01/04/2015

As estradas

Nos tempos antigos, os locais mais distantes careciam de meios de acesso. As comunicações, por isso mesmo, eram difíceis. O progresso vinha a pé. As notícias envelheciam nas estradas empoeiradas. As visitações eram precárias. O mundo era lento. E o tempo, por isso tudo, transcorria sem tanta pressa.
Aqui, neste cantinho do mundo, que hoje chamamos de Rio Grande, charruas, tapuias, guaranis, kaingang e carijós amassavam com seus pés o mato nascente formando trilhas pelas quais se deslocavam em busca de caça e do sol. Não havia pressa nem pecado no Sul do Equador. Os homens de então viviam por aqui envolvidos nas suas atividades mais básicas. A ordem era viver sem pressa. Não suspeitavam que, na distante Europa, os romanos pavimentavam suas estradas com pedras regulares para que seus cavalos corressem arrastando as bigas por léguas e léguas. Lá havia pressa. O mundo por aqui era mais lento, mais primitivo.

26/03/2015

Dois Mundos

O mundo se movimenta além dos nossos olhos. Há atividade onde nossos sentidos não percebem. Onde não nos encontramos, aí há vida. O que não enxergamos pode existir. E, em regra existe mesmo!
Neste exato momento, imersos em nossas preocupações mais elementares, a vida segue lá fora. O mundo acontece. A história não para. Em Londres agora são quatro horas a mais, em Kiev são seis horas a mais; em Manila são onze horas a mais. Enquanto aqui nos encontramos é possível que nas zonas em conflito (e há tantas em nossa Terra), algum general esteja planejando a forma mais correta de lançar um míssil para atingir um adversário. É possível que um grupo de indivíduos, sintonizados com os interesses mais mesquinhos e egoísticos, estejam planejando o ataque terrorista que vai sensibilizar o mundo. E todos acreditam, sem qualquer porção de dúvida, de que têm razões suficientes que justificam seus atos.
Por outro lado, neste mesmo instante, em algum lugar, dois seres, valendo-se da energia criadora que se espalha pelo Universo se encontram nos prazerosos atos que darão origem a mais uma vida. Pode ocorrer, também, que, recolhidos no seu angustiante silêncio, deixem escorrer uma lágrima ouvindo Ray Charles cantando as agruras de uma paixão que terminou em Yesterday, dos Beatles.

17/03/2015

Os pepinos

Não gosto de pepinos. Não importa a forma como eles sejam apresentados: cortados com capricho numa salada com azeite de oliva e uma pitada de sal, em forma de conserva se acotovelando dentro de um vidro ou de alguma maneira extremamente criativa. Não gosto e ponto final. Isto que, em termos de alimentação, não costumo apresentar assim tanta frescura: não afasto quase nada. Qualquer pão com margarina ou singelo arroz com ovo, muitas vezes me satisfazem.
Como tudo na vida apresenta no mínimo uma explicação, creio que a implicância iniciou quando, ainda na infância, fui apresentado ao vegetal. Foi desamor à primeira vista. Ele foi servido em forma de salada. Apesar de cortado em rodelas milimetricamente calculadas pela minha mãe e parecer apetitoso aos olhos, confesso que não simpatizei muito com o tal do pepino. Ele, por sua vez, pareceu-me um tanto arrogante. Tanto que não tentou ser simpático.

12/03/2015

Autor e Obra

A discussão bem que não é nova. Mas, é interessante. Intrigante até, diria.
Recebi dia desses um e-mail de uma querida amiga. Alertava para o caráter imoral de alguns dos nossos imortais compositores brasileiros endeusados pela sua produção musical. Como todos os nomes da extensa lista são velhos conhecidos, me propus a ler a proposta apresentada no texto. O engraçado é que todos os indivíduos citados fazem parte do meu repertório. E, além disso, sem exceção estão mortos. E o texto era direto. Sua preocupação era ressaltar o que de ruim cada um apresentava na sua passagem por aqui. Um deles foi destacado pela promiscuidade de sua vida pessoal. Pela sua desatinada luta em busca do prazer. O vínculo com o álcool e com drogas mais pesadas serviu para adjetivar aquele encantador roqueiro, tão presente nos bares e nas festas, quando alguém inspirado pela lembrança de sua figura grita: - Toca Raul! O desapego para com a vida e os vícios que destruíram a mais bela das nossas vozes também foi lembrado. E assim sucessivamente foi o texto qualificando negativamente e derrubando os ícones da música tupiniquim. Não ficou nenhuma peça em pé no tabuleiro.

