26/01/2016

O Safadão

Arte sobre foto
Poderia ocupar estas linhas neste blog com mais uma crônica ligada à espiritualidade, como já tentei fazer tantas vezes. Ou, ainda, à minha maneira, buscar explicações sobre o relacionamento humano. Como outras vezes, convocar o leitor a viajar para o passado e resgatar histórias vividas, sentidas ou imaginadas num tempo distante que magicamente se apressa em se distanciar cada vez mais.  
Mas, não. Talvez porque seja verão e, como dizem os analistas de plantão, os psicólogos, psiquiatras, terapeutas e alguns metidos sem formação, mas sempre ávidos por dar um pitaco em coisas que nem conhecem: é tempo de leveza, de picolé, de sorvete, de banhos no mar, na lagoa, no riacho, de protetor solar no corpo, boné na cabeça e muita água. Corpos à mostra, caminhadas, corridas, um choppe para quem gosta e ate-papo leve e despretensioso. Por isso, deixo as filosofias de lado, evitando discussões mais aguerridas cheias de certezas; as histórias de outros tempos, que em regra envolvem dois ou três moleques (que hoje são senhores de cabelos brancos) e todas as tentativas de busca de respostas para outro momento. E vamos concentrar no novo. Na novidade. Vamos falar de Wesley Safadão. Sim, ele mesmo. O cara. 
Para começo de conversa, uma confissão: não conheço Wesley Safadão. Não o identificaria se tivesse que fazer o reconhecimento ainda mais se misturado com outros sujeitos; nem se fosse me mostrado um álbum com inúmeros rostos. A bem da verdade, nem ao menos pretendo conhecê-lo. Não sei se canta alguma coisa que preste ou se, como tantos que há por aí no mercado, é mais um destes produtos descartáveis que surgem a cada verão, cada outono, cada inverno e cada primavera por estes recantos que Deus criou.
Só sei que ele existe. Nestes tempos de informação instantânea é praticamente impossível não saber da existência de alguma coisa positiva ou negativa, significativa ou insignificante. Como diz uma amiga minha: “é impressionante como as coisas me chegam”. Sei, por exemplo, através da mídia, que ele ganha algo em torno de quinhentas mil patacas por show. Então, não estamos falando de pouca coisa. Neste mundo, onde o virtual é real, as cercas foram derrubadas. Não há contenções. Não há limites. Muito bom para quem necessita de alguma atenção. Para um chamado de socorro. Para um alerta sobre alguma injustiça cometida em algum lugar do planeta.  Muito bom também para os safadões da vida que explodem com ou sem talento, espalhando pelo mundo tudo o que sabe fazer. 
Minha ignorância é mero detalhe. Insignificante neste novo mundo. De algum modo tenho que me penitenciar: o distinto sujeito deve ter algum talento, caso contrário não seriam tantos a pagar-lhe tanto.  Convenhamos, quinhentos no bolso é muita coisa. E por um só showzinho.
Resolvi que vou parar de escrever um pouco. Um mês de retiro. Tempo necessário para uma reciclagem. Quem sabe durante esta parada não me dedique a estudar de maneira mais aprofundada a obra do Wesley. O Safadão.


PS: Nada tenho contra o referido artista. Nunca o ouvi cantando. Vai que...

Mais sobre Wesley Safadão:


Verbete na Wikipedia
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Vagalume

19/01/2016

As Ciganas

Seu pai tinha muitas crenças. Não ia à igreja. Nem praticava uma religião específica. Mas, não era um homem sem fé. Acreditava na sorte, no azar e em outras sutilezas que, dizia ele, de vez em quando se manifestavam. Achava que a vida seguia mais ou menos as regras dos jogos. Se os dados favoreciam naquele dia, dobrava a aposta. Ganhava muito. Pedia mais ainda. Acreditava, porém, que o dia seguinte seria o da redenção. Um dia é da caça, outro do caçador. 
Quando perdia muito se lembrava de antiga expressão: “o dinheiro do jogo é amaldiçoado. Ele nunca fica no bolso do vencedor. Ele volta para a mesa de apostas”, falava para si mesmo como tentando se convencer de que o jogo não levava a nada. No dia seguinte esquecia tudo e lá estava novamente apostando para recuperar o dinheiro perdido.

