Nos tempos românticos, escolas e
igrejas não eram assaltadas. Os ladrões mantinham algum resquício de ética.
Talvez resultado do apego emocional. Algum respeito à professorinha e, quem
sabe, medo de alguma retaliação da divindade? Não importa. Merenda escolar,
equipamentos usados para a educação e o ambiente sagrado eram isentos da ação
danosa dos meliantes. Este tempo foi superado. Tanto que nem é mais notícia.
Somente os jornais mais populares e as rádios locais noticiam estas ações.
Escolas da periferia os grandes centros estão impedidas de manterem
televisores, monitores, computadores, notebooks, projetores e mesmo estoque de
comida. Tudo vira moeda no comércio de pedras de crack.
20/03/2017
14/03/2017
A Esperança
"A Esperança é o sonho do homem acordado". Aristóteles.
09/03/2017
Os Fragmentos
GURU - O guru indiano tem barbas
longas e brancas. Olha para a câmera e fala. Discorre sobre a vida. Tem alguma
dose de humor. Não o escrachado. É um humor sutil. Brinca sobre os costumes
tradicionais, sobre os padrões religiosos, sobre a tendência do culto à
personalidade, sobre a posse do objeto. Fala de tudo um pouco.
Algumas
vezes diz coisas que me dizem respeito. Outras nem tanto. Pelo menos por
enquanto. Dia desses falou algo que pensei. Pensei em escrever, mas não
escrevi. Isso é recorrente. Nas minhas caminhadas frequentes, penso, elaboro
teses e mais teses, concebo uma crônica todinha ou em fragmentos, respondo
perguntas que não respondi há algum tempo quando as palavras me faltaram, faço
discursos mais empolados ou mais diretos.
16/02/2017
Filtros dos Sonhos
Palavras-
Palavras ditas nem sempre são palavras sentidas. “-Bom dia! Como vai?”. “-Vou
bem, muito bem!”, responde o indivíduo carregando no peito sua dor, seu
sofrimento ou seu sentimento que, naquele instante, não é conveniente expressar
pela boca. Tivessem mais tempo, mais intimidade, mais liberdade e o papo seria
outro. Na fila do banco ou da padaria, na entrada da escola ou na lotérica, em
meio a senhas, carnês e faturas, cheiros de pães e roscas, demoras e incômodos,
não há como há alongar conversas. Na rapidez exigida, sobra a fórmula pronta. E
assim: “estamos todos bem”.
09/02/2017
Velho Museu
![]() |
| Museu do Índio-RJ/ /Arte sobre foto |
Bem-vindos aos
novos tempos. É tempo de opinião. Vale aquilo que se pensa. E, de preferência,
se tu pensares como eu penso. Se compartilhares o que posto. Se curtires as
minhas verdades. Os fatos? Às favas com os fatos. Entre os fatos e as opiniões
fiquemos com as opiniões porque elas variam e os fatos não. Elas apresentam a
beleza do movimento. A inquietude do subjetivo que pode mudar amanhã, depois ou
sempre.O juiz apontou
pênalti. Não importa que tenha sido. Importa nada se o zagueiro, malandramente,
tenha cutucado o avante pelas costas, jogando-o ao chão. O que mais conta é
que, nos tempos do primário, o juiz, que era ruim de bola, disse para alguém
que torcia para o colorado. Isso é o que importa. Assim, hoje, se ele marca um
pênalti não é porque seus olhos viram, porque sua perspicácia, treinada por
anos a fio com um apito na boca, tenha alertado para a infração. Nada disso. A
verdade é que sua decisão foi tomada muito antes. Foi tomada quando nasceu. E
não poderia ser diferente.
21/12/2016
Os Gnomos, as Fadas e os Elfos
Houve um tempo, quando ainda era uma criança impertinente,
que não acreditava em gnomos, elfos, fadas. O mundo real me parecia tão
fascinante. Crianças brincando entretidas com bolas meio murchas, adultos
dedicando-se a construir suas vidas. Hoje noto que o meio em que vivia não era nada fantástico.
A realidade era um tanto quanto dura, formada por uma fórmula onde os
ingredientes mais comuns eram os salários minguados, o desemprego, encrencas
por pouca coisa, danos causados pelos vícios do jogo e da cachaça e estas
situações tão corriqueiras na vida das pessoas sem muitas posses, sem muito
estudo e, aparentemente, sem futuro brilhante.
O Envenenamento
Sócrates, filósofo grego, foi condenado à morte. Em sua cela, após refutar a possibilidade de negar suas ideias e pedir clemência, ingeriu, conforme a pena prevista, um dose de cicuta, uma planta contendo veneno mortal. Poderia ter evitado isso. Mas, preferiu manter-se firme e forte na convicção da imortalidade da alma do que viver mais alguns anos como um velho desonrado.
Historicamente, o veneno sempre foi meio eficaz para a morte silenciosa. Nos tempos mais antigos, antes das garantias e certezas dos exames laboratoriais, o envenenamento era morte certa e autoria quase sempre indefinida. Nos manuais de medicina legal, ainda consta que foi, por muito tempo, a forma de vingança mais feminina. O tal veneno da mulher literalmente passava por algum frasco contendo alguma substância que corroía o desafeto a partir de suas entranhas.
12/12/2016
O Figurante
![]() |
| Thomas Alva Edison |
Era um aluno que não vibrava. As
atividades propostas pelos mestres encontravam algum engajamento nos demais.
Nele não. Era um estudante desligado. Tornou-se um problema para alguns
professores. Avaliá-lo era difícil. Parceia que não tinha talento para nada.
Não demonstrava interesse. Enfim, era um desastre. Um professor, do alto de sua
sabedoria, de seu objetivismo, decretou que ele não era desprovido de talento.
Ao longo da vida seria um mero coadjuvante. Isso se todos os astros conspirassem
a seu favor. O esperado, porém, é de que os astros dessem as costas e o aluno não passasse de um figurante, destes
que aparecem alguns segundos na tela com o rosto desfocado caminhando enquanto
as câmeras flagram as mínimas expressões dos
rostos dos protagonistas.
Rejeitado
na escola, passou a ser educado pela própria mãe que lhe apresenta as lições
mais de acordo com o seu gosto. Assim, o aluno rebelde e imprestável para o
sistema de educação, começa a se jogar de corpo e alma nos livros de ciências.
Apoiado pela zelosa mãe, monta um laboratório onde começa a fazer pesquisas.
Vez por outra algum estrondo balança a casa, resultante da mistura inapropriada
de elementos químicos.
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