10/11/2016

Sem Reclamações

O célebre reclamão Garfield,
 de Jim Davis
Um dia sem reclamação. Só um. Nada de lamentar o tempo quente e abafado, a falta de vento, o preço assustador do litro de gasolina, o excesso de trabalho ou a falta dele, a grana curta no bolso ou o saldo negativo no banco. O negócio que era para fechar e não fechou. A pouca valorização que o vendedor deu pelo carro usado e a supervalorização atribuída por outro um pouquinho só mais novo.
Um dia sem reclamação. Só um. A falta de vitória do time do coração. O desempenho trôpego de quem representou para ti uma grande esperança. A gordurinha que  sobra do lado, o cabelo que não se ajeita p ou que abandona a cabeça e não volta mais. Uma ruga, disfarçada de  sinal de expressão, que denota que o tempo vai marcando sua marcha pelos rostos dos viventes.  O livro que dorme infinitamente do lado da cama. A grama que cresce neste tempo e exige algum suor ou algum dinheiro para pagar o rapaz que corta, apara, recolhe e pede, de vez em quando, uma água gelada, “porque sem água gelada não dá para enfrentar este calorão”.

O Perdão

O ato de perdoar é coisa de religioso. É fora de moda. É coisa de outros tempos. É, talvez, até meio babaca. Coisa de gente fraca que abaixa a cabeça para tudo e para todos e que não se valoriza. Os tempos são outros. É hora de fazer valer o poder individual. Exercitar sua vontade. Cada um no seu quadrado. Pisão no pé se paga com pisão no pé. Dedo no olho com dedo no olho. Simples assim. Direto e reto, sem escalas.
O escritor Moacir Costa de Araújo Lima, físico, professor e conferencista, que lançou no ano passado a obra Perdão e crônicas para uma vida plena, acredita que perdoar é uma necessidade urgente para que os homens garantam uma boa saúde e uma vida mais promissora do que se leva aqui na Terra. Ele, que abriu a Semana Espírita da Sociedade Espírita Amor e Caridade, chega a dizer que as leis da Física mostram uma realidade imodificável que não é condizente com o conhecimento necessário para que a espécie humana evolua. 
Assim, em algum momento, é necessário que o próprio indivíduo assuma seu processo existencial e desprograme sua mente dos pensamentos que limitam a criatividade e a possibilidade de crescimento. Citou os conceitos da religião antiga que apresentava o Criador como um deus vingativo, mal humorado e muito pouco compreensivo. Além do pecado original e da culpa, dois outros pensamentos muito valorizados na cultura judaico-cristã e que acompanham as gerações há muito tempo.

21/10/2016

As Tribos

"Consta que cada dia é um novo dia.
O automático não existe mais."
Boa parte das pessoas acorda pela manhã e se prepara para um monótono dia. Todas as coisas são feitas de maneira repetitiva. Dia após dia, as mesmas ações. Despertou o relógio e começa a correria. A rotina começa aí e vai até a última ação. Correm pela consolidação da carreira profissional, pelo sucesso financeiro, pelo bem da família e por ene razões não tão claras assim.
Não é incomum que o indivíduo siga pela vida toda fazendo as mesmas coisas, da mesma forma na mesma ordem. Ligado o automático, vão seguindo por ruas, avenidas, repartições públicas, mercados sempre no mesmo ritmo. E o tempo vai passando e a vida vai seguindo. Os anos, os meses, os dias, as horas e os minutos vão passando porque passam sem pedir licença para ninguém.

A Maledicência

As cadeiras eram colocadas embaixo das árvores. Na frente das casas. Os tempos eram outros. Não havia esta insegurança que aprisiona todos dentro de casas que mais parecem prisões. A sombra era necessária. Se alguma brisa movimentasse as folhas, melhor. Era sinal de frescor. Se o vento estivesse muito forte, corria sério risco de que a erva mate fosse retirada da cuia. Na roda de mate das comadres, entre um gole e outro, as preocupações mais comuns estavam relacionadas à vida. Não a vida de cada uma delas. Mas, a vida dos outros.
As comadres eram conhecidas na cidade e faziam parte do grupo “As Maledicentes”.  Iam à igreja aos domingos e, sempre que possível, confessavam seus parcos pecados. De quebra algumas delas confessavam, vez por outra, os pecados dos outros. Tinham medo do inferno. Mas, sabiam que na lista de pecados não havia qualquer menção à maledicência. Apesar de crentes, quando apertava a situação, iam na cidade vizinha e batiam o tambor num centro espiritualista em busca de sorte nas finanças e no amor. Às vezes, no meio dos pedidos incluíam um pouco de azar para esta ou aquela.

A Voz das Urnas

O indivíduo quando coloca a cara no mundo entra numa escola. Ninguém nasce sabendo, diziam nossos antepassados, com a nítida intenção de empurrar alguma missão que temíamos fosse maior do que nossa capacidade e, principalmente, nossa disposição. O trocadilho valia como uma senha. Se ninguém nasce sabendo vai lá e faz do jeito que der. De preferência com algum esforço e esmero. Se o erro vier no final ele mesmo servirá como modelo para que a prática seja modificada e tudo se ajustará mais dia menos dia.
Em praticamente tudo na vida esta regrinha básica serve. Na política, no esporte, na vida social. Ninguém nasce sabendo. Então, é importante vencer o medo. Fazer as coisas que devem ser feitas. E o resultado aparecerá. Aquele que couber.

