28/10/2014

Eu queria ser Peter Frampton

Com 10 ou 11 anos queria ser jogador de futebol. Sonhava até em vestir a camiseta da Seleção Brasileira. Disputar uma Copa do Mundo estava nos planos. Era um menino sonhador como são todos os meninos. Rivellino, com sua patada certeira e seu bigodão, cabelos longos e uma canhota de derrubar os adversários, saia dos jogos em preto e branco da Copa da Alemanha para os campinhos de pouca grama e muita areia. Todos queriam ser Rivelino, mesmo que a interpretação fosse pífia. No meu caso, faltava intimidade com o pé esquerdo e a penugem que ameaçava aparecer ainda não poderia ser chamada de bigode.
Havia outros quase tão bons quanto ele: Beckembauer, Müller, Cruyff e Neeskens. Mas eu, quando perdia a alcunha de Rivellino, optava sempre por Lato, um polonês, com poucos cabelos, mas dono de pernas ágeis e velozes e, além disso, de raro faro de gol. Em síntese, o atacante tinha tudo o quanto me faltava nas lides futebolísticas.

27/10/2014

A vida comunitária

E durante toda a noite, os casais rodopiarão
pelo salão apinhado 
Na pequena vila a vida é comunitária. As dores de uns são as dores de outros. Os prazeres de uns são os prazeres de outros. Os sonhos e os pesadelos de uns são sonhos e pesadelos dos outros. Porém, os pecados são casos particulares.
Quando raramente alguém morre por ali, a vila toda se compadece. E todos choram ao redor do caixão e abraçam os familiares com verdadeiro pesar. Lembram passagens de glória do morto e dos tempos em que era um indivíduo cheio de virtudes. Alguns lançam aos céus sua inconformidade. Questionam Deus que o levou. E há os ajudam nas lides dos atos fúnebres. Alguns se encarregam de avisar os parentes que moram mais longe. As tias mais velhas invadem a cozinha. Fazem café forte para enfrentar a noite. Algumas trazem biscoitos feitos no dia anterior. E sempre haverá alguém que fornecerá mel, salame e queijo colonial. Os donos de casa perdem a direção do lar. Devem se ocupar tão somente de viver a tristeza da perda. É para isto que estão ali. E todos vão contribuir para que isto aconteça.

16/10/2014

Cheiro de pastel

Seguia pela avenida principal da cidade. Era o ponto de maior movimento. Uma ambulância havia passado pertinho dele. Sentiu mesmo no rosto o vento que fez. O som da sirene ainda reverberava na sua cabeça. As luzes do semáforo na frente se misturavam com todas as outras cores. Galhos de árvores, anúncios luminosos, letreiros anunciando promoções. Vozes se juntavam num zumzumzum incompreensível. Três por dez, três por dez. Calcinhas, calcinhas. Olha a mega, tenho os números premiados. Só 12 pilas. Fotos para documentos, fotos para documentos em um minuto.
Um cheiro forte de fritura saia da pequena lancheria. Era de pastel. Pastel de carne moída. Podia sentir o cheiro rançoso do azeite insistentemente aproveitado. Um aroma de café vinha do mesmo lugar.

09/10/2014

O Estado Febril

Dominado por uma febre, tentava dormir. Mas, algumas ideias esparsas tomavam conta de sua mente. Sem esforço, fatos contínuos foram sendo rememorados como se uma grande novela estivesse sendo encenada naquela hora. Sem forças para reagir, deixou-se entrar naquele louco teatro. Não sabia de onde vinham aquelas histórias que se uniam sem sentido. Talvez fossem coisas que lembrava, que inventava ou memórias de outras experiências que sem explicação surgiam como que magicamente.


A ilha
Era um navegador. Talvez fosse implacável. Achava que era poderoso. E exercia o pretenso poder. Não fosse isso e não teria sido abandonado na ilha. Apesar de ser o comandante, não ficava somente dando ordens. Tomava a frente em tudo. Achava que aquilo era correto. Mas, não aceitava erros. Não perdoava os que erravam.

