Houve um tempo, quando ainda era uma criança impertinente,
que não acreditava em gnomos, elfos, fadas. O mundo real me parecia tão
fascinante. Crianças brincando entretidas com bolas meio murchas, adultos
dedicando-se a construir suas vidas. Hoje noto que o meio em que vivia não era nada fantástico.
A realidade era um tanto quanto dura, formada por uma fórmula onde os
ingredientes mais comuns eram os salários minguados, o desemprego, encrencas
por pouca coisa, danos causados pelos vícios do jogo e da cachaça e estas
situações tão corriqueiras na vida das pessoas sem muitas posses, sem muito
estudo e, aparentemente, sem futuro brilhante.
21/12/2016
O Envenenamento
Sócrates, filósofo grego, foi condenado à morte. Em sua cela, após refutar a possibilidade de negar suas ideias e pedir clemência, ingeriu, conforme a pena prevista, um dose de cicuta, uma planta contendo veneno mortal. Poderia ter evitado isso. Mas, preferiu manter-se firme e forte na convicção da imortalidade da alma do que viver mais alguns anos como um velho desonrado.
Historicamente, o veneno sempre foi meio eficaz para a morte silenciosa. Nos tempos mais antigos, antes das garantias e certezas dos exames laboratoriais, o envenenamento era morte certa e autoria quase sempre indefinida. Nos manuais de medicina legal, ainda consta que foi, por muito tempo, a forma de vingança mais feminina. O tal veneno da mulher literalmente passava por algum frasco contendo alguma substância que corroía o desafeto a partir de suas entranhas.
12/12/2016
O Figurante
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| Thomas Alva Edison |
Era um aluno que não vibrava. As
atividades propostas pelos mestres encontravam algum engajamento nos demais.
Nele não. Era um estudante desligado. Tornou-se um problema para alguns
professores. Avaliá-lo era difícil. Parceia que não tinha talento para nada.
Não demonstrava interesse. Enfim, era um desastre. Um professor, do alto de sua
sabedoria, de seu objetivismo, decretou que ele não era desprovido de talento.
Ao longo da vida seria um mero coadjuvante. Isso se todos os astros conspirassem
a seu favor. O esperado, porém, é de que os astros dessem as costas e o aluno não passasse de um figurante, destes
que aparecem alguns segundos na tela com o rosto desfocado caminhando enquanto
as câmeras flagram as mínimas expressões dos
rostos dos protagonistas.
Rejeitado
na escola, passou a ser educado pela própria mãe que lhe apresenta as lições
mais de acordo com o seu gosto. Assim, o aluno rebelde e imprestável para o
sistema de educação, começa a se jogar de corpo e alma nos livros de ciências.
Apoiado pela zelosa mãe, monta um laboratório onde começa a fazer pesquisas.
Vez por outra algum estrondo balança a casa, resultante da mistura inapropriada
de elementos químicos.
29/11/2016
Vida e Morte
As palavras estão aí e precisam
ser encontradas. Não cabe ao cronista escrever algo no estilo “não tenho
palavras para explicar” ou “não encontrei as palavras”. A coluna do jornal
precisa ser preenchida. Não há como deixar um espaço em branco. Tem que haver
algo publicado ali. De preferência com letras, com palavras e com ideias que,
de algum modo, façam sentido aos leitores. Então, é necessário, é
indispensável, é um imperativo que se escarafunche e que algo seja dito.
Explico: é terça-feira. Uma terça-feira
diferente. O sol sai de vez em quando. Mas, nuvens insistentes cobrem boa parte
do dia. Os sites, os jornais, a tevê, as rádios, as redes sociais. Todos. Todos
estão conectados com a queda do avião da delegação da Chapecoense. Vidas se
foram. Familiares são entrevistados insistentemente. As pessoas querem
explicações. O que houve com o avião? Houve falha humana? O desastre poderia
ser evitado? O clube poderia ter gasto mais algum recurso e conseguido uma
aeronave melhor?
