19/04/2016

A Impotência

Às vezes, reclamo e resmungo quando acesso as redes sociais. Aparece cada coisa que enche o indivíduo de vergonha. Cidadão de bem, que aparentemente cumpre com honestidade todos os compromissos do dia a dia, zeloso com a família, posta de vez em quando fotinhos carinhosas com a esposa e com as filhas. Aparentemente defende os valores mais sublimes e sagrados da existência humana. Mostra que quer um mundo feliz, que ama de paixão tudo o que o cerca. Subitamente, porém, assume a porção da desarmonia e aparece fazendo apologia de lideranças políticas francamente defensoras do trato violento, da intolerância e da tortura.

14/04/2016

A Queda

Faltava fôlego. As costas doíam, a respiração estava difícil. Os olhos avistaram por alguns instantes um negrume que lentamente foi sendo substituído por uma luz distante. Não conseguia mexer os braços e nem as pernas. Tentava chamar por ocorro, as na conseguia.  Pela garganta saia um leve gemido. Achei até que estava condenado a morrer ali. Naquela tarde, tinha sido vítima do Valão da Malária, perto do Clube José do Patrocínio. Havia caído de costas em cima de uma pedra pontiaguda. 
Era costume da molecada. Na ida para a escola, gastar um tempo passando pelas pontezinhas de concreto do Valão da Malária.  Era tranquilo. Eu mesmo era craque nisso.  Fazia todos os dias a mesma coisa. Saía de casa pelo menos uns 30 minutos antes de tocar a sirene da entrada na aula. Fazia o percurso em menos de 15 minutos. Então sempre sobrava um tempo para brincar sobre o valão. Na volta a situação era a mesma.

07/04/2016

O Silêncio

Um pouco de silêncio sempre é bom. Os dias estão ruidosos na atualidade. Há muito movimento. Muitos gritos. Muito apelo. Às vezes motivados por questões justas. Mas, a insistência, a luta, a vontade em preponderar, em impor uma tese torna o dia muito cansativo. Não bastasse a correria do dia a dia, na estrada virtual a barulheira é enorme. Meus amigos jogam farpas de um lado para outro. Lançam torpedos sem qualquer cerimônia. 
Assim, fica difícil o negócio. Não morro de amores por um nem pelo outro lado. E isso, de algum modo, é tido por muitos dos amigos virtuais como uma agressão. Como assim? Tá do lado dos ladrões, dos corruptos? Tá do lado dos golpistas?

01/04/2016

A Faxina

Dona Ester é uma senhora distinta. Não fala sobre sua idade. Os familiares mais próximos bem sabem que ela já passou faz muito dos 80. Mas não falam isso alto. Ela ainda é muito forte. Vaidosa. Não se entrega. Minto: ela se entrega quando o Bonner e sua mecha branca no cabelo aparecem na tela da tevê. Ela o trata como se seu neto fosse.  Não perde nada. Toda a noite, antes da novela, ela vidra os olhos e acompanha quase sem respirar o catatau de notícias que ele desfila durante o Jornal Nacional.
Apesar do seu jeitinho doce, Dona Ester bem sabe que nem tudo o que este moço diz é a mais pura verdade. Dona Ester não é boba. Ela sempre guarda um pouquinho de desconfiança, coisa que aprendeu ao longo das décadas que viveu. Seu pai dizia que mulher não deveria estudar, que tinha que cuidar da casa, dos filhos e do marido. Hoje, Dona Ester bem vê que seu pai estava redondamente enganado. E assim ela vai tirando suas conclusões. Com o tempo foi vendo teses serem derrubadas, outras se confirmando.
Mas, se tem coisa que sempre deixou Dona Ester estimulada era uma boa faxina. Quando era jovem e cheia de energia, vibrava quando o sábado chegava e tinha a oportunidade de comandar a maior operação de limpeza já vista na sua casa. Toda a semana era uma nova operação. Os preguiçosos e dissimulados da família, não muito apegados às lides domésticas, bem que arrumavam atividades que começavam lá pelas oito da manhã e se estendiam até a hora do café da tarde.      
Dona Ester caprichava o que podia. Os tapetes iam para a rua. Os móveis dançavam para lá e para cá. Nada ficava no lugar. E jogava baldes de água e produtos de limpeza. Em dado momento, de joelhos no chão e com a escova na mão,  começava a fazer movimentos circulares e ritmados enchendo a casa de uma música alegre anunciando que dentro em breve tudo estaria limpo e cheiroso.  Ela, coitada, não tinha tempo para ajeitar o cabelo, para manter intacta sua beleza. No final do dia, quando a casa estava recomposta, com os móveis nos seus devidos lugares, restava um arremedo de Ester. Era só cansaço. 
Agora, vendo um deputado dizendo na tevê que o Brasil precisa de uma faxina, Dona Ester até se encheu de emoção. Os baldes de água jogados freneticamente, a escova na mão, a força para afastar os móveis. A cabeça bem que girou. Mas, a emoção durou pouco.  Lembrou que aqui nesta terra as promessas nunca são cumpridas na sua integralidade. As coisas se perdem. As limpezas são abortadas no meio do trabalho. As faxinas não se completam. 
Dona Ester acha mesmo que apenas alguns móveis serão trocados de lugar. Simplesmente serão substituídos por outros que já estavam na casa. E tudo continuará como antes: a casa suja esperando por um poderoso jato de água que mexa com toda a sujeira e não com apenas parte dela.

