20/09/2017

Nossas façanhas

Gaúcho, na visão de Debret, século XIX
Houve um tempo em que boa parte do povo gaúcho desfilava com muito orgulho e animação. Aos olhos dos que aqui viviam, este pedaço de terra parecia destoar decisivamente do que se via nas estância localizadas acima do Mampituba. Era comum que se sentisse certa pena do pessoal lá de cima, eis que foram privados do paraíso. Repetiam-se, com alguma exaustão, nos encontros classistas que o Rio Grande detinha a melhor polícia, o melhor judiciário, os melhores políticos e assim por diante.
Alguns afoitos, talvez impulsionados pelos sentimentos de superioridade e pelo ímpeto de gabolice que sempre imperou por aqui, sentiram-se atraídos pelas teses separatistas. Há algumas décadas movimentos como o Sul é o Meu País eram levados a sério. Santa Catarina e Paraná não se entusiasmaram tanto. Os gaúchos ficaram tentando incluí-los sem sucesso. Enquanto isso, os dois estados vizinhos avançaram e a gauderiada ficou para trás. Teve, como se diz popularmente, um crescimento de rabo de cavalo: para baixo.

13/09/2017

Um quadro na parede


Imitação de quadro do pintor
italiano Giovanni Bragolin,
popular no Brasil
Fui à frente conferir que algazarra era aquela. Eram os filhos e filhas da vizinha que apontavam para o quadro Imaculado Coração de Maria de minha mãe, que estava pendurado na pobre sala de casa. Com os dedos indicadores e mínimos de suas pequenas mãos formando chifres que eram direcionados à pintura. “É do diabo, é do diabo”, diziam os vizinhos, crentes recém-convertidos e dotados de incomum fome em caçar na vizinhança os objetos do satanás. No fundo tinham a boa intenção de salvar a humanidade, mas, a ignorância e a intolerância eram tantas que talvez impedissem que salvassem a si mesmos.
Anos depois, na mesma vila e nas vilas de todo o mundo, o alvo foi outro quadro. O Menino Chorando, que se reproduzia aos milhares, foi implacavelmente perseguido. O quadro, segundo os boatos, era maldito. Dizia-se, ainda, que o pintor havia feito um pacto com o diabo e, diante disso, as casas que tinham a pintura na parede estavam sujeitas a incêndios e mortes de crianças. Os boatos iam mais longe: o próprio filho do pintor teria morrido logo após o término da obra. Em alguns lugares do mundo, como na Inglaterra, promoveram-se grandes queimas em praças públicas.
Também o fogo consumiu os LPs de disco music, nos Estados Unidos, no começo dos anos 80. Tudo isso porque um DJ de uma rádio, que não apreciava o gênero, identificou no estilo musical uma ameaça aos valores americanos. Talvez tenha pesado para isso o fato de que as grandes estrelas da disco music eram negras.

06/09/2017

Brasil: esperança e desilusão

Acredito que o Brasil é a grande potência mundial. Não ria. Estou falando sério. Talento natural não falta ao brasileiro. Nem só no futebol, é claro. Na música (música de verdade) há inúmeros cantores e compositores que transitam com alguma facilidade juntando plateias respeitáveis em diversas partes do mundo. Nas artes plásticas, na tevê, na publicidade e propaganda, nos estúdios de produção cinematográfica, na literatura, enfim, há muito brasileiro batendo um bolão no estrangeiro.
Mesmo em alguns setores carentes do olhar dos administradores, como a pesquisa científica, onde os recursos públicos mínguam a cada orçamento, o país ainda consegue algum destaque, colocando pelo menos quatro nomes entre os mais influentes do mundo, segundo aponta estudo produzido pela empresa Thomson Reuter, em 2016.

04/09/2017

Sei lá!

"O grande desafio é saber o que importa neste entulho de coisas. O que se faz com tanta informação? Para quê tanta opinião? E o que o indivíduo realmente ganha em acompanhar tanta notícia, tanta novidade?"

......

