meu irmão, nos aventuramos numa pescaria de final de tarde de primavera. Ao passar pela cerca que separava os dois mundos, fomos alertados por um funcionário do matadouro: muito cuidado com os bois brabos que estão no fundo da área! Ficamos apreensivos, mas não havia como abortar a missão. Os caniços estavam prontos e as minhocas aguardavam numa velha lata de leite ninho, previdentemente cobertas por um punhado de areia úmida.

O banquete

Lá vou eu de novo contar histórias do século passado. Mais precisamente dos anos 70. Não sei precisar o ano. Mas, acho que era 1974. Tinha onze anos de idade. Estudava numa escola particular da cidade, o Colégio Conceição. Vindo de uma família muito pobre, não tinha dinheiro para a mensalidade. Na realidade, nem para o material obrigatório tinha. Foi graças a uma bolsa de estudos concedida pelo Deputado Romildo Bolzan que acabei por ali. Não havia como negar que era um intruso naquele ninho. Com exceção de dois ou três bolsistas, todos os demais colegas faziam parte das mais tradicionais famílias da cidade.
Mesmo que os colegas fossem extremamente gentis, não nego que sentia na pele as diferenças causadas pelo abismo econômico que nos separava. O desnível aparecia especialmente na hora do lanche. Tão logo soava o sinal de intervalo, meus colegas partiam como carros de corrida em direção ao barzinho da Tia Ana. Ali se fartavam com prensados acompanhados de Pepsi (a Coca não mandava ainda neste chão). Em regra, eu e mais um e outro, ficávamos na sala de aula mexendo nos cadernos e livros, como se alunos aplicados fôssemos, disfarçando uma falta de grana que impedia de matar a fome naquele instante. Vez por outra minha previdente mãe forçava que levasse na pasta uma banana ou um pedaço de pão caseiro com margarina. Confesso que tinha vergonha quando chegava a hora do recreio e me obrigava a abrir a bolsa e de lá tirar aquelas iguarias tão diferentes das dos meus colegas. Coisa de guri!

02/07/2014

Não pare de sonhar

A placa diz PARE. Colocada num cruzamento de duas vias no interior de Maquiné, o sinal de trânsito recebe um acréscimo. Alguém, com alma de vândalo poeta, grafou em letras pretas: “não pare de sonhar”. Não obstante o flagrante dano ao patrimônio público, o alerta ou desabafo de um desconhecido pode ser um conselho extremamente válido nos dias de hoje.
Enquanto a cidade descansa: a menina sonha. No dia seguinte encontrará aquele que a fará feliz. Será por acaso. Caminhando num dia chuvoso, feio, baterá de frente com seu guarda-chuva no rapaz. Quase o derruba na calçada molhada. Ele sorrirá como um príncipe. Ela, estabanada, não conseguirá falar. Não sabe se dá atenção ao guarda-chuva que caiu, ao seu celular que se estatelou no chão ou ao rapaz. Murmurará um desculpe-me que não sairá de sua boca. Ele continuará a sorrir. E depois seguirá seu caminho. A menina, por sua vez, lamentará não ter falado, não ter explicado, não ter trocado o número de telefone. No fundo, sonha que o verá de novo.

28/06/2014

Cheiro de maçã verde (crônica editada)

“Quando eu era criança o cheiro de maçã verde era tão forte que tomava conta de toda a casa”, disse a jovem trabalhadora, lembrando, em seguida, que as maçãs de hoje não têm o mesmo cheiro das de então. Certamente não têm, disse, me intrometendo na conversa que mantinham os colegas de trabalho. Disse mais, abusando da atenção que me davam naqueles breves instantes, enquanto escolhia batatas, pimentões e cenouras: as coisas no passado não tinham só mais cheiro, tinham sabor e textura diferentes. E não foram só as coisas que mudaram. Mudamos nós.

24/06/2014

Era vidro e se quebrou

Era um garoto que não conhecia os Beatles e nem imaginava que o mundo ouvisse, nem visse as caras e bocas de Mick Jaeger e dos Rolling Stones. Acordava no domingo com o rádio sintonizado na Farroupilha. Seu pai adorava Teixeirinha Amanhece Cantando. O popular cantor gaúcho e sua até então inseparável companheira Meri Teresinha anunciavam seus shows pelo Estado, liam as cartinhas enviadas pelos fãs das mais distantes bibocas do interior gaudério e reproduziam suas inspiradas canções.

20/06/2014

A culpa é da mãe

Vivi na vila durante muito tempo. Era pequeno. Fazia parte das famílias dos sem. Sem dinheiro, sem emprego decente, sem futuro. Lá era comum as vizinhas desafetas abrirem a boca e escancarar ao mundo as suas diferenças. O mulherio não economizava nos elogios. Vez por outra e o pau pegava. Entre puxões de cabelos, unhadas, gritos e pontapés as bocas liberavam os impropérios mais cabeludos que se conhece. Os casos de traições, de supostos assédios e de possíveis facilitações eram resolvidos sumariamente. Não chegavam até o Judiciário. As lides eram compostas da forma mais primitiva que se conhece, sem direito a recursos e protelações.
O palavrão existe. Não dá pra dizer que o palavrão não faz parte do dia a dia. Uma cortada no trânsito será seguido, invariavelmente, de um fdp. É um instinto natural. Uma coisa comum. Banal até. No futebol, a ofensa faz parte do espetáculo. Em muitos casos é deprimente. Mas é fato consumado. É consenso que chamar juiz de ladrão é lícito num campo de futebol. Isto é aceito até entre os homens mais sensatos e educados. Ninguém vai exigir provas concretas e nem dará direito de ampla defesa ao árbitro. Ocorre que, neste caso, ao chamá-lo de ladrão não está se dizendo que ele construiu um patrimônio a partir dos seus erros de arbitragem. Nem mesmo se insinua que ele, ao final da partida receberá um chumaço de dólares ou euros. Não. É um xingamento, um ato de descarrego. Certo? Errado? Cada um faz o seu julgamento e tire as conclusões cabíveis ao seu desenvolvimento intelectual e moral.

13/06/2014

Lupicínio Rodrigues, 100 anos

Este ano marca um século do nascimento de Lupicínio Rodrigues. Compositor gaúcho, natural de Porto Alegre, veio ao mundo no dia 16 de setembro de 1914. Foi autor de obras antológicas como Nervos de Aço, Vingança, Se acaso você chegasse, Ela disse-me assim e tantas outras canções gravadas por um sem número de intérpretes brasileiros.  Como cantava preferencialmente a dor de um amor perdido, foi apelidado de cantor da dor de cotovelo. 
Aqui no RS uma parcela significativa dos desportistas tem na ponta da língua seus versos. Gremista, Lupi compôs o Hino do Grêmio, em 1953. Segundo dizem os versos "até a pé nós iremos" se referem a uma greve nos transportes coletivos, dificultando o acesso dos torcedores ao estádio gremista.  
O compositor morreu com 59 anos, em 27 de agosto de 1974.