22/09/2018

Campo Minado

Nas zonas de conflito enterram-se minas para atingir o inimigo. O passo seguinte pode ser o passo final do guerreiro. Pisar numa mina ativa é abrir caminho para o fim. É morte na certa. Quase certa: se houver um destes milagres o corpo estará dilacerado. Nada será como antes. O que sobrar será sempre uma parte. O todo ficou na explosão da mina.
O processo eleitoral que está em andamento por aqui é quase como um campo minado. Uma guerra. Cada passo pode conduzir ao fim. Os mortos vão ficando pelo caminho. Estilhaços de minas detonadas vão ferindo as carnes. Às vezes, o campo fede. Há sinais claros de decomposição pelo caminho.

19/09/2018

A Religião e a Política


O casamento entre política e religião não é coisa nova. Os povos antigos, muitas vezes, se organizavam politicamente e buscavam uma validação divina. Era necessário que o soberano tivesse a chancela da autoridade religiosa. Mal comparando, seria como se os deuses desejassem este ou aquele soberano no trono.
Na Idade Média, então, a igreja romana ditava as regras. Os conceitos de pecado foram ampliados de tal forma que qualquer oposição ao soberano era uma agressão à autoridade religiosa e ao próprio Criador. A pluralidade era uma ofensa. A crença era tutelada. Só quem seguisse o pensamento do clero tinha alguma chance de continuar vivendo.



Nos dias de hoje, apesar do amplo espectro de crenças e descrenças, o pensamento religioso influencia na vida em sociedade. Conceitos bem definidos de certo e errado, de admissível e não admissível, de permitido e de proibido à luz da religiosidade determinam padrões de comportamento. Assim, as liberdades individuais, especialmente quando relacionadas à orientação sexual, sofrem cerceamento rotundo ou silencioso. No pensamento de muitos, Deus se ofende quando o indivíduo não segue o protocolo previamente determinado.
De certo modo, nos períodos eleitorais este processo sofre um impulsionamento. Por trás disso está o discurso de defesa da família e dos bons costumes. Outra estratégia comumente usada é a frequência de candidatos nos cultos religiosos. Numa aliança com igrejas e pastores, candidatos são recebidos com glórias e aleluias num comício disfarçado de culto. Dia desses um ministro das altas cortes alertava para a necessidade de fiscalizar um pouco mais este uso da fé, do ambiente “sacro” e do poder dos pastores para conduzir as ovelhas para as garras deste ou daquele candidato.
A estratégia, por vezes, gera algumas situações surreais. Há um candidato, por sinal muito bem contado nas pesquisas, que debochadamente ensina crianças a fazer um sinal de arma com os dedos. É defensor do uso da tortura, do extermínio dos “homens que não são de bem”, debocha da opção sexual das pessoas, desvaloriza a mulher entre outras peripécias. Pois bem, dia desses, esse indivíduo, posava ao lado de pastores. Dizia que representava os homens de Deus. Credo, livrai-me do mal!
Não é necessário encostar os joelhos no chão semanalmente, nem jogar os braços para cima gritando aleluia para se saber que o grande mestre religioso do Ocidente, Jesus de Nazaré, construiu ao longo da sua pregação uma doutrina de aceitação, de compreensão, de perdão para aqueles que não seguem o caminho da perfeição. Não há no discurso de Jesus nenhuma expressão como “bandido bom é bandido morto” ou alguma recomendação para que a violência seja combatida com o uso de armas. Pelo contrário. Muito pelo contrário.
Apesar de ser um estado laico, sem uma orientação religiosa oficial, é flagrante o uso da religião no ambiente político. Na busca do poder cada um usa o que tem. E os líderes religiosos têm uma massa que os ouve com regularidade. Na hora do voto não é certo que o eleitor vai votar naquele candidato que sua igreja indicou. Ele tem liberdade. Toda a liberdade.
Mas, Deus está vendo!