04/03/2015

Filhos de peixes

Woody Allen (arte sobre foto)
A mãe de Woody Allen nunca desejou um filho artista. Desejava, isto sim, que ele fosse um cara normal, que cursasse uma faculdade e que seguisse sua vida sendo infeliz como pudesse. Porém, Allen Sterwart Konigsberg nunca gostou de estudar. A escola era sua inimiga. E ele não fazia grandes concessões. Gostava de escrever. E para continuar anonimamente sua atividade prazerosa escolheu um pseudônimo. Escreveu roteiros para outros comediantes e foi empurrado para o palco , mesmo sendo desajeitado e não sabendo representar. Porém, depois de alguns pequenos sucessos e fracassos acabou se firmando como o mais legítimo representante do humor autodepreciativo, reflexivo e existencial contemporâneo.
O baiano Gilberto Gil tinha todas as ferramentas para ser um economista. E todos nós sabemos o quanto necessitamos de economistas, ainda nos dias de hoje. Passou no vestibular, matriculou-se na faculdade. Cursou algum tempo. Encontrou Caetano, Gal Costa, Tom Zé e Maria Bethânia. A faculdade foi arquivada. A economia ficou para trás. Felizmente para a música. Ainda hoje é um dos mais produtivos compositores e músicos do nosso querido torrão pátrio.

24/02/2015

Menino Feliz

O palmito é resistente, mas, ao mesmo tempo, é leve. Cede a uma mordida dos dentes de Leonel. O milho é doce. O pepino, que não gosta muito, até que faz um bom papel. A maionese dá o tom cremoso. E o pão é leve. Um pedaço de torta fria é o que lhe restou. Morde um naco e de sua boca sai um som estranho. Sua filha mais nova, se ali estivesse, reclamaria do som da resistência do palmito. Coisa feia mesmo. Mas, ninguém notou. Ou, se notou, não deu grande importância.
É sábado pela manhã. Leonel escolheu sentar numa das mesas do fundo. Pela porta vê centenas de pessoas que passam e não enxergam quem está dentro. “Por uns minutos me tornei invisível. Não fossem os olhos de um ou outro que tomam seu café ou água mineral, além das moças que atendem com dedicação e zelo, poderia estar nu. Do lado de fora ninguém notaria”, pensa. Ri da idiotia que o assola, enquanto nota que a taça de café com leite e a porção de torta fria vão sendo consumidas sem que perceba. Parece que evaporam da sua frente.

16/02/2015

Olívia Palito

Olívia Palito, personagem criado por
Elzie Crisler Segar, em 1919
As meninas magrinhas eram chamadas de Olívia Palito. As muito altas eram garças, girafas, coqueiro ou outra coisa que o valha. Os meninos com óculos eram invariavelmente denominados de Quatro Olhos. Se os óculos compensavam muitos graus de deficiência era comum serem chamados de fundo de garrafa. Os gordinhos eram Baleia Fora D´água. Os baixinhos eram anões de jardim, tampinha e outras denominações de estilo.
E tudo isso era muito normal, naquela época. Normal entre aspas. É claro que para quem não fazia parte do grupo da magreza, dos míopes e dos que lutavam contra a balança, a situação era uma. As olívias, as garças, girafas ou coqueiros, os quatro olhos, os tampinhas e os baleias não achavam tanta graça assim no tratamento jocoso. Não era mau humor não. Ocorre que sentiam na pele a dor de ser apontado por alguma característica sobre a qual não tinham qualquer possibilidade de mudança. Sofriam porque contrariavam o padrão estabelecido pelos outros de forma autoritária e despida de qualquer possibilidade de defesa.

11/02/2015

O sentimento que te anima

“Importa o sentimento que te anima”, foi a última frase que Leonel ouviu. Abriu os olhos, com resistente preguiça. O sol não aparecia com decisão. Nem os pássaros cantavam. Decerto descansavam ainda. Mesmo assim, conseguia ver a silhueta ao seu lado. Admirou as suas costas nuas. A escuridão, no entanto, impedia que visse sua nuca, seus cabelos e a pintinha escura nas costas. Dormiu mais dez, quinze, vinte ou trinta minutos, não sabia precisar.
Foi despertado por um rebelde raio de sol que teimosamente entrava por uma pequena fresta da janela. Ouviu ao longe o som das ondas. O mar está próximo. Levantou da cama. O quarto estava desarrumado. Um copo com um pouco de água no criado-mudo, travesseiro no chão. Uma camiseta jogada de qualquer jeito numa cadeira. Um carregador de telefone celular ligado na tomada sem o aparelho. Desperdício de energia, pensou. Mal lavou o rosto. Fez um rápido bochecho para tirar o hálito da noite. Vestiu uma bermuda surrada. Saiu do quarto.