Os dias atuais escondem um desafio inimaginável. Lá nos anos 90,  pensadores pregavam que a informação seria a base do futuro. Quem tivesse informação estaria incluído nos novos tempos. Os outros, desinformados, seriam ultrapassados como carroças puxadas por cavalos magros numa estrada asfaltada onde velocíssimos veículos passam sem ao menos levar em conta as placas que anunciam velocidade máxima em 110 km/h.
Meia verdade. A realidade atual é do indivíduo multiconectado: celulares, sites de notícias, televisão, rádio, canais de vídeos, aplicativos e mais aplicativos geram uma atualização simultânea sobre o que está acontecendo no mundo neste exato instante. O tempo em Jacarta, a cotação do dólar, a produção agrícola na china, a bolsa de não sei aonde. É possível saber de tudo. Tudo mesmo. E na hora que se quer.

23/08/2017

O Medo do Escuro

Tinha medo de escuro. Era um menino pequeno. Algumas vezes o medo era muito maior do que ele. Sua mãe vivia dizendo que o escuro era só a ausência de luz. E que a falta de luz era momentânea. Não adiantava nada. À noite, quando seguia para seu quarto, era sofrimento na certa. Se ao escuro sobreviesse vento e chuva, então o pavor tomava conta.  Se um raio inventasse de rasgar o céu e se dirigir perigosamente em direção ao chão, o pavor tomava conta do serzinho. O cobertor se movimentava em direção à cabeça. O coração saía do lugar e tentava passar pela sua boca pequena. Faltava ar embaixo das cobertas.  Depois de uma luta enorme, o cansaço vencia o medo. Lentamente, chuva, vento, trovões e raios iam ficando para trás. Os olhos fechavam e se entregavam à falta de luz.

17/08/2017

Sou Nazista Sim

"Na realidade, o que os manifestantes fizeram foi assumir publicamente aquilo que todos bem sabem: há seres que se consideram superiores aos outros e lutam para sufocar os demais. O nome disso é ignorância".

                                                                                                                                      
Os dias passam e a humanidade aparentemente vai se distanciando dos seus atavismos primitivos. Aparentemente, disse eu. Não apostemos muito na mudança. Ela vem, mas muito lentamente. Podemos apostar isso sim, que há sentimentos escondidos esperando o momento oportuno para serem revelados. Assim, o que parece superado, que parece adormecido em algum canto, bem que pode ser revivido quando meia dúzia de inconsequentes fanfarrões se une para defender uma bandeira.
Recentemente, nos EUA, realizou-se uma passeata para ressaltar a primazia da raça branca. A façanha, batizada de Sou Nazista Sim, juntou homens, mulheres e crianças que unidos marcharam gritando palavras de ordem contra gays, negros, judeus e imigrantes. Por trás de tudo isso o desejo de fortalecer o discurso de direita.  
Na realidade, o que os manifestantes fizeram foi assumir publicamente aquilo que todos bem sabem: há seres que se consideram superiores aos outros e lutam para sufocar os demais. O nome disso é ignorância.

11/08/2017

Os Ratos e a Revisão

Quem trabalha com impressos sabe muito bem: é necessário revisar, revisar e revisar, sempre. Mesmo assim, revisado, revisado e revisado, o produto final pode surpreender o leitor mais atento. Jornais e revistas já foram às bancas com erros constrangedores nas capas, contracapas e matérias especiais. É da vida. Há alguns erros que se tornam clássicos como o de um jornal do interior do Paraná que publicou uma manchete tentando acalmar a população local que passava por num momento de grande preocupação com surtos de gripe: “Gerente da Saúde garante que não vai faltar vagina”. Imagino uma corrida às bancas para garantir o curioso exemplar.

07/08/2017

Os Leões

A história seria diferente se quem a contasse fossem os leões e não os caçadores de leões, diz um sábio ditado africano. Se os escravos africanos, capturados em suas tribos e levados à força mundo afora para construir riquezas, fossem os historiadores de seu tempo, certamente os livros seriam romances recheados de cenas de terror, de dor e de medo, tal a agressividade reinante nesta relação entre os colonizadores e os bichos-homens da África. Os negros africanos, segundo religiosos europeus e boa parte da elite pensante, eram animais brutos. Não tinham alma. Assim, a escravidão era uma benção, pois colocava a fera em contato com a cultura de homens civilizados, sábios, conhecedores da vida, da justiça e tementes a Deus.