24/08/2018

Os Velhos Jornais

Os textos hoje são pequenos. Dizem que ninguém tem muito tempo para gastar com leitura. Se o tema é complexo, então, o poder de síntese tem que, obrigatoriamente, imperar. Como se lê mais no computador e no celular, quanto menor melhor. Com isso, vive-se o tempo das ideias rasas, da conclusão a partir da manchete, da falta de detalhes. Objetividade é a norma.
Às vezes, opto por contrariar solenemente esta regra dos novos tempos. Se houvesse alguma pesquisa juro que gostaria de saber o resultado. Quantos leitores desistem de continuar lendo após o segundo parágrafo?
Na feira, no mercado, na loja ou na caminhada pela cidade, vez por outra encontro alguém que, sem grandes papos, de forma direta e objetiva como tudo tende a ser, informa que tem lido com frequência a coluna que publico com regularidade aqui no jornal. Sempre brinco, em pensamento, é claro, “alguém lê!”.
Os primeiros impressos que li, fora as famigeradas cartilhas escolares com seus desenhos primários e suas lições repetitivas, foram exemplares do Correio do Povo, o antigo, em formato standart. Suas fotos eram enormes e os textos da mesma forma. Ainda guardo na memória aquelas matérias grandiosas com imagens impressionantes de jogadores do Grêmio e do Inter disputando a rodada do final de semana. Havia impensáveis fotos de mais de um palmo e meio ou dois. Eram gigantes gremistas e colorados quase saindo da página do jornal.
O mais impressionante era a forma como estes exemplares chegavam até os meus olhos. Eram jornais velhos de dias e dias atrás, semanas ou talvez até meses. Em regra, eram usados no armazém, na venda, como forma de embalar o aipim ou a batata doce. Como estes tubérculos normalmente vêm sujos de terra preta ou vermelha, antes de ler e apreciar as “novidades” futebolísticas, havia um exercício de limpeza a ser feito: passava a mão levemente sobre a sujeira para não entranhar no jornal e prejudicar a compreensão da notícia ou da fotografia. Era um santo remédio. Uma ação simples. Sujava a mão, mas limpava o periódico.
Os jornais encolheram. As imagens são minúsculas. Os textos também. Muitas redações fecharam. Viraram sites de notícias. Caminham para a extinção, anunciam os que já chegaram no futuro. Se o seu Zé de antigamente ainda tivesse o armazém haveria de encontrar outra forma para empacotar os aipins e a batata doce.
Pesquisas – As pequisas eleitorais que vêm sendo publicadas não surpreendem, pelo menos neste momento. Lula, que é um candidato não-candidato, venceria todos os demais. Como não vai concorrer, ao sair do páreo é que se terá uma real noção do panorama político que se estabelecerá na nação. Uma guinada a uma visão repressora e fanfarrona, uma volta aos anos 90 com a social-democracia de FHC ou a consagração do poder de Lula, através de seu pupilo Haddad? Uma reviravolta com Marina ou Ciro? Como não vejo o futuro, sou incapaz de apostar um exemplar de jornal velho para que lado a população vai pender. Essa é uma daquelas questões que só o tempo vai responder. Aguardemos, então, o desenrolar de mais um emocionante capítulo da história desta jovem e não muito forte democracia pátria.

19/08/2018

A viagem no tempo

 
"Mas, há quem consiga viajar para o futuro sem máquinas. Nem chegam a desafiar as leis da física, pois, na verdade, seus corpos não saem do lugar em que estão. São os videntes. Enxergam o futuro. Ao menos assim dizem. Virou moda".

 A viagem no tempo é um sonho antigo dos seres humanos. Apesar de ser algo impossível nos dias atuais, a ficção científica há muito realiza este exercício. Segundo consta, desde os anos 30 do século passado já haviam películas propondo uma viagem acidental ou planejada para o passado ou para o futuro. Porém, dos anos 60 em diante é que este assunto parecer ter ganhado muita força. A Máquina do Tempo, baseado no livro de W. G. Wells, foi o primeiro filme a apresentar um humano usando um dirigível para viajar para um período previamente estabelecido. Antes disso, era o acaso que levava os seres até a quarta dimensão.

07/08/2018

A necessidade do controle


Make Google view image button visible again: https://goo.gl/DYGbub Make Google view image button visible again: https://goo.gl/DYGbub

Make Google view image button visible again: https://goo.gl/DYGbub
"O universo vasto, desconhecido e imensurável não combina com a necessidade que se tem de ter sempre razão, de impor a opinião num debate ou prever a ira de Deus contra esse ou aquele".


Os comentários nos sites da internet talvez revelem, de maneira mais cristalina, a disparidade de pensamento das pessoas. Ali é possível, por exemplo, entre xingamentos e zoações, navegar de zero a cem, do céu à terra em termos de opiniões e posturas existenciais. Claro que nem sempre se tem paciência para dar uma averiguada em como a tigrada está pensando sobre os grandes temas de humanidade.
Creio que não é de hoje: arrisco até afirmar que o homem sempre agiu deste jeito, tentando demonstrar uma certeza, tentando mostrar que ele tem razão. Na religião isto é muito claro. Os europeus sempre acharam muito estranho que outros povos, como os africanos e americanos, tivessem seus próprios totens, homenageassem seus ícones e não seguissem o caminho que parecia ser o certo, o da salvação.

05/08/2018

O progresso e o retrocesso

"O mundo cresce em tecnologia. As coisas ficam mais fáceis. Mas, o homem continua sendo o que sempre foi: um ser em constante construção. Um ser inacabado que conhece muito sobre muita coisa e pouco sobre si mesmo. O mundo tecnológico, com suas facilidades, torna-se facilmente um mundo de distração".