22/03/2016

A Luz

O clima está pesado. Mesmo que seja outono e que o dia esteja ensolarado. O céu azul e com algumas nuvenzinhas. Não faz diferença. O humor não é bom. É como se nuvens pesadas estivessem tomando conta de tudo. Alguns amigos estão nervosos. Com muita raiva mesmo. Vivenciam esta raiva nas redes sociais. O tom é acusatório, mesmo na defesa de bons valores. Sofrem com tudo isso. E querem justiça.
Outros amigos também estão nervosos. Os motivos são os mesmos. Mas, o viés é outro. Desejam justiça. E acusam nas redes sociais uma enorme dor porque tudo é perseguição, tudo é falsidade, tudo é armação. Nada soa verdadeiro. 
Gritam em letras maiúsculas. Postam vídeos acusatórios. Descobrem coisas que podem ou não terem ocorrido.  Mas, não faz diferença se forem verdadeiras ou não. Importa a manchete. Importa o impacto. Importa atingir o outro.
E criam-se heróis, um por semana, um por dia, um por hora, mesmo sem saber se o herói criado deseja mesmo o bem da nação ou se é mais um fanfarrão que vai ser denunciado ali na frente como um salafrário qualquer como tantos outros que algum dia desses recebeu o nobre título de  “este me representa”. 
Jamais poderíamos imaginar, nem aqueles mais criativos, que um recurso no STF viraria assunto de boteco. Que a análise feita por um membro da alta corte sobre a atuação de seus pares viralizasse na rede. Que alguns vizinhos, amigos e familiares, que conviveram por anos, por décadas, em respeitosa desarmonia definitivamente quebrassem pratos por causa de um pronunciamento de algum magistrado nos autos de um processo que poucos têm acesso, mas que todos sabem quase tudo porque seletivamente “tudo” vaza.
E na noite, enquanto uma chuva fina caía sobre a capital, um grupo defendendo a moral, os bons costumes, grita palavras de ordem dentro de um clube de jazz acabando com a paz e com a harmonia. E, não atendendo aos pedidos do garçom, partem e quebram-lhe a cara. E agridem outro que tentava separar a contenda. Quando fica perigoso ouvir um bom jazz é porque a coisa realmente fugiu ao controle. O Brasil está doente. A doença não é a direita nem a esquerda. A doença é a paixão. O sentimento obsessivo, arraigado, a luta radical e a vontade de eliminar o outro.  É o ódio que cega e contagia. E a cegueira é falta de luz. Está faltando luz no país.  
A história, esta senhorinha que vive do passado e conta coisas sobre gente que já foi um dia, vai se deliciar num futuro muito próximo quando as análises serão mais serenas e as paixões não estiverem tão afloradas. E os erros e acertos serão estudados por alunos nem muito interessados. 