15/01/2016

A Lenda

Reza a lenda que os meninos
nascem para a felicidade
Reza a lenda que os meninos nascem para a felicidade. E nascem muitos. São dezenas na região. Milhares no país e milhões no mundo todo. Meninos e meninas recebidos com alegria e satisfação pelos pais, pelos avós e tios. Ou rebentos que encaram o mundo com a desconfiança e a frieza daqueles que os fizeram e que, em tese, seriam seus mentores, incentivadores e responsáveis pelos primeiros caminhos que seguirão por aqui.
Na caminhada destes novos seres, nada é certo. Nada ainda é totalmente definido.  Salvo um ou outro reconhecido na tenra idade como um Buda, um iluminado, e providencialmente afastado dos demais para atingir um grau de purificação impossível de ser atingido na vida cotidiana, todos seguirão seus incertos caminhos apoiando-se naquilo que estará ao seu redor.

Múltipla escolha

A existência humana seria muito mais simples se em tudo imperasse o objetivismo.  Céu ou inferno, Deus ou o diabo, Direita ou esquerda, certo ou errado, dia ou noite, claro ou escuro, bicicleta ou carro, Norte ou Sul, espiritualismo ou materialismo, quente ou frio. As opções seriam sempre duas, valendo a referida regra para todas as situações da vida.Tudo seria muito mais claro e tranquilo como uma moeda que se joga para cima e se aguarda por uma decisão. Bem simples, sem muitas possibilidades de escolhas. Dois polos, 50% de chance de acertar e outras 50% de possibilidades de errar.
O que complica o jogo, pelo menos para quem adere, por alienação, por falta de esforço, de compreensão ou por mero comodismo, a este tipo de pensamento, é que entre a direita e esquerda há o caminho do meio; entre o dia e a noite há a manhã e a tarde; entre a bicicleta e o carro há o caminhar a pé, o correr; entre o claro e o escuro há uma infinidade de tons e meios-tons. Ou seja, invariavelmente há inúmeras possibilidades notadamente quando a vida começa a ser vista sob um olhar um pouco mais atento, com os olhos bem abertos e sem a pressa de um urgente julgamento. 

22/12/2015

O Cavalo do Padeiro

Tenho por costume publicar sempre crônicas inéditas neste espaço. Dia desses, porém, acessei a página de estatística de meu blog. Uma crônica publicada há cinco anos havia sido lida por alguém. Confesso que nem lembrava muito bem do texto. Entrei no blog e o li. É certo que em cinco anos muita coisa muda. Na velocidade que tudo acontece nos dias de hoje, as coisas se transformam dia após dia. Mas, mesmo tendo lido tantas coisas, passado por tantas experiências, mudado conceitos, assino embaixo do que escrevi naquele tempo. O texto é o seguinte:
“Não faz muito tempo, em algumas cidades havia o costume da entrega do pão de cada dia ser feita por uma carroça. O dito veículo, tracionado por um cavalo, transitava pelas ruas e parava de armazém em armazém, de venda em venda, de bolicho em bolicho. Na frente do estabelecimento o entregador deixava uma cesta de vime contendo os pães que seriam vendidos pelo comerciante durante o dia. O trabalho era estafante.

16/12/2015

A Aquarela


É inevitável, até mesmo clichê, conceber este período do ano como mais um ciclo que se fecha. Estes dias de Natal e de Ano Novo bem se assemelham à escalada de uma montanha. Chegamos no topo. Nem todos, é verdade: há os que ficaram pelo caminho, vencidos pelo cansaço do corpo, pela preguiça, pela falta de vontade, pela imobilidade voluntária ou não. Porém, em regra, superamos o que havia pela frente. O vento frio, o tempo ruim, as dores no corpo. Porém, o tempo para a contemplação dura muito pouco. Os olhos já notam que, ao longe, novos caminhos vão se abrindo no horizonte. Novos rumos vão se apresentando. Nem sempre de maneira cristalina. Mas, lá estão.

11/12/2015

Quando o apelo comercial corrompe

A atividade comercial praticamente nasceu com o homem. Segundo se diz, ela pode ter sido mesmo um fator determinante para o progresso, tendo em vista que a necessidade de consumo esteve por trás dos movimentos migratórios e, posteriormente, na produção em série que desenvolveu a indústria gerando empregos e investimentos pesados em novas máquinas e tecnologias.

04/12/2015

Coisas da Vila

A vila era pequena. Uma única rua de cascalho atravessava toda a extensão. Outras pequenas ruelas iam cortando a rua principal. As casas eram germinadas. As paredes finas. Os moradores ficavam muito próximos uns dos outros. A proximidade era tanta que se ouviam os barulhos dos talheres na hora do almoço ou da janta da casa ao lado. Falar alto era regra por ali. Desta forma, mesmo as conversas mais íntimas se tornavam públicas.  Os arroubos noturnos dos amantes podiam ser acompanhados  pelos vizinhos sempre atentos às novidades locais.