27/09/2016

O Sol

Era pequeno ainda. Talvez não tivesse completado  a primeira dezena de anos de vida. Nas horas vagas, nos dias em que não havia aula, nas férias, feriados religiosos e no turno inverso, desde que o sol brilhasse e as nuvens não fossem carregadas, vivia fazendo pequenas incursões pela mata. Não transitava por estas florestas de mundo mágico, cheias de duendes e outras criaturas que só fui conhecer nos livros de histórias. Eram matinhos próximos de casa.
Eu e meus amigos formávamos pequenos exércitos de exploradores. Na verdade o exército se resumia a dois ou três corajosos soldados que avançavam decididamente com o intuito de reconhecer o território e conquistar tudo o quanto fosse possível. Apesar da audácia, mantínhamos algum cuidado. Não era medo. Era precaução. Cuidávamos para que nossos pés com o indispensável atrito com o terreno não gerassem ruídos exagerados e espantassem os animais selvagens, que porventura estivem por ali ao alcance de nossas flechas e lanças.  Como estes bichos são ladinos e precavidos jamais ousaram se colocar na nossa mira.

15/09/2016

Os Mundos

Quando estávamos nas cavernas, o mundo era pequeno. A bem da verdade, era o mundo grande lá fora, mas, os animais que tomavam conta do planeta eram maiores e  mais ferozes. Convinha manter-se perto do esconderijo. E o que os olhos não enxergavam era como se não existisse. E os olhos pouco viam.  
A segurança vinha em primeiro lugar. Era questão de vida ou de morte. Os descuidados eram punidos. E ficar por aí explorando os arredores era coisa para poucos. Assim, o grande mundo se apequenava. Os donos eram outros. Os limites eram impostos pelo tamanho dos dentes, das garras e pela intensidade da fome.
Com o aparecimento do fogo, da lança e de alguns instrumentos rudimentares, mas, eficazes, o nosso mundo foi crescendo. Num dado momento, quando as cavernas já eram coisas do passado, os limites era outros. O frio excessivo em alguns lugares, a falta de alimentos em outros, a seca e outros inimigos contra os quais as armas eram bem pouco eficientes.
Não se sabe ao certo, mas em determinada era, os homens deixaram de se preocupar com as feras e com as variações de climáticas. Começaram, então, a lançar olhos pelas coisas que os outros homens, agrupados em pequenas tribos, faziam. E o olhar de cobiça foi crescendo. E as tribos, então, entraram em lutas para conquistar aquilo que não tinham. Valia tudo: terras, plantações, animais, mulheres, meninos e meninas para servirem de escravos.  Valia a pena sair por aí, por esse mundo enorme e sem fim, conquistando tudo o que se pudesse. 
Algumas dessas tribos criaram seus deuses e os homenageavam com tudo o que tinham pilhado no campo do inimigo. E deram a isso o nome de vitória. Acreditavam mesmo que seus deuses vibravam quando o corpo do inimigo caia sangrando na terra.  Sentiam mesmo que seus deuses os abençoavam. E a benção crescia na medida em que as vitórias se acumulavam. Assim, chegou um tempo em que não havia como não guerrear. Os deuses assim queriam. Era uma questão de fé.
Porém, toda a brincadeira por melhor que seja um dia cansa. Guerra, vitória, fé. Tudo isso misturado começou a não fazer mais sentido. E alguns aqui e acolá começaram a falar que os inimigos não estão lá, na outra tribo. Que os deuses nem no céu estão. Que os troféus de guerra são inúteis. E de loucos foram chamados. E disseram mais: que os inimigos do homem estão dentro dele mesmo e que cada ser carrega também dentro de si algo de divino.  E isso soou engraçado porque todo o mundo sabe que imperfeito é. Criou-se um problema, que alguém chamou de paradoxo. Se o indivíduo é imperfeito e o Criador não é, como pode o imperfeito carregar o perfeito dentro si?
Mas um sábio, que nem chinês era, levantou e disse que o homem deve buscar o autoconhecimento mergulhando nas suas entranhas, encarando seus ácidos e seus açúcares.  A partir daí, criando um novo ser. Como diz a gurizada: “tipo nascendo de novo”. Aí estaria o sujeito agindo como um deus, criando um ser melhor do que aquele que vinha claudicante pelo mundo afora. E este novo ser enxergaria o mundo com outros olho, pois a visão que tinha ficou lá atrás.

12/09/2016

Fatos e opiniões

Cada ação, cada acontecimento é um fato. A vitória da seleção na Olimpíada é um fato. A derrota do time no Brasileirão, outro fato. Um assassinato em Porto Alegre: triste, lamentável e quase corriqueiro fato. São fatos. São coisas objetivas. Boas ou não. São comprováveis por documentos, números, gráficos, imagens e registros.
O que se ouve sobre tudo o que cerca cada fato são opiniões. É a percepção das pessoas sobre as razões, as circunstâncias, as motivações e uma série de outros institutos subjetivos sobre o fato, levando em conta o juízo de valor que cada um imprime. Então, opinião não é fato. É a versão concebida por alguém de um fato. O fato é imutável, a opinião pode ser modificada ao longo do tempo.