04/12/2015

Coisas da Vila

A vila era pequena. Uma única rua de cascalho atravessava toda a extensão. Outras pequenas ruelas iam cortando a rua principal. As casas eram germinadas. As paredes finas. Os moradores ficavam muito próximos uns dos outros. A proximidade era tanta que se ouviam os barulhos dos talheres na hora do almoço ou da janta da casa ao lado. Falar alto era regra por ali. Desta forma, mesmo as conversas mais íntimas se tornavam públicas.  Os arroubos noturnos dos amantes podiam ser acompanhados  pelos vizinhos sempre atentos às novidades locais.

25/11/2015

Programa de tevê

Minha mãe não era adepta de televisão. Além do minguado orçamento doméstico que não permitia nenhum tipo de luxo, a bem da verdade,  às vezes, não era suficiente  nem mesmo para aquisição de coisas essenciais, ainda havia sua convicção religiosa. Sua religião, como muitas outras naqueles tempos, entendia que aquela janela proporcionava uma rápida viagem ao inferno. Tudo o que se passava naquela tela brilhante tinha o poder de cooptar a alma do vivente e levá-lo até os confins dominados pelo capeta e seus capangas. Jamais gostei da imagem do inferno. Mas, sempre senti uma forte atração pela programação televisiva. Isso que a programação naqueles tempos era coisa de criança.  O gato Tom correndo atrás de Jerry para transformá-lo em almoço.  O Coiote com mil planos para explodir, prensar, esmagar o Papa-Léguas (Bip-Bip). Tarzan enfrentando jacarés de cinco metros com uma faca e muita ginga.

17/11/2015

O Céu e o Inferno

O Céu- Os deuses realizam uma assembleia. O local onde se encontram é amplo. Limpo. Calmo. De rara beleza. Reina tranquilidade. Suave música pode ser ouvida por todos. Os tronos são claros. Moldam-se aos corpos das divindades. O céu está repleto. Os deuses vão deliberar sobre questões importantes.

14/11/2015

O treino e o jogo

Quem vê o atleta de alto rendimento correndo com esforço, superando seu limite e, finalmente, vibrando intensamente com a medalha no peito, não escapa à tentação de desejar a mesma glória. O hino do país tocando, a bandeira no alto, o nome e a marca no painel eletrônico. Câmeras e mais câmeras varrendo o corpo suado e o sorriso estampado no rosto. A camiseta e o calção colados. A torcida em festa. Entre os presentes misto de admiração e inveja. Sentimento mais do que comum. E aceitável.
A marca vencida e a barreira superada se fazem passado muito rapidamente. Vencer outras marcas, superar outras barreiras tornam-se os objetivos seguintes.

03/11/2015

Papo de Bar

Ilustração: João Werner
Todos os dias, no final de tarde, com chuva ou com o sol ainda mostrando-se graciosamente antes de ser engolido pela noite, ele dá expediente no boteco. Toma um liso, acende um cigarro. Espera o momento oportuno para proferir sua conhecida palestra. Eis que chega a sua vez. Como é de costume não desperdiça a oportunidade que lhe cabe.
 Com ar professoral analisa a postura da defesa do tricolor. E vai além, lembrando a inoperância do ataque colorado. Mostra com os dedos ainda sujos de argamassa a melhor forma de postar os homens de meio campo. Os dedos cansados e machucados pelo serviço do dia se tornam homenzinhos hábeis. Parecem dispostos a sair correndo trás de uma bola, a trombar com o meia armador habilidoso do time adversário, a fechar os espaços nas costas dos laterais que avançam e não têm fôlego para voltar. Pena que o treinador de seu time não vê isso, pensa. Tudo poderia ser melhor se o professor tivesse alguma lucidez e não fosse tão burro como se mostra nos últimos jogos. 

29/10/2015

Situações Extremas

Fonte da imagem
Os madeireiros cortam árvores na Sibéria. 10, 20, 30, 40 graus abaixo de zero.  Os pinus caem levantando neve para todos os lados. Trabalham duro. Não suam. Banho nem pensar. Um especialista adora percorrer pântanos atrás de jacarés. Outro, tenta fazer contato com leões em plena África. Uma dupla de especialistas viaja pelas florestas, pelos desertos e outros rincões mostrando técnicas de sobrevivência. Já sei bem: prioridade é a água, o fogo e capturar animais, pois proteína é fundamental nestes casos.
No Alasca, a briga é para ver quem levanta o maior dos atuns. Eu, na minha santa ignorância, imaginava que atum era um peixinho. Uma titiquinha de nada que depois de limpo era acondicionado numa latinha minúscula vendida no mercado entre R$ 3,50 e R$ 6,50. Para minha surpresa, recentemente fiquei sabendo que os atuns azuis pesam 180, 200, 250 quilos. São animais de 1,80 a 2,50 metros. Alguns, dependendo do teor de gordura e da qualidade da carne, podem valer até 45 dólares o quilo. Ou seja, um peixinho insignificante pode valer algo em torno de 5 mil dólares. Claro que a pesca é controlada. Há períodos e zonas estabelecidas e controle governamental. Apesar disso, nas águas geladas uma verdadeira guerra acontece para jogar linhas e capturar os monstrinhos.

28/10/2015

Fim de Tarde

Fonte imagem
No final da tarde, quando o sol se escondia e a escuridão da noite ameaçava tomar conta, a vovó, colocada providencialmente perto de uma janela aberta por onde entrava um ventinho que empurrava a cortina branca para lá e para cá, dizia para seus netinhos, do alto de suas décadas de existência: “a vida dá voltas e voltas e nada acontece por acaso neste vasto reino que se move lentamente”. Não havia porque ter medo. Porque o medo afasta o indivíduo do seu caminho. Ele torna a vida mais difícil. Ele é capaz de mudar as cores das coisas mais belas. Ele mostra perigo onde não há.   Ele inibe e impede o avanço.

E distribuía regularmente tantas mensagens no meio de histórias tão simples para aqueles olhinhos atentos. Os dias passavam com certa tranquilidade. A noite, então, era lenta. Parecia que não acabava  mais. Não havia tevê ali. Só um rádio antigo que captava mais chiado do que a voz, do que a música. Raramente era ligado para poupar luz.

19/10/2015

Fagulhas

O fogo que consome uma mata inteira pode ter como marco inicial uma simples fagulha. Um insistente raio de sol no mato seco, uma bagana de cigarro ou um estímulo outro qualquer podem iniciar um incêndio sem proporções. Consumir árvores, desalojar pássaros de seus ninhos, matar animais desatentos e organismos indefesos.  Basta que haja um ambiente propício. Calor, vegetação seca, falta de umidade. É o que se chama de causa primitiva.
Na natureza há sempre uma causa primitiva. Na vida dos homens não é diferente. Difícil é determinar qual delas dá início a uma determinada série de acontecimentos. Lembrei-me disso ao rever a história de um jogador de futebol agraciado pelo talento, pela determinação e envolto em acontecimentos que o levara à glória, mesmo tendo momentos de dissabores.