02/10/2014

A viagem

Quando nos damos conta,
 nossa memória está quase apagada.
Vai restando muito pouco.
O cronista, às vezes, parece viver fora deste mundo. Isto não é coisa nova. É uma tendência antiga. Porém, nestes dias tão marcados pelo excesso de informações, talvez soe mais estranho, ainda, esta determinação dos cronistas de permanecerem ao redor de seus sonhos, de suas constatações filosóficas e de seus delírios. E, mesmo enquanto muitos rangem os dentes e se agridem e se matam e transformam a vida no planeta num aparente caos, resistem o que podem, optando por temas que não estão na pauta dos telejornais.
O mundo pega fogo. Guerras, denúncias de corrupção, disputas pelo poder, permanentes bombardeios reais e virtuais. E o cronista ali, quieto no seu mundo, falando de coisas de sua infância, da cena que viu na padaria da esquina, do gosto do café que tomou no barzinho ou em suas significativas conquistas que, aos olhos dos outros, não passam de prosaicas histórias do dia a dia. Coisinha leve que, no fundo, não têm o poder de mudar o rumo da humanidade.

16/09/2014

A perda da paz

Estava pesquisando algo sobre pena e me aparece um texto, de autoria do professor português Eduardo Henriques da Silva Correa, que trata sobre os códigos penais dos primeiros séculos de Portugal. Tempos difíceis aqueles. De constantes guerras, invasões, perseguições e muita crueldade. A vida não era fácil para ninguém. A legislação penal dos patrícios era um tanto quanto forte em vários aspectos. As penas eram extremamente graves. O próprio rei determinava a sanção. Muitas vezes impondo agravantes ainda mais cruéis do que as penas já estabeleciam nas ordenações.
A blasfêmia, falar mal do rei (de seus filhos, sobrinhos, tios e de qualquer membro da Corte), era um dos crimes mais graves, por óbvio. Não havia espaço para oposição. Os faladores eram punidos com a fogueira. Antes disso, talvez para garantir que no outro mundo o indivíduo não repetisse o ato, a língua do indivíduo era extraída pela garganta. A execução na fogueira somente ocorria após 20 dias dos atos preparatórios (extração da língua). Ou seja, falar mal do rei não era um bom negócio naqueles tempos.

10/09/2014

Coisas inúteis

Um bom vinho é a dica de Sêneca
Sábio é aquele que não gasta energia nem tempo em coisas inúteis. É o homem que não se mistura com a multidão simplesmente porque todos assim o fazem. É aquele que não sente medo de contrariar a maioria, que vota em quem acredita e não em quem os outros querem. Também é sábio aquele que não corre atrás daquilo que no futuro se revelará como algo totalmente inútil e desprezível.
Não pense que tudo isso é resultado de alguma reflexão aprofundada e minha lúcida análise das coisas do dia a dia. Não! Esta é a interpretação que faço de uma das passagens de Sêneca, em Da Tranquilidade da Alma. O filósofo, dramaturgo, político e escritor latino, analisava a complexidade do ser humano e seu anseio na construção de um estado vivencial mais feliz.
Sua receita, no entanto, apresenta uma série de remédios amargos. Não há doçura, não há espaço para sonhos e magias. Lúcio Anneo Sêneca corta o corpo sem dó nem piedade. Expõe as entranhas do homem e mostra onde se escondem as armadilhas que vão sendo construídas ao longo dos tempos. A razão toma conta sobrando pouco de improvisação, enterrando aquele doce sentimento de que as coisas boas serão encontradas no olhar despretensioso e casual. De que as respostas aos nosso anseios saem do nada, como se doces anjos assoprassem em nossos ouvidos aquilo que nossas mentes pouco brilhantes custam a encontrar.

03/09/2014

O reino das palavras

Existe mesmo um reino das palavras. É um lugar onde novas e velhas palavras organizadamente convivem. Todas elas, em todas as línguas, descansam neste local, saindo dali somente quando necessário. Descansar não é o termo mais apropriado, eis que algumas delas não encontram tempo para isso tal a insistência em incluí-las nos discursos diários, nas manchetes dos jornais e nos noticiários televisivos.
Em épocas como as de hoje, onde graça na Terra a violência, a intolerância, a vingança, o ódio, a guerra e o conflito, estas mesmas expressões não se entregam ao ócio. Estão nas bocas e nas mentes a todo instante. Transitam para lá e para cá com uma rapidez impressionante. Não têm sossego.