As últimas décadas foram pródigas em avanços tecnológicos. Nada disso foi por acaso. A corrida espacial levou ao desenvolvimento dos satélites. Os satélites, por sua vez, levaram a um melhoramento inimaginável nas comunicações. Com isso, os telefones saíram da sala e viraram item obrigatório nas mãos do pobre, do remediado e do rico. Nem artigo de luxo é. É de primeira necessidade. Telefone é tudo junto reunido: rádio, tevê, cinema. E muito mais do que isso.
Não faz muito, uma ligação telefônica era uma coleção de chiados. No meio disso, vez por outra ouvia-se alguma mensagem válida. Uma rede que iniciava numa mesa e seguida por cabos e fios levava as mensagens de um lado a outro. Hoje o telefone o que menos leva é a voz. Transporta imagens, músicas, traça rotas para turistas, reserva bilhetes para o cinema e mesa no restaurante, com direito a escolha de cardápio e forma de pagamento. Atualiza o gol do time, o capítulo da novela e as notícias que interessam a alguns, as curiosidades do falso mundo das celebridades e as novidades de um mundo frenético que não tem tempo para descanso nem um mínimo segundo. Enfim, um só aparelho é capaz de colocar o mundo todo na mão de uma pessoa com tudo o que há de bom e de ruim.
Tudo isso era impensável para o humano comum. Só os autores de ficção científica poderiam prever mudanças significativas como estas.
O mundo ficou pequeno. Porém, com tudo isso, o homem não se tornou maior. O homem é o mesmo de antes. Com uma diferença básica: conta com um meio mais eficiente e rápido para suas práticas. Os avanços das comunicações que possibilitam a realização de cirurgias delicadas com grande grau de precisão, também facilitaram os exércitos de fanáticos que explodem aqui e ali, gerando pânico, incerteza e medo em vários pontos do planeta. Ou seja, o homem é capaz de usar seus avanços tecnológicos tanto para facilitar a vida como para criar tantas outras dificuldades aos seus semelhantes.
Creio que essa é uma das principais características humanas: dar largos passos à frente e, depois de um tempo, voltar alguns passos atrás. Felizmente, os passos atrás são menores e o que fica é o progresso que se impôs. É uma impressão pessoal. Acredito que muitos pensam muito diferente. Afinal, há os totalmente otimistas que enxergam insistentemente o lado bom das coisas. Há os pessimistas que lamentam o dia do aniversário porque ele representa menos tempo de vida. Há os realistas que acham que nem tanto o otimismo nem tanto o pessimismo, mas sim o que deve ser focado é o real que se revela diante dos olhos da maioria das pessoas. Há outras formas de pensamentos que seria impossível nestas poucas linhas nominar as correntes e as ideias que se defendem consciente ou inconscientemente.
Uma coisa é certa. O mundo cresce em tecnologia. As coisas ficam mais fáceis. Mas, o homem continua sendo o que sempre foi: um ser em constante construção. Um ser inacabado que conhece muito sobre muita coisa e pouco sobre si mesmo. O mundo tecnológico, com suas facilidades, torna-se facilmente um mundo de distração. Há muita coisa para se fazer. Há muito conhecimento no ar. Tudo está disponível. O homem, porém, para conhecer a si mesmo nem precisa de tanto. O mergulho interno dispensa tecnologia. É primitivo, arcaico, simples, rústico. Talvez por isso não desperte tanta atenção assim.

O Medo

Minha mãe não contava histórias de boi da cara preta nem de bicho papão. A vida era dura e ela não tinha tempo para isso. Os tempos eram outros como são sempre outros os tempos que se vão. O mundo era mais simples. Vivia-se com menos. Muito menos do que se tem hoje. Na verdade, vivia-se como dava.
No caso dela, mulher, pobre, cheia de filhos, a vida nunca foi um conto de fadas, da Cinderela ou da princesa. Sempre havia coisas mais importantes a fazer: uma roupa para lavar, um pão no forno assando, uma casa para varrer, alguns filhos para cuidar, buscar água no poço, juntar lenha para o fogão. Assim, não sobrava tempo para ensinar a filharada a ter medo. Além disso, era econômica nas palavras. Não era de muitos rodeios. Porém, quando falava acertava o alvo.

21/07/2018

Rir é o melhor negócio


O riso é uma manifestação humana. Mas, diferentemente do que acreditava-se: não estamos sós. Os macacos riem. Os filhotes de ratos quando brincam emitem uma sonoridade que pode ser identificada como riso, segundo pesquisadores. Os bebês riem aparentemente sem motivos.
Mas, nem sempre o riso foi valorizado. Um dos personagens da obra O Nome da Rosa, de Humberto Eco, que foi adaptado para o cinema nos anos 80, um monge atormentado pela dicotomia da fé no salvador e o medo do inferno pelo cometimento de pecados, dizia em alto e bom som que rir é uma manifestação do demônio. Se bem me lembro, dizia o personagem que o homem que ri se aproxima dos macacos. De certo modo, entendia que rir é um péssimo negócio para quem buscava salvar a alma.