20/09/2015

Bola de gude

Carregava um pote abarrotado de bolas de gude. O pote era pequeno. Mas isso não importava. Estava cheio até a boca. Azuladas, esverdeadas, leitosas. Só não havia bolão porque bolão não cabia no pote. As unhas eram sujas de terra e riscadas pelo constante atrito com a bolinha de vidro.  O polegar ostentava um calo de tanto empurrar a bolinha em direção às outras.
Certo dia, de maneira desavisada, olhei de perto minha joga preferida. E vi que dentro de sua imensidão uma nuvem se destacava. E olhando com mais cuidado notei que aquela nuvem tão pequena escondia planetas, sóis, luas, meteoros e meteoritos. E que, naqueles mundos tão distantes, meninos saiam de casa de maneira fugidia e se juntavam num terreno plano e arenoso. E traçavam no chão um círculo onde casavam suas bolitas. E riscavam uma linha alguns metros à frente. Jogavam com força calculada suas bolitas até a linha. Quem ficasse mais perto da risca teria a primazia da primeira jogada. E, às vezes, gastavam tempo enorme medindo imprecisamente os centímetros que separavam seus lances da marca. Se não houvesse acordo um árbitro era convocado para dirimir a contenda.

15/09/2015

Anotações

CINZA - O mundo às vezes é cinza. Sonegam-se as outras cores quando um menino que foge em busca de sossego, de um lugar para viver, encontra a morte no mar. Seu corpo frágil é o atestado de que o mundo é cinza. É deprimente o mundo quando alguém, fugindo em busca de paz, é perseguido, agredido e tem seu corpo queimado. O mundo é cinza quando o que separa os homens são a cor da pele, o sentimento religioso ou a conotação política. E cinza não tem tom. Não há prazer no cinza. Todo golpismo é cinza, toda a intolerância é cinza. E cinza é o tom da moda. Infelizmente. 

TEMPO- Dizem do alto de seus saberes que o tempo a tudo cura. Na realidade, o tempo não cura. A cura não é de sua natureza. Ele só avança. Deixa para trás o anteontem e o ontem. Com rara competência o tempo passa. E como passa. Avança no amanhã. Lentamente vai se afastando do que se viveu. Ele só passa. Sem medo. Sem trégua.

LATIDOS- São cinco horas da manhã. Não há vento. Não resta barulho lá fora.  O cão late. Insistentemente. A cidade dorme. Não dá ouvidos para o cão. Talvez seu latido seja uma resposta a um semelhante que se manifesta lá longe.  É madrugada e os carros estão parados. Os sons estão desligados. Vigilantes, guardas e insones não dormem. Seguram seus olhos pesados.  O cãozinho é do vizinho que dorme. E o som enche a rua. Se espalha fazendo eco. É madrugada. E o latido invade o sonho do menino que dorme. 

TORTA FRIA-  Um torta fria salgada é uma destas engenhosidades que só podem ter sido gerada por uma senhora altamente dotada de censo de improviso. Posso até vê-la abrindo a geladeira e juntando os restinhos disso e daquilo. Uma camada de pão, tomate picadinho, milho, cenoura ralada, camada de maionese, camada de pão, um resto de franguinho desfiado, mais tomate, cenoura, maionese, mais uma camada de pão e maionese para cobrir. Um ramo de salsa jogado despretensiosamente.  Está pronta a obra.  Não é que fica bom esse negócio!?

14/09/2015

O Baile

"Olha que isso aqui tá muito bom..."
De longe se notava um alvoroço. Não dava para distinguir muito bem o que era.  Os carros iam parando. O trânsito se tornava lento. Num certo momento tudo parou.
 “Queremos nossos salários. Queremos nossos salários, queremos nossos salários”, gritavam no meio da estrada interrompida os trabalhadores. Preocupados, ostentavam faixas e cartazes mais ou menos agressivos, mas todos indignados. Num deles, o governante dança alegremente como se estivesse em um salão de baile. “Olha, que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais; olha, quem tá fora quer entrar, mas que tá dentro não sai.