24/11/2016
Copiar e Colar
Recebo cada link, cada postagem,
vejo cada publicação nas redes que vou te dizer. Absurdos homéricos são
divulgados como se fossem informações corretas. “Vamos acabar com o
auxílio-reclusão. Cada preso ganha 1.200,00 por mês enquanto o salário mínimo que
a população recebe é só R$ 880,00”. Tenho recebi coisas deste tipo de virtuais
amigos que cursaram ensino superior, de empresários razoavelmente bem
estabelecidos e de gente deste quilate.
22/11/2016
A Pressa
A pressa é uma marca dos tempos
atuais. Tudo é na hora. Não há espaço para depois. Parece que todo o mundo está
com a mãe na forca, como diriam os mais antigos. A comunicação instantânea
talvez tenha contribuído para isso. As respostas têm que, obrigatoriamente,
serem dadas logo após o sinalzinho duplo e azulado aparecer na tela. Minutos
são horas. E horas é a própria eternidade.
Com
a democratização da opinião, através das redes virtuais, criou-se outro mal,
tão prejudicial quanto a pressa: a necessidade de reagir. Parece que é uma
obrigação que todos tenham uma opinião formada sobre tudo, “sobre o que é o
amor, sobre o que eu nem sei quem sou”. Quem não opina tá por fora. E quem
opina, quem toma partido, quem se apaixona pela tese é bem capaz de servir de
cristão aos leões. E os felinos têm uma carência invejável. A fome é grande.
Polêmica, polêmica, polêmica. Por pouco, pisa-se no pescoço e quebram-se os
ossos. Um pouco de exagero, é claro.
10/11/2016
Sem Reclamações
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| O célebre reclamão Garfield, de Jim Davis |
Um dia sem reclamação. Só um. Nada
de lamentar o tempo quente e abafado, a falta de vento, o preço assustador do
litro de gasolina, o excesso de trabalho ou a falta dele, a grana curta no
bolso ou o saldo negativo no banco. O negócio que era para fechar e não fechou.
A pouca valorização que o vendedor deu pelo carro usado e a supervalorização
atribuída por outro um pouquinho só mais novo.
Um
dia sem reclamação. Só um. A falta de vitória do time do coração. O desempenho
trôpego de quem representou para ti uma grande esperança. A gordurinha que sobra do lado, o cabelo que não se ajeita p
ou que abandona a cabeça e não volta mais. Uma ruga, disfarçada de sinal de expressão, que denota que o tempo
vai marcando sua marcha pelos rostos dos viventes. O livro que dorme infinitamente do lado da
cama. A grama que cresce neste tempo e exige algum suor ou algum dinheiro para pagar
o rapaz que corta, apara, recolhe e pede, de vez em quando, uma água gelada,
“porque sem água gelada não dá para enfrentar este calorão”.
O Perdão
O ato de perdoar é coisa de religioso. É fora de moda. É coisa de outros tempos. É, talvez, até meio babaca. Coisa de gente fraca que abaixa a cabeça para tudo e para todos e que não se valoriza. Os tempos são outros. É hora de fazer valer o poder individual. Exercitar sua vontade. Cada um no seu quadrado. Pisão no pé se paga com pisão no pé. Dedo no olho com dedo no olho. Simples assim. Direto e reto, sem escalas.
O escritor Moacir Costa de Araújo Lima, físico, professor e conferencista, que lançou no ano passado a obra Perdão e crônicas para uma vida plena, acredita que perdoar é uma necessidade urgente para que os homens garantam uma boa saúde e uma vida mais promissora do que se leva aqui na Terra. Ele, que abriu a Semana Espírita da Sociedade Espírita Amor e Caridade, chega a dizer que as leis da Física mostram uma realidade imodificável que não é condizente com o conhecimento necessário para que a espécie humana evolua.
Assim, em algum momento, é necessário que o próprio indivíduo assuma seu processo existencial e desprograme sua mente dos pensamentos que limitam a criatividade e a possibilidade de crescimento. Citou os conceitos da religião antiga que apresentava o Criador como um deus vingativo, mal humorado e muito pouco compreensivo. Além do pecado original e da culpa, dois outros pensamentos muito valorizados na cultura judaico-cristã e que acompanham as gerações há muito tempo.
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