O sonho e o Pesadelo

“O sonho acabou”, disse John Lennon, sepultando a esperança de milhares de jovens que viviam momentos de afirmação da cultura do “faça amor não faça guerra”.  Os Beatles, a maior banda do planeta, deu adeus aos holofotes. Os jovens, no entanto, continuaram nas trincheiras com metralhadoras imaginárias lançando rosas, sorrisos, paz e amor. As guerras não cessaram.  As diferenças entre as pessoas não acabaram, mas a mensagem de que o mundo deveria ser mais humano e menos armamentista espalhou-se lentamente. E, sem dúvidas, chegou até os dias de hoje.
Por aqui, basta uma escutada num destes noticiários do rádio ou uma lida nestes sites de notícias para notar que o clima sobre os céus da pátria amada andam mais para pesadelo do que para os doces sonhos do passado. As bandeiras foram recolhidas faz tempo. Os ideais ficaram esquecidos entre as intermináveis discussões das reformas política e fiscal (que nunca saíram do papel), dos acordos de governabilidade, dos controles orçamentários, das metas de crescimento e outros artigos tão subjetivos e tão distantes do homem comum, mais acostumados com os esquemas táticos dos times de futebol, com os roteiros novelísticos e com as facilidades dos crediários das lojas populares.
E não há muito que reclamar. O tempo dos sonhos vai ficando para trás. Algumas boas ideias foram colocadas em prática e se mostraram altamente funcionais. Outras em tanto. A realidade mudou. E mudará muito mais ainda. Certo é que a esquerda brasileira teve tudo nas mãos: aceitação popular, alguma tolerância da mídia (certamente regada pelos milhões aplicados em forma de publicidade oficial), competência na manutenção de fórmulas que mantinham o mercado aquecido, controle inflacionário e acesso ao ensino superior facilitado. Além de outras iniciativas contidas nos programas de incentivo ao desenvolvimento do indivíduo (que causam desconforto na nobre direita brasileira e na classe média, que almeja ser rica e não quer ver o  pobrerio por perto).
Certo é que tudo ficou muito parecido no submundo político. Esquerda, direita e centro finalmente entraram em acordo. Não para governar, mas para enriquecer.  Imagino que alguns dos envolvidos nestes fortes esquemas de lavagem de dinheiro, de exploração de prestígio e achaque aos cofres públicos ainda se reúnam com suas famílias para um churrasco de domingo. E as mães, zelosas, preocupadas com a reputação de seus rebentos, ainda façam fortes cobranças em relação às manchetes que alardeiam que este ou aquele sujou as mãos na lama da corrupção. “Mas, é assim que funciona no Brasil. Se eu não faço, outro faz. Todo o mundo age assim!”. Do alto de sua autoridade materna não precisa grande esforço para ouvir a sentença que toda a mãe dá nestas horas.  Robusta, certa, inafastável e imodificável: “Mas, você meu filho, não é todo o mundo!”.
Quem vende sonhos não pode apresentar as mãos sujas. Simples assim.  

08/03/2016

DNA

Contam que carregamos no DNA a série de experiências vividas num passado muito distante. Contam mais: que estivemos nas cavernas onde nos abrigamos do vento cortante e do frio implacável. E nas noites mais longas, aquelas em que a negritude tomava conta de tudo colocando uma venda nos nossos olhos, um de nós tomava nas calejadas mãos uma flauta e assoprando com jeito ia desfazendo o pretume, afastando as feras que por porventura estivessem por perto de tocaia. No centro, uma fogueira ardia e espalhava luz e calor.
Quando o sol aparecia e impunha a luz sobre a escuridão, todos saíam da caverna e seguiam na busca de alimentos. Era preciso manter os corpos vivos e fortes. A água era cristalina. E o ar era puro. E a luta era grande. Carente de defesa, restavam músculos, pedras e paus para lutar contra os predadores. E a luta era árdua. A vitória era incerta. A morte era uma constante. Dia morria a fera, dia morria um de nós.
O dia passava como tudo passa. O sol se punha e a tribo se escondia novamente. Era a hora em que os homens ficavam menores e as feras cresciam. Sobrevinha mais uma noite. E no abrigo da caverna, enquanto o fogo ardia, um tambor concebido a partir de um couro de um animal abatido, que contrariado doara sua carne para manter o grupo em pé, fazia companhia à flauta. A chama da fogueira parecia uma bailarina. Graciosamente, mas com decisão, seguia o ritmo da primitiva canção. E os corações somavam-se ao tambor e a flauta, doce e profunda, parecia querer levar os espíritos para cima. E os levava.  E adormeciam nas alturas, longe do cansaço e das dores das lutas.
E assim, contam que começamos uma grande caminhada. E as cavernas ficaram no passado. E o medo das feras tampouco resistiu até aqui. E as chamas das fogueiras nem dançam mais ao som do tambor e da flauta. E os espíritos nem sobem tanto. Ficam por aqui grudados na terra.
E as feras? Contam que elas não sumiram assim num passe de mágica. Consta que um dia entraram na caverna. E sem serem percebidas, se hospedaram dentro do homem. E ganharam nome de medo, de arrogância e de prepotência. E, pelo que dizem, vão sorrateiramente agindo. Vez por outra aparecem na forma de dores no corpo, de cansaço da mente, de falta de energia, de falta de coragem, de confiança e de fé.
Mas, podem, segundo indicam alguns especialistas, se manifestarem na forma de uma linguagem violenta, em grunhidos e rugidos bem definidos. Ou, ainda, nos comentários raivosos em público ou dissimulados numa rede social qualquer.