02/09/2015

Façanhas

Houve um tempo em que tudo aqui era melhor que no resto do país. Nossa polícia era melhor do país. A saúde era a melhor do país.  Nossa assembleia era a melhor do país. O povo daqui era o mais politizado. O mais culto. Tudo, tudo mesmo era melhor. O gaúcho vivia repetindo isso incessantemente. E, tal qual a mentira repetida inúmeras vezes, a sentença transitou em julgado. E a doce ilusão virou verdade.

25/08/2015

O Mapa múndi

O mundo aberto em frente aos nosso olhos parecia uma colcha de retalhos. Multicolorido, plano. O artesão, no entanto, não havia cortado os pedacinhos com esmero. Parecia que o tecido havia sido rasgado de qualquer jeito. Havia pedaços maiores, pedacinhos menores. Sutis linhas pretas separavam os pedaços. Uns riscos azulados corriam para cima e para baixo. Longas extensões azuladas destacavam-se.
Nas cabecinhas da terceira ou da quarta série, parecia pouco provável que aquela folha colorida fosse capaz de abrigar rios límpidos e cheios de vida, lagos congelados aguardando a chegada da primavera, montanhas que subiam em direção aos céus, florestas onde se escondiam sacis, iaras, lobisomens e mulas sem cabeça, cidades inteiras onde meninos corriam nos campinhos atrás de uma bola murcha ou nas ruas calçadas entre os raros carros que passavam, onde meninas pulavam de corda e as mães limpavam casas e colocavam a roupa no varal e, vez por outra, sapecavam uma varada nas pernas do moleque mal educado e linguarudo. Era difícil entender como cabia tanta gente, tanta coisa. Era impossível imaginar que naquele pedaço pequeno de papel carros vermelhos, azuis, verdes ou raramente brancos seguissem em fila pela estrada de piche em direção ao litoral.

24/08/2015

A Isca

Um dos termos mais usados nos últimos tempos na mídia, na rodinha de café, na de chimarrão ou na mesa de bares, entre uma cerveja e outra, entre um petisco e outro, entre uma risada e outra, é corrupção. Há um forte apelo para condenar todos quantos corruptos forem encontrados no solo pátrio. Saudável, isso. Desejável, com certeza. Porém, como tantos termos que são usados com tanta insistência, a expressão vai se desgastando. No caso específico, podemos afirmar com a mais firme das convicções: todos sabem exatamente o que é corrupção. Mas, convenhamos a maioria não conhece a extensão que o termo carrega.

11/08/2015

Baile de Máscaras

O calmo e silencioso bem que pode guardar dentro de si um vulcão. Dominado durante o dia, escanteado pelas tarefas improrrogáveis, abafado pelos afazeres comuns, lentamente vai se mostrando. E, imperceptivelmente, se prepara para virar o jogo. E é à noite, quando tudo o quanto é rotina se esconde, quando os sons são raros e o tempo aparentemente deu uma trégua, que a lavra fervilha.  O estômago esquenta, as pernas parecem pegar fogo. Aí não há sono que apareça Não há calma e tranquilidade que resistam. De nada adianta contar carneirinhos nem vacas nem pássaros nem elefantes nem sementes de milho ou de feijão. Não há criatividade nem técnica que esfrie o calor que vem de dentro, acendendo fogos que bem pareciam cinzas de um passado tão distante.
O frenético e agitado, visto assim pelos olhos dos outros, bem que pode guardar dentro de si um lago de águas límpidas, mansas e pacíficas. E, tão logo saído das lides diárias, pode fechar a porta de casa e se entregar à tranquilidade que o transborda. Aí não haverá tempestade que o faça tremer nem ventos que o tirem do prumo nem surpresas que o tire do rumo.
Quando a multidão caminha cada um é apenas multidão. Não há um rosto, não há uma identidade. Há a multidão tão somente. Uma massa uniforme que se move num só sentido. A soma de todos os que caminham por ali.  Porém, o olhar mais atento, identificará que a unidade não existe. São seres, são indivíduos, são histórias únicas que se movem. No entanto, sem tempo para dizer “ei, eu sou assim”, “ei eu sou assado”. O calmo e silencioso que carrega um vulcão dentro de si ou o frenético e agitado que guarda silencioso lago nas suas entranhas caminham como tanto outros. A multidão os engole no dia a dia.
A imagem é clara. Não sei quem disse, mas quem disse isso certamente o fez com sabedoria: os indivíduos constroem suas máscaras ao longo dos tempos. No público apresentam o que de melhor produziram. No particular, no entanto, jogam a máscara de lado e viram vulcões ou lagos, mostram os dentes de raiva ou impulsionados por um sorriso leve e verdadeiro.
De algum modo, o dia a dia é um baile de máscaras. E os mascarados caminham para lá e para cá. E se misturam com a multidão, formando uma só massa. Vulcões e lagos trilhando lado a lado os caminhos que lhes cabem.      

