12/07/2018

A ilusão do esporte

Tsu Chu, jogo de bola chinês:
espécie de futebol primitivo

O esporte é uma fantasia. É entretenimento. É diversão. Não é tão sério assim. Um jogo é só um jogo. Nada mais. Seja vôlei, basquete, tênis de mesa, salto em distância, salto com vara, beisebol, handebol. Não interessa onde tenha surgido. O esporte é uma fantasia humana. Dispensável para quem não está no meio, para quem não entende as regras, para quem está preocupado com outras coisas.  É certo que há coisas bem mais importantes do que um sujeito correndo atrás de uma bola ou conduzindo uma bola quicando pelo chão e se livrando da marcação de outros grandalhões para arremessá-la num cesto.
Quem assim pensa pode estar enganado. Se precisar de uma prova, pergunte para um amante do basquete o que ele acha das disputas acirradas por uma bola, por um arremesso, por um cesta. É uma idiotia todo aquele esforço? Não tem coisa mais importante para fazer? Pergunte para um amante de corrida qual a emoção de assistir uma maratona. Que graça tem um monte de gente correndo e suando para chegar à frente? Tudo por uma medalha?

27/06/2018

O Nosso Jogo


Aqui na cidade, como em todos os lugares da pátria, qualquer terreno baldio apresentava o potencial para transformar-se em um campo de futebol. Não havia muita coisa para fazer naquele tempo. Uma bola qualquer, de plástico, de couro, murcha, judiada, não importava a condição, desde que fosse mais ou menos parecida como uma bola, já servia para reunir um pequeno grupo de guris de idades diversas que suariam o tempo necessário para matar a fome.
Se bola não houvesse, alguns jornais amassados dentro de um saquinho de leite até resolvia de algum modo a situação. Era um remendo, uma improvisação desesperada. Não era uma solução. O problema é que ficava uma ponta no local onde o saco de plástico era amarrado. Quando subia pouco ganhava um efeito muito doido gerando incerteza para o goleiro. Além disso, a delicada criatura rompia-se facilmente quando o chute era mais forte.

21/06/2018

O Paraíso


A ideia de um salvador é religiosa. Os homens primitivos, incapazes de compreender a grandiosidade do processo existencial, entendiam que eram incapazes de lutar por si só. Haveria de ter alguém mais forte, mais sábio e dotado de algum poder que, quando evocado, pudesse suprimir as dores e os sofrimentos pelos quais todos passavam. Construiu-se assim, a figura do deus salvador. A adoração e a ritualística visavam dar uma inflada no ego do Criador para que, de algum modo, elegesse aqueles que tinham maior mérito espiritual e, desta forma, mereceriam, sem sombra de dúvidas, um lugar ao Seu lado.
Apesar de reconfortante, a ideia de que alguém de fora iria suprimir o indivíduo do seu caminho imprimindo uma realidade menos austera e sofrível num processo de correção de rumo, em alguns momentos parece ilógica. Os espiritualistas e os filósofos conceberam sistemas de crescimento e desenvolvimento individual, sem a ideia salvacionista. Ou seja, cada indivíduo tem um caminho, uma trajetória, uma história para contar ao longo dos tempos. E os dias que virão serão sempre resultantes dos dias que vieram. O suor do rosto de cada um vai sedimentando esta estrada de superação e de insistência.

Jesus na Causa


A argumentação é uma arte. Arte complexa. Isso porque depende da capacidade do indivíduo em defender uma ideia e da capacidade de interpretação do outro. Faltando uma das condições, a coisa não funciona. A comunicação fica truncada. Nem  todo o argumento é válido. Alguns são desprezíveis.
Nos períodos eleitorais, os políticos carreiristas saem por aí vendendo seu peixe. Como de regra, tentam ser o que não são. Misturam-se ao povo, comem coisas como come o povo, mudam as vestimentas para parecer povo, falam como se povo fossem. Vão às feiras atopetadas de gente, abraçam indiscriminadamente, beijam crianças, dão tapinhas nas costas de João, de Zé e de Maria Ninguém. Um assessor ao lado vai dizendo os nomes dos eleitores para causar uma boa impressão. E o pior é que causa!