26/01/2016

O Safadão

Arte sobre foto
Poderia ocupar estas linhas neste blog com mais uma crônica ligada à espiritualidade, como já tentei fazer tantas vezes. Ou, ainda, à minha maneira, buscar explicações sobre o relacionamento humano. Como outras vezes, convocar o leitor a viajar para o passado e resgatar histórias vividas, sentidas ou imaginadas num tempo distante que magicamente se apressa em se distanciar cada vez mais.  
Mas, não. Talvez porque seja verão e, como dizem os analistas de plantão, os psicólogos, psiquiatras, terapeutas e alguns metidos sem formação, mas sempre ávidos por dar um pitaco em coisas que nem conhecem: é tempo de leveza, de picolé, de sorvete, de banhos no mar, na lagoa, no riacho, de protetor solar no corpo, boné na cabeça e muita água. Corpos à mostra, caminhadas, corridas, um choppe para quem gosta e ate-papo leve e despretensioso. Por isso, deixo as filosofias de lado, evitando discussões mais aguerridas cheias de certezas; as histórias de outros tempos, que em regra envolvem dois ou três moleques (que hoje são senhores de cabelos brancos) e todas as tentativas de busca de respostas para outro momento. E vamos concentrar no novo. Na novidade. Vamos falar de Wesley Safadão. Sim, ele mesmo. O cara. 
Para começo de conversa, uma confissão: não conheço Wesley Safadão. Não o identificaria se tivesse que fazer o reconhecimento ainda mais se misturado com outros sujeitos; nem se fosse me mostrado um álbum com inúmeros rostos. A bem da verdade, nem ao menos pretendo conhecê-lo. Não sei se canta alguma coisa que preste ou se, como tantos que há por aí no mercado, é mais um destes produtos descartáveis que surgem a cada verão, cada outono, cada inverno e cada primavera por estes recantos que Deus criou.
Só sei que ele existe. Nestes tempos de informação instantânea é praticamente impossível não saber da existência de alguma coisa positiva ou negativa, significativa ou insignificante. Como diz uma amiga minha: “é impressionante como as coisas me chegam”. Sei, por exemplo, através da mídia, que ele ganha algo em torno de quinhentas mil patacas por show. Então, não estamos falando de pouca coisa. Neste mundo, onde o virtual é real, as cercas foram derrubadas. Não há contenções. Não há limites. Muito bom para quem necessita de alguma atenção. Para um chamado de socorro. Para um alerta sobre alguma injustiça cometida em algum lugar do planeta.  Muito bom também para os safadões da vida que explodem com ou sem talento, espalhando pelo mundo tudo o que sabe fazer. 
Minha ignorância é mero detalhe. Insignificante neste novo mundo. De algum modo tenho que me penitenciar: o distinto sujeito deve ter algum talento, caso contrário não seriam tantos a pagar-lhe tanto.  Convenhamos, quinhentos no bolso é muita coisa. E por um só showzinho.
Resolvi que vou parar de escrever um pouco. Um mês de retiro. Tempo necessário para uma reciclagem. Quem sabe durante esta parada não me dedique a estudar de maneira mais aprofundada a obra do Wesley. O Safadão.


PS: Nada tenho contra o referido artista. Nunca o ouvi cantando. Vai que...

Mais sobre Wesley Safadão:


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