04/08/2015

O Jardineiro

A turma recebeu a tarefa de produzir um trabalho em grupo. Os grupos foram cuidadosamente separados pelo professor. Os alunos, de quinta ou sexta série,  tinham liberdade total para criar a partir de determinado tema. Jogral, que invariavelmente caminhava para o rotundo fracasso;  distribuição de impressos em mimeógrafos, que agradava a todos menos pelo conteúdo, mais pelo forte cheiro de álcool que inebriava toda a classe; coreografias das mais diversas, que, em regra, mais constrangimento causavam do que prazer aos artistas e mesmos aos diletos expectadores.
Nosso grupo, não sei porque raios, escolheu fazer alguma coisa parecida com o teatro. Não era uma peça, pois o tempo era diminuto. Era um esquete. Alguém assumiu a coordenação. Um ou dois outros se puseram a bolar toda a trama a ser representada. Algumas poucas reuniões foram realizadas. Sei que chegou num determinado momento e tudo estava rigorosamente pronto. Não abri a boca nas reuniões nem fiz exigências quanto ao papel que me caberia. Pelo contrário, intimamente minha timidez torcia para que de algum modo a tarefa fosse cancelada e não necessitássemos de uma exposição que antevia seria um grande desastre.
Ficou estabelecido que alguns colegas produziriam algumas coisas em casa. O cenário ficou para alguém, a sonografia ficou para outro, os figurino e assim por diante. Certo que faltou supervisão.
No dia marcado para a apresentação, o grupo foi se postando no local determinado. O nervosismo era visível. E aumentava ainda mais quando fomos constatando que não havia nada de cenário, nada de sonografia e nada de figurino. Como a tragédia não era pequena, constatou-se, ainda, que alguns membros do grupo não tinham sequer falas. Eu era um deles. E aí foi aquela correria para a improvisação. Lembro que não havendo como incluir novos personagens naquela bagunça coube-me o nobre papel de jardineiro. Sim, jardineiro. Só que não havia ancinho nem tesoura nem pazinha.  Flores então, nem pensar.
E o tal esquete foi apresentado com notável falta de entusiamo no grupo e na plateia. E não falei palavra. E não ouvi aplausos. Só alguns risos verdadeiros. E o professor, que dava a nota na hora, considerou aquilo tudo um lixo. E ainda falou abertamente do desgraçado do jardineiro que além de não falar nada, ainda ficou de costas para o público, algo totalmente contra a boa arte da representação.
Se o vexame coletivo marcou de algum modo minha existência estudantil, não foi suficiente para eliminar a minha admiração pelas pessoas que conseguem com maestria, com gestos simples e leves tornar o mundo (muitas vezes cinzento demais) em algo mais colorido, mais belo e aprazível.