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| Imitação de quadro do pintor italiano Giovanni Bragolin, popular no Brasil |
Fui à frente conferir que
algazarra era aquela. Eram os filhos e filhas da vizinha que apontavam para o
quadro Imaculado Coração de Maria de minha mãe, que estava pendurado na pobre
sala de casa. Com os dedos indicadores e mínimos de suas pequenas mãos formando
chifres que eram direcionados à pintura. “É do diabo, é do diabo”, diziam os vizinhos,
crentes recém-convertidos e dotados de incomum fome em caçar na vizinhança os
objetos do satanás. No fundo tinham a boa intenção de salvar a humanidade, mas,
a ignorância e a intolerância eram tantas que talvez impedissem que salvassem a
si mesmos.
Anos
depois, na mesma vila e nas vilas de todo o mundo, o alvo foi outro quadro. O
Menino Chorando, que se reproduzia aos milhares, foi implacavelmente
perseguido. O quadro, segundo os boatos, era maldito. Dizia-se, ainda, que o
pintor havia feito um pacto com o diabo e, diante disso, as casas que tinham a
pintura na parede estavam sujeitas a incêndios e mortes de crianças. Os boatos
iam mais longe: o próprio filho do pintor teria morrido logo após o término da
obra. Em alguns lugares do mundo, como na Inglaterra, promoveram-se grandes
queimas em praças públicas.
Também
o fogo consumiu os LPs de disco music, nos Estados Unidos, no começo dos anos
80. Tudo isso porque um DJ de uma rádio, que não apreciava o gênero,
identificou no estilo musical uma ameaça aos valores americanos. Talvez tenha
pesado para isso o fato de que as grandes estrelas da disco music eram negras.






