18/12/2014

Elvis Presley

Ele era o mais velho da turma. Tinha dois ou três anos a mais. E isso para nós era muito tempo. Mas era tão infantil, tão virgem e tão atrapalhado quanto podiam ser os meninos de treze anos naqueles tempos. Tudo ainda era sonho. A realidade é que nossa turminha sonhava. Queríamos aventuras. Amorosas de preferência. Aventuras é que menos aconteciam. Elas eram idealizadas e vividas nos mínimos detalhes dentro dos quartos, das salas e nas garagens, enquanto pais, mães e irmãos ali não estavam. Longe dos olhos dos outros, liberávamos nossos sonhos narrando em voz alta o que faríamos nesta e naquela situação.
As meninas faziam parte da turma e de nossos sonhos. Aos sábados, então, que eram longos, tínhamos tempo suficiente para ouvir uma música, tomar um café preto, comer um resto de pão, conversar, caminhar pela cidade a esmo.
Encontrar as meninas da turma era muito bom. Elas iam se juntando aos poucos. Em dado momento ficavam na frente da casa de uma delas, brincando, sorrindo e aguardando o resto da turma. E chegávamos arrastando nossas asas, como franguinhos esperançosos. E sorríamos. E contávamos piadas. E nos mostrávamos o quanto podíamos, tentando conquistar alguma atenção. Mendigando, talvez, um carinho. E nas janelas, de olhos atentos, irmãos mais velhos e pais vigiavam suas virgens.

17/12/2014

Ideias válidas

A fogueira foi o meio encontrado pela
 Inquisição para validar suas ideias,
 impondo suas "verdades"
Imaginemos que só há uma ideia válida. Que tudo o que se concebeu em termos de conhecimento até os dias atuais esteja submetido a uma única e derradeira verdade. A verdade absoluta, irretocável, inamovível e inatacável. Uma verdade só que explicaria de forma cristalina e permanente tudo o quanto há, tudo o quanto houve, tudo o quanto haverá.
Imaginemos que esta verdade seja concebida por algum filósofo. Escolhemos por acaso (ou não) Sócrates. Então Sócrates tem a verdade. E tudo o que se sucedeu depois dele está intolerantemente derrogado. Nada vale mais do que o pensamento de Sócrates. E fim.
É claro que o conhecimento adquirido pelos homens ao longo dos tempos é cumulativo. Antes de Sócrates tantos outros estabeleceram princípios válidos. E depois deles milhares de seres tornaram a vida mais complexa e cheia de opções.

09/12/2014

O Milagre

Se vivesse no mundo antigo, talvez erguesse um totem em homenagem à mandioca. Ou, se algum talento tivesse, poderia mesmo conceber um longo poema onde destacaria a alvura e firmeza de seu corpo contrastando com sua pele rugosa. Sim, compreendo que tudo isso pode parecer estranho. Nos dias de hoje, no entanto, melhor nem pensar em tótens e poemas. Já há iniciativas estranhas demais em nosso meio. Seria mais uma que se perderia no meio de tanta informação. Mas, ao menos explico: a mandioca teve papel importante na minha formação.
Nos primeiros anos de vida, então, nem se fala. Posso dizer mesmo que se não fosse a mandioca, mais especificamente a sua farinha, aliada à inventividade de minha mãe eu não estaria aqui escrevendo este texto estranho.

03/12/2014

Bermudas coloridas

As cores vibrantes dos anos 80 estão de volta. Vermelho, azul, verde e amarelo estão em bermudas, calçados e na camisetas. É um revival new wave nas roupas. As vitrinas estão mais coloridas, não obstante as diferenças marcantes entre os tempos da esperança, dos sonhos e estes de hoje. Deixando as filosofias e as apreciações de boteco de lado, vamos ao que importa.
Dia desses ousei entrar em uma loja. Me chamou a atenção uma bermuda de uma cor um tanto quanto exótica: algo como um vermelho levado ao rosa ou ao abóbora. Enfim, a cor pouco interessa. A atendente, educada e atenciosa (como deve ser uma atendente) mostrou o produto desejado. Deu o preço à vista e o final, em caso de crediário. Confesso que olhando o produto de perto meio que houve um desencanto.

