A impressão que se tem nestes
dias é de que vivemos em uma embarcação perigosamente lançada em meio a
corredeiras. O capitão tem pouca prática. Os marujos, da mesma forma, são
especialistas em juntar tesouros, porém, mal sabem executar as tarefas que
garantam alguma segurança à tripulação.
O serviço que importa este momento: cruzar as águas violentas e
traiçoeiras não é prioridade. Estão todos, capitão e marujos, preocupados em
posição de defesa, escondendo os baús cheios de moedas de ouro e pedraria que
amealharam aqui e ali. Faz-se irritante silêncio. Dizem as más línguas que
acordos são costurados aqui e ali. Muito confete, muita serpentina, muita
manchete e ações deliberadamente lentas para um lado e rápidas para o outro. O
enredo é arrastado. Os mocinhos são canastrões. Só os ingênuos não enxergam que
estamos diante duma peça de teatro mal ensaiada. Os atores são medíocres. Mas
convencem quem quer se convencido.
03/04/2017
O Governo
Quando surgiram por aqui, os
humanos tinham como única meta a sobrevivência. As questões filosóficas não
faziam parte das preocupações cotidianas. O objetivo básico era manter-se vivo.
E não eram poucos os obstáculos: as temperaturas extremas, as feras, a falta de
recursos, a falta de conhecimento. Viver mais um dia era um desafio. A felicidade possível era a possibilidade de
dormir e acordar para enfrentar um turbilhão de dificuldades. Deus não existia
ainda. O paraíso não era aqui.
Como
vasos ruins, os mais fortes não se deixaram quebrar. Com raro esforço, foram
vencendo o frio, as tempestades, os trovões, a falta de comida. Eliminaram os
inimigos naturais um a um. Chegou um tempo, depois de muito suor, de sofrimento
e de medo que alguns poucos puderam estender o olhar para o entorno. Já não
havia tanto perigo. Já sabiam defender o corpo. Já eram maiores que as feras
que outro dia os eliminavam.
20/03/2017
A Ética do Ladrão
Nos tempos românticos, escolas e
igrejas não eram assaltadas. Os ladrões mantinham algum resquício de ética.
Talvez resultado do apego emocional. Algum respeito à professorinha e, quem
sabe, medo de alguma retaliação da divindade? Não importa. Merenda escolar,
equipamentos usados para a educação e o ambiente sagrado eram isentos da ação
danosa dos meliantes. Este tempo foi superado. Tanto que nem é mais notícia.
Somente os jornais mais populares e as rádios locais noticiam estas ações.
Escolas da periferia os grandes centros estão impedidas de manterem
televisores, monitores, computadores, notebooks, projetores e mesmo estoque de
comida. Tudo vira moeda no comércio de pedras de crack.
14/03/2017
A Esperança
"A Esperança é o sonho do homem acordado". Aristóteles.
09/03/2017
Os Fragmentos
GURU - O guru indiano tem barbas
longas e brancas. Olha para a câmera e fala. Discorre sobre a vida. Tem alguma
dose de humor. Não o escrachado. É um humor sutil. Brinca sobre os costumes
tradicionais, sobre os padrões religiosos, sobre a tendência do culto à
personalidade, sobre a posse do objeto. Fala de tudo um pouco.
Algumas
vezes diz coisas que me dizem respeito. Outras nem tanto. Pelo menos por
enquanto. Dia desses falou algo que pensei. Pensei em escrever, mas não
escrevi. Isso é recorrente. Nas minhas caminhadas frequentes, penso, elaboro
teses e mais teses, concebo uma crônica todinha ou em fragmentos, respondo
perguntas que não respondi há algum tempo quando as palavras me faltaram, faço
discursos mais empolados ou mais diretos.
16/02/2017
Filtros dos Sonhos
Palavras-
Palavras ditas nem sempre são palavras sentidas. “-Bom dia! Como vai?”. “-Vou
bem, muito bem!”, responde o indivíduo carregando no peito sua dor, seu
sofrimento ou seu sentimento que, naquele instante, não é conveniente expressar
pela boca. Tivessem mais tempo, mais intimidade, mais liberdade e o papo seria
outro. Na fila do banco ou da padaria, na entrada da escola ou na lotérica, em
meio a senhas, carnês e faturas, cheiros de pães e roscas, demoras e incômodos,
não há como há alongar conversas. Na rapidez exigida, sobra a fórmula pronta. E
assim: “estamos todos bem”.
09/02/2017
Velho Museu
![]() |
| Museu do Índio-RJ/ /Arte sobre foto |
Bem-vindos aos
novos tempos. É tempo de opinião. Vale aquilo que se pensa. E, de preferência,
se tu pensares como eu penso. Se compartilhares o que posto. Se curtires as
minhas verdades. Os fatos? Às favas com os fatos. Entre os fatos e as opiniões
fiquemos com as opiniões porque elas variam e os fatos não. Elas apresentam a
beleza do movimento. A inquietude do subjetivo que pode mudar amanhã, depois ou
sempre.O juiz apontou
pênalti. Não importa que tenha sido. Importa nada se o zagueiro, malandramente,
tenha cutucado o avante pelas costas, jogando-o ao chão. O que mais conta é
que, nos tempos do primário, o juiz, que era ruim de bola, disse para alguém
que torcia para o colorado. Isso é o que importa. Assim, hoje, se ele marca um
pênalti não é porque seus olhos viram, porque sua perspicácia, treinada por
anos a fio com um apito na boca, tenha alertado para a infração. Nada disso. A
verdade é que sua decisão foi tomada muito antes. Foi tomada quando nasceu. E
não poderia ser diferente.
21/12/2016
Os Gnomos, as Fadas e os Elfos
Houve um tempo, quando ainda era uma criança impertinente,
que não acreditava em gnomos, elfos, fadas. O mundo real me parecia tão
fascinante. Crianças brincando entretidas com bolas meio murchas, adultos
dedicando-se a construir suas vidas. Hoje noto que o meio em que vivia não era nada fantástico.
A realidade era um tanto quanto dura, formada por uma fórmula onde os
ingredientes mais comuns eram os salários minguados, o desemprego, encrencas
por pouca coisa, danos causados pelos vícios do jogo e da cachaça e estas
situações tão corriqueiras na vida das pessoas sem muitas posses, sem muito
estudo e, aparentemente, sem futuro brilhante.
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