27/08/2014

Cena Urbana

O inverno deu uma trégua. É sexta-feira. O sol tomou conta de tudo. Apesar disso, alguns passam por mim bem agasalhados. Saíram pela manhã, quando era frio. Agora, já perto do meio dia, sentem certo incômodo. Imprevidentes, talvez não tenham colocado uma camiseta decente por baixo. Terão que permanecer com o blusão, embora o sol esteja forte.
A praça central está bem vazia. Raros aqueles que a cortam. Passo apressado, a hora do almoço está chegando. Carrego uma sacola de medicamentos na mão. Nada demais. São para a pele da filha adolescente. Cremes e loções, coisas deste tipo.

19/08/2014

Raios e trovões

Se a noite está bela, se lua e estrelas iluminam o céu por aquelas bandas uma certeza se tem: ninguém corre perigo. A tranquilidade não será alterada. Os cães podem dormir tranquilos como dormem seus donos. As ferramentas podem descansar nos galpões, depois de um dia de muito trabalho. Os carrinhos de mão podem ficar abandonados no quintal. Enxadas, pás e picaretas nem precisam ser guardadas.Tudo ficará relaxando no seu devido lugar. As galinhas no poleiro, os porcos no chiqueiro, as cabras no potreiro. Se a noite está bela, tudo ficará onde deve. Não há certeza maior: amanhã tudo estará no mesmo lugar.

12/08/2014

O tênis branco

Estudava no segundo grau, à noite. Na década de 70, era assim que se chamava o ensino médio. Era o mais novo da turma. Tinha uns 14 anos de idade. Minha turma era de pessoas mais velhas. Gente que havia deixado de estudar e, agora, encarava novamente os bancos escolares. Queridos colegas. Compenetrados, sérios. Eu era um moleque. Sério, compenetrado mas, ainda assim, um moleque. Havia colegas com incríveis 40 ou 50 anos. Gente calejada, experiente, com bons empregos e família constituída.
Para variar minha situação não era das melhores. Trabalhava durante o dia num subemprego. Ganhava uma fortuna ao redor de meio salário mínimo. Não precisa dizer que vivia invariavelmente pelado. A impressão que tinha era que os bolsos da minha única calça jeans serviam tão somente para esquentar as mãos. A dinheirama que ganhava servia para a compra de uma blusa cacharel azul, uma camiseta ou um par de tênis ou sapatos dos mais simples, em três ou quatro vezes no crediário das Casas Luiz. Um produto a cada mês, é óbvio. Num mês, camiseta; noutro calça; no seguinte, um tênis e assim por diante. Ao final do ciclo, os primeiros itens já estavam surrados, entrando novamente na lista da reposição.

06/08/2014

A pontaria

Naqueles tempos em que a nossa infantilidade imperava, investíamos algumas energias em atividades lúdicas. E, verdadeiramente, não tínhamos preocupações ecológicas. Ninguém tinha, naquela época. Minto, o José Lutzenberger tinha. Mas, ele era considerado louco. Um maluco que pregava o apocalipse. Era um visionário que enxergava perigos na derrubada de árvores, no lançamento de dejetos nos rios, nos lagos e no mar. Era um homem estranho que aparecia na capa dos jornais defendendo coisas que não falavam, que não se expressavam. Dava valor aquilo que ninguém notava. Convenhamos, isso era uma coisa muito estranha naqueles tempos em que o que mais havia era árvores e água limpa. No nosso meio, ao menos, ninguém entendia muito bem o que ele queria, afinal.
A gurizada, por sua vez, longe das polêmicas, gostava mesmo era de caçar passarinhos. E o instrumento usado era a funda ou o bodoque, como também é conhecido. Durante a tarde juntávamos a munição, pedrinhas redondas, e saíamos para o mato. A vontade era trazer farta caça. Não se fazia barulho. Pé ante pé nos deslocávamos procurando por uma presa. As pombas rolas eram as preferidas.