26/11/2014

Um filme

Os olhos se abrem. É cedo da manhã. Mais um dia começa para Leonel. É dia de Primavera.
Os pássaros já fizeram seu alarido. E isto começou muito antes de acordar. Aliás, a vida segue sempre. Não dá tréguas. 
O corpo descansou, é certo. Mas, a viagem foi grande. Tem sido grande. É estranho. Muito estranho pensa Leonel, lembrando que tem feito longos trajetos. Esteve em locais que não lembrava mais. Fez coisas que não sabia. E agora, quando acorda, a impressão que tem é a de que esteve atuando em um filme. Cenas de violência, de traição, de guerra, de amizade e de amor.
Porém, sente que este filme só foi visto por uma pessoa. E que sua atuação talvez não tenha sido das melhores. Que o roteiro não seja dos melhores. Que as histórias contadas não sejam das mais inspiradoras. Mas, a pior sensação é a de que não tem acesso a esta sala. E, de algum modo, sente com se houvesse certa injustiça no ar. Leonel gostaria muito de ver esta película. E, quem sabe, discuti-la. E, quem sabe, reinventá-la. Quem sabe refazer aquelas cenas que não ficaram boas.
Mas, no fundo sente que não há injustiça alguma. E, de algum modo, isto o chateia.

20/11/2014

As doces ameixas

Tarde da noite, sentado à frente do computador, uma pequena palpitação no coração aparece. Coisa muito sutil. Uma leve fisgada. Vou morrer, pensei logo em seguida. Esperei alguns segundos, alguns minutos e nada. Continuei escrevendo mais uma crônica, achando graça de minha conclusão apressada. Ora, como poderia meu coração contrariar o laudo do meu cardiologista?
Certo que um dia morrerei. Disto não restam dúvidas. Aliás, esta é a única certeza que nós, os humanos, podemos carregar na vida. O nosso fim ocorrerá. E, fazendo leve exercício antecipatório, posso até ver que, enquanto o corpo frio espera a hora do desaparecimento por completo, familiares, amigos, conhecidos e curiosos se aproximarão do caixão com indisfarçável compaixão. E alguns olharão com pressa e outros com reverente atenção minha imobilidade e analisarão minha brancura e notarão o quão envelhecido estou.

13/11/2014

Ódio: tô fora!

De uns tempos para cá, especialmente nas redes sociais, vêm crescendo de maneira muito significativa as manifestações de ódio. Como diria aquele velho pensador, nunca antes na história deste país uma eleição deu tanto pano para manga. As manifestações que se sucederam, muitas delas de pacatos e cordatos cidadãos, gente boa, educada, de boa família, fariam corar até a mais gélida estátua da figura mais desavergonhado que possa existir.
Não vou dizer que não assista alguma razão aos guerreiros. Não podemos e não devemos desconsiderar a gritaria toda. Porém (sempre há um porém), convenhamos que o foco das manifestações estava no lugar errado. Os mais espertos todos se colocaram de um lado e, por conseguinte, lançaram para o outro lado todos os retardados, ignorantes, insensíveis, irresponsáveis etc etc etc.

05/11/2014

Olhos verdes

A turma não era fechada. Havia um núcleo de três ou quatro fiéis escudeiros. Somavam-se mais quatro ou cinco preferenciais. A partir daí havia liberdade de buscar novos horizontes nas redondezas. Muitos destes contatos não aderiam à turma. Mas faziam, isso sim, parte da vida de alguns deles.
Não precisa dizer que eram adolescentes. Viviam na pequena cidade. O mundo era a rua. As garotas eram, em regra, as irmãs dos membros do grupo. Bem, na verdade, não eram suas garotas. Muitas delas eram sim o que queriam como suas garotas. Porém, não avançavam muito neste terreno.
Vez por outra apareciam, de surpresa, algumas pessoas que não faziam parte do grupinho, mas, por uma ou outra identificação, acabavam participando de algumas das ações.