03/06/2018

Os Candidatos


As campanhas eleitorais não estão nas ruas. Há candidatos que ainda vão desistir da maratona. Analisarão o tempo de exposição na televisão, os números colhidos nas pesquisas de opinião pública, a rejeição entre os eleitores e a viabilidade de ajudarem na constituição de bancadas regionais no Congresso, entre outras coisas. Sem contar nas costuras com partidos que, oportunamente, jogarão no lixo seus programas (se é que os têm) por uma promessa de cargos e de arranjos outros tão comuns na vida política brasileira há algum tempo.

Vinte linhas


Nos tempos de colégio, os professores, vez por outra, pediam uma composição. Era assim que chamavam o que se convencionou chamar depois como redação. Vinte linhas era o mínimo que pediam. Suplício para uns, moleza para outros. Os temas eram abrangentes. As ideias que apareciam nas composições eram restritas. Não havia muitas fontes de informação. Entre a população de baixa renda, um rádio na casa era obrigatório. Uma tevê quase um luxo. Jornais e revistas eram artigos raros.  
Um colega tinha uma letra miúda. Numa linha cabiam dezenas de palavras. A composição dele era formada por pequenas formiguinhas azuis, quase todas do mesmo tamanho naquele vasto fundo branco atravessado por linhas negras. Era a exceção à regra. Para ele, convencionou-se que dez linhas eram suficientes. Dava  para contar sua vida toda, de sua família e, talvez, dos vizinhos mais próximos.

29/05/2018

Master/Blaster: a intervenção


Corpos gigantescos nem sempre ostentam cabeças com massa encefálica suficiente para coordenar os movimentos e determinar as ações mais indicadas para cada caso. Em Mad Max 2 – Além da Cúpula do Trovão, uma cidade é movida  por esterco de porco. Vive-se o caos. Não há muito combustível fóssil à disposição. Os litros de gasolina e diesel são disputados a tapa, a tiro e a facadas. Vale tudo pelo precioso líquido. Não há governo. Restam sobreviventes fazendo a própria lei. E, neste contexto, todo o mundo tem razão.
A geração de energia é comandada por uma dupla: o gigante Master/Blaster. Master é dono de um corpanzil. Nos seus ombros reside Blaster, um anão que o comanda e comanda também o submundo da usina de geração de metano. A parte superior é governada pela Titia Entity (Tina Turner). Como não acontece só na realidade, um governo compartilhado é um prato cheio para servir de disputas. Titia quer mandar mais, Master/Blaster se defende. Às vezes sabota o mundo superior, reduzindo a entrega de energia, aumentando o desespero e o caos.

28/05/2018

Empanturrado


Minha mãe fazia pão de forno. O cheiro exalado pelo lento processo aumentava sobremaneira a vontade de consumi-lo.  Era uma verdadeira tortura. Parecia que o processo demorava a tarde inteira. Não era bem assim. Mas, na verdade, alguns dias ela aumentava ainda mais o tempo de espera. Quando eles estavam no ponto, recém-retirados do forno, quentinhos ainda, uma fina fumaça que se dirigia até o teto e um cheiro que tomava conta da pequena casa, vinha ela com uma sentença negativa e definitiva: “não se come pão quente porque dá dor de barriga!”. Desânimo completo. A fome aumentava ainda mais. O valor de uma fatia daquele pão ia às nuvens. Aos nossos olhos, aquilo tudo valia ouro.
Na hora em que ela amolecia o coração e partia o pão em fatias, dando a cada um o seu quinhão, mudava a preocupação.  “Não pode comer muito porque empanturra!”.  Comíamos o que dava. Ou melhor, o que ela dava porque a quantidade era definida por ela. Jamais tivemos nosso estômago dilatado por pão quente, outra preocupação da zelosa mãe.