02/10/2014

A viagem

Quando nos damos conta,
 nossa memória está quase apagada.
Vai restando muito pouco.
O cronista, às vezes, parece viver fora deste mundo. Isto não é coisa nova. É uma tendência antiga. Porém, nestes dias tão marcados pelo excesso de informações, talvez soe mais estranho, ainda, esta determinação dos cronistas de permanecerem ao redor de seus sonhos, de suas constatações filosóficas e de seus delírios. E, mesmo enquanto muitos rangem os dentes e se agridem e se matam e transformam a vida no planeta num aparente caos, resistem o que podem, optando por temas que não estão na pauta dos telejornais.
O mundo pega fogo. Guerras, denúncias de corrupção, disputas pelo poder, permanentes bombardeios reais e virtuais. E o cronista ali, quieto no seu mundo, falando de coisas de sua infância, da cena que viu na padaria da esquina, do gosto do café que tomou no barzinho ou em suas significativas conquistas que, aos olhos dos outros, não passam de prosaicas histórias do dia a dia. Coisinha leve que, no fundo, não têm o poder de mudar o rumo da humanidade.

16/09/2014

A perda da paz

Estava pesquisando algo sobre pena e me aparece um texto, de autoria do professor português Eduardo Henriques da Silva Correa, que trata sobre os códigos penais dos primeiros séculos de Portugal. Tempos difíceis aqueles. De constantes guerras, invasões, perseguições e muita crueldade. A vida não era fácil para ninguém. A legislação penal dos patrícios era um tanto quanto forte em vários aspectos. As penas eram extremamente graves. O próprio rei determinava a sanção. Muitas vezes impondo agravantes ainda mais cruéis do que as penas já estabeleciam nas ordenações.
A blasfêmia, falar mal do rei (de seus filhos, sobrinhos, tios e de qualquer membro da Corte), era um dos crimes mais graves, por óbvio. Não havia espaço para oposição. Os faladores eram punidos com a fogueira. Antes disso, talvez para garantir que no outro mundo o indivíduo não repetisse o ato, a língua do indivíduo era extraída pela garganta. A execução na fogueira somente ocorria após 20 dias dos atos preparatórios (extração da língua). Ou seja, falar mal do rei não era um bom negócio naqueles tempos.

10/09/2014

Coisas inúteis

Um bom vinho é a dica de Sêneca
Sábio é aquele que não gasta energia nem tempo em coisas inúteis. É o homem que não se mistura com a multidão simplesmente porque todos assim o fazem. É aquele que não sente medo de contrariar a maioria, que vota em quem acredita e não em quem os outros querem. Também é sábio aquele que não corre atrás daquilo que no futuro se revelará como algo totalmente inútil e desprezível.
Não pense que tudo isso é resultado de alguma reflexão aprofundada e minha lúcida análise das coisas do dia a dia. Não! Esta é a interpretação que faço de uma das passagens de Sêneca, em Da Tranquilidade da Alma. O filósofo, dramaturgo, político e escritor latino, analisava a complexidade do ser humano e seu anseio na construção de um estado vivencial mais feliz.
Sua receita, no entanto, apresenta uma série de remédios amargos. Não há doçura, não há espaço para sonhos e magias. Lúcio Anneo Sêneca corta o corpo sem dó nem piedade. Expõe as entranhas do homem e mostra onde se escondem as armadilhas que vão sendo construídas ao longo dos tempos. A razão toma conta sobrando pouco de improvisação, enterrando aquele doce sentimento de que as coisas boas serão encontradas no olhar despretensioso e casual. De que as respostas aos nosso anseios saem do nada, como se doces anjos assoprassem em nossos ouvidos aquilo que nossas mentes pouco brilhantes custam a encontrar.

03/09/2014

O reino das palavras

Existe mesmo um reino das palavras. É um lugar onde novas e velhas palavras organizadamente convivem. Todas elas, em todas as línguas, descansam neste local, saindo dali somente quando necessário. Descansar não é o termo mais apropriado, eis que algumas delas não encontram tempo para isso tal a insistência em incluí-las nos discursos diários, nas manchetes dos jornais e nos noticiários televisivos.
Em épocas como as de hoje, onde graça na Terra a violência, a intolerância, a vingança, o ódio, a guerra e o conflito, estas mesmas expressões não se entregam ao ócio. Estão nas bocas e nas mentes a todo instante. Transitam para lá e para cá com uma rapidez impressionante. Não têm sossego.