O fedor
de podre era muito forte na vila. Nos dias de vento, então, era
quase insuportável. Chegava a arder o nariz. Vinha do matadouro. Era
assim que o pessoal chamava o frigorífico, que abastecia a cidade
com carne bovina. Os moradores da vila, famílias pobres com muitas
bocas a alimentar, ali o que mais adquiriam era alguma carne de
segunda com muita gordura, coalheiras, tripas, fígados e rins.
Diziam que o cheiro vinha do sangue e dos restos dos animais mortos.
Atrás
do fétido matadouro, no entanto, havia um vasto mundo inexplorado.
Os olhos da molecada brilhavam pensando em conquistar aquele
território. Um belo campo com açudes de águas cristalinas. Diziam
que ali havia peixes graúdos às toneladas.
E foi
para este lugar que saímos. Eu o Sérgio, meu irmão, nos aventuramos numa
pescaria de final de tarde de primavera. Ao passar pela cerca que
separava os dois mundos, fomos alertados por um funcionário do
matadouro: muito cuidado com os bois brabos que estão no fundo da
área! Ficamos apreensivos, mas não havia como abortar a missão.
Os caniços estavam prontos e as minhocas aguardavam numa velha lata
de leite ninho, previdentemente cobertas por um punhado de areia
úmida.