As campanhas eleitorais não estão
nas ruas. Há candidatos que ainda vão desistir da maratona. Analisarão o tempo
de exposição na televisão, os números colhidos nas pesquisas de opinião
pública, a rejeição entre os eleitores e a viabilidade de ajudarem na
constituição de bancadas regionais no Congresso, entre outras coisas. Sem
contar nas costuras com partidos que, oportunamente, jogarão no lixo seus
programas (se é que os têm) por uma promessa de cargos e de arranjos outros tão
comuns na vida política brasileira há algum tempo.
03/06/2018
Vinte linhas
Nos tempos de colégio, os
professores, vez por outra, pediam uma composição. Era assim que chamavam o que
se convencionou chamar depois como redação. Vinte linhas era o mínimo que
pediam. Suplício para uns, moleza para outros. Os temas eram abrangentes. As
ideias que apareciam nas composições eram restritas. Não havia muitas fontes de
informação. Entre a população de baixa renda, um rádio na casa era obrigatório.
Uma tevê quase um luxo. Jornais e revistas eram artigos raros.
Um colega tinha uma letra miúda. Numa
linha cabiam dezenas de palavras. A composição dele era formada por pequenas
formiguinhas azuis, quase todas do mesmo tamanho naquele vasto fundo branco
atravessado por linhas negras. Era a exceção à regra. Para ele, convencionou-se
que dez linhas eram suficientes. Dava
para contar sua vida toda, de sua família e, talvez, dos vizinhos mais
próximos.
29/05/2018
Master/Blaster: a intervenção
Corpos gigantescos nem sempre
ostentam cabeças com massa encefálica suficiente para coordenar os movimentos e
determinar as ações mais indicadas para cada caso. Em Mad Max 2 – Além da
Cúpula do Trovão, uma cidade é movida por
esterco de porco. Vive-se o caos. Não há muito combustível fóssil à disposição.
Os litros de gasolina e diesel são disputados a tapa, a tiro e a facadas. Vale
tudo pelo precioso líquido. Não há governo. Restam sobreviventes fazendo
a própria lei. E, neste contexto, todo o mundo tem razão.
A geração de energia é comandada
por uma dupla: o gigante Master/Blaster. Master é dono de um corpanzil. Nos
seus ombros reside Blaster, um anão que o comanda e comanda também o submundo
da usina de geração de metano. A parte superior é governada pela Titia Entity
(Tina Turner). Como não acontece só na realidade, um governo compartilhado é um
prato cheio para servir de disputas. Titia quer mandar mais, Master/Blaster se
defende. Às vezes sabota o mundo superior, reduzindo a entrega de energia,
aumentando o desespero e o caos.
28/05/2018
Empanturrado
Minha mãe fazia pão de forno. O
cheiro exalado pelo lento processo aumentava sobremaneira a vontade de
consumi-lo. Era uma verdadeira tortura.
Parecia que o processo demorava a tarde inteira. Não era bem assim. Mas, na
verdade, alguns dias ela aumentava ainda mais o tempo de espera. Quando eles
estavam no ponto, recém-retirados do forno, quentinhos ainda, uma fina fumaça
que se dirigia até o teto e um cheiro que tomava conta da pequena casa, vinha
ela com uma sentença negativa e definitiva: “não se come pão quente porque dá
dor de barriga!”. Desânimo completo. A fome aumentava ainda mais. O valor de
uma fatia daquele pão ia às nuvens. Aos nossos olhos, aquilo tudo valia ouro.
Na
hora em que ela amolecia o coração e partia o pão em fatias, dando a cada um o
seu quinhão, mudava a preocupação. “Não
pode comer muito porque empanturra!”. Comíamos
o que dava. Ou melhor, o que ela dava porque a quantidade era definida por ela.
Jamais tivemos nosso estômago dilatado por pão quente, outra preocupação da
zelosa mãe.
10/05/2018
Casa no Campo
Tinha saído do cemitério faz
pouco. Um sol muito forte mostrava-se sobre a cidade. Era um desses verões fora
de época. As pessoas saíam de casa pela manhã ainda encasacados e, ao meio-dia,
se tanto, começavam a se despir.
Era experiente o morto. Mas, pela
idade que tinha alcançado, ainda poderia ficar por aqui mais alguns anos. Tinha
casa, família, carreira, uma aposentadoria razoável e tudo o mais. Gostava de
cantar. Na infância tinha jogado bola pelas ruas irregulares da sua cidade.
Talvez até tivesse quebrado alguma vidraça num desses chutes que saem do
controle e depois viriam dor de cabeça diante de um vizinho zangado ou de uma
mãe preocupada com a disciplina do filho.
06/05/2018
Os Descartáveis
Praticamente tudo o que o homem
inventou para o bem, acabou sendo usado para outra finalidade. O exemplo clássico é o avião. Ao mesmo tempo
em que reduziu o tempo para percorrer grandes distâncias virou uma máquina de
guerra competente, sendo possível atacar o inimigo de uma distância segura
lançando bombas sobre alvos pré-determinados.
Chegar à conclusão de que em
todas as coisas há mão dupla não é difícil. Um
simples telefone celular, que inscreve o indivíduo no mundo virtual, é muito
mais do que um aparelho de comunicação. Se bem usado é uma biblioteca sem
limites, é um instrumento que conecta a pessoa a um infinito mundo de
facilidades: tevê, rádio, jornal, cinema, restaurante, meio de transporte,
academia, consultório, igreja e muito
mais. Ao mesmo tempo é meio para propagação de mentiras, de ódio e para
formação de grupos extremistas, milícias e quadrilhas.
27/04/2018
O não-saber
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| Pouco mais de 4% da matéria que compõe o universo é conhecida |
Um pouco mais de 4% de tudo o que
existe no universo é conhecido. Mesmo que não seja muito bom em matemática,
posso deduzir, com algum grau de certeza e sem medo de falar uma besteira, que algo
em torno 96% de tudo o que há por aí, entre vivos, mortos, vistos e sentidos
são meros desconhecidos. Ora, a física explica, então, uma pequena parte dos
fenômenos existenciais porque o desconhecido, por si só, não tem
explicação. Talvez por isso mais sábio é
quem admite que nada sabe, ou pouco sabe,
do que quem arrota sua sabedoria no contato privado ou socialmente através das
redes sociais.
Diante disso tudo crescem
sobremaneira os conceitos relacionados às possibilidades em detrimento daqueles
ligados às certezas. Como ter certeza se o desconhecido é imensamente maior do
que o conhecido? Eis a questão.
19/04/2018
Parabéns, Pindorama!
![]() |
| "Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro", Oscar Pereira da Silva, 1922 |
Essa terra, onde as palmeiras
buscam os céus e os sabiás cantam como só os sabiás sabem fazê-lo, faz
aniversário no próximo domingo. A história desta porção de terra é cheia de
controvérsias e incertezas, apesar dos esforços dos historiadores e apresentar
versões críveis aos fatos.
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