27/09/2018

A Cegueira

Estamos na década de 60. O crescimento das repúblicas socialistas do leste europeu é uma realidade. Brigam EUA e URSS pelo poderio econômico e tecnológico. O risco do comunismo se alastrar e tomar conta do mundo é um fantasma que assola as cabeças, tira os sonos, fomenta políticas de ataque e toma conta dos discursos. Apesar disso, convive-se. Com medos de lado a lado, mas convive-se. Restou uma certeza: era necessário destruir o comunismo.
Como se sabe, o tempo é relativo. Então, voltamos no tempo e já estamos no início do século passado. A Itália, como boa parte da Europa, vivia em petição de miséria. Eram necessárias medidas radicais para colocar a nação nos trilhos. Benito Mussolini, político habilidoso, cresceu como uma verdadeira esperança de redenção do povo italiano. Foi a mente brilhante por detrás do fascismo que tinha como principais características a valorização do masculino, a mobilização das massas, a militarização e a defesa de símbolos e cultos.

22/09/2018

Cacareco, Macaco Tião, Mosquito e Asno

Houve um tempo em que o voto era em papel. Chamava-se cédula eleitoral. O eleitor chegava na sua seção eleitoral, identificava-se com o seu título e recebia do mesário um papel impresso. Não havia essas urnas eletrônicas. Assim, ao invés de digitar um número o eleitor escrevia o número do candidato ou seu nome ou, ainda, somente o partido político. Como o analfabetismo era imenso, alguns votos viravam motivo de gargalhada. Nas cidades pequenas, então, um voto poderia fazer a diferença e a luta era ferrenha para validar um voto duvidoso.
Um dos aspectos mais curiosos nesses pleitos foi o lançamento de candidaturas alternativas. Assim, animais, personagens de filmes e novelas recebiam votos de eleitores irresponsáveis ou gozadores.
A tentativa mais consagradora foi do rinoceronte Cacareco. Corria o ano da graça de 1959. Já naquele tempo, imperava o sentimento de desgosto e de decepção em relação ao panorama político. Um jornalista, Itaboraí Martins, do Estado de São Paulo, numa bem humorada iniciativa, lançou Cacareco como candidato a vereador. Imprimiu milhares de panfletos e distribuiu na capital paulista. O animal conseguiu a impressionante marca de 100 mil votos. A performance de Cacareco foi tema da conceituada revista Time, dos EUA, que destacou a manifestação de um eleitor:"É melhor eleger um rinoceronte do que um asno”.

Campo Minado

Nas zonas de conflito enterram-se minas para atingir o inimigo. O passo seguinte pode ser o passo final do guerreiro. Pisar numa mina ativa é abrir caminho para o fim. É morte na certa. Quase certa: se houver um destes milagres o corpo estará dilacerado. Nada será como antes. O que sobrar será sempre uma parte. O todo ficou na explosão da mina.
O processo eleitoral que está em andamento por aqui é quase como um campo minado. Uma guerra. Cada passo pode conduzir ao fim. Os mortos vão ficando pelo caminho. Estilhaços de minas detonadas vão ferindo as carnes. Às vezes, o campo fede. Há sinais claros de decomposição pelo caminho.

19/09/2018

A Religião e a Política


O casamento entre política e religião não é coisa nova. Os povos antigos, muitas vezes, se organizavam politicamente e buscavam uma validação divina. Era necessário que o soberano tivesse a chancela da autoridade religiosa. Mal comparando, seria como se os deuses desejassem este ou aquele soberano no trono.
Na Idade Média, então, a igreja romana ditava as regras. Os conceitos de pecado foram ampliados de tal forma que qualquer oposição ao soberano era uma agressão à autoridade religiosa e ao próprio Criador. A pluralidade era uma ofensa. A crença era tutelada. Só quem seguisse o pensamento do clero tinha alguma chance de continuar vivendo.



Nos dias de hoje, apesar do amplo espectro de crenças e descrenças, o pensamento religioso influencia na vida em sociedade. Conceitos bem definidos de certo e errado, de admissível e não admissível, de permitido e de proibido à luz da religiosidade determinam padrões de comportamento. Assim, as liberdades individuais, especialmente quando relacionadas à orientação sexual, sofrem cerceamento rotundo ou silencioso. No pensamento de muitos, Deus se ofende quando o indivíduo não segue o protocolo previamente determinado.
De certo modo, nos períodos eleitorais este processo sofre um impulsionamento. Por trás disso está o discurso de defesa da família e dos bons costumes. Outra estratégia comumente usada é a frequência de candidatos nos cultos religiosos. Numa aliança com igrejas e pastores, candidatos são recebidos com glórias e aleluias num comício disfarçado de culto. Dia desses um ministro das altas cortes alertava para a necessidade de fiscalizar um pouco mais este uso da fé, do ambiente “sacro” e do poder dos pastores para conduzir as ovelhas para as garras deste ou daquele candidato.
A estratégia, por vezes, gera algumas situações surreais. Há um candidato, por sinal muito bem contado nas pesquisas, que debochadamente ensina crianças a fazer um sinal de arma com os dedos. É defensor do uso da tortura, do extermínio dos “homens que não são de bem”, debocha da opção sexual das pessoas, desvaloriza a mulher entre outras peripécias. Pois bem, dia desses, esse indivíduo, posava ao lado de pastores. Dizia que representava os homens de Deus. Credo, livrai-me do mal!
Não é necessário encostar os joelhos no chão semanalmente, nem jogar os braços para cima gritando aleluia para se saber que o grande mestre religioso do Ocidente, Jesus de Nazaré, construiu ao longo da sua pregação uma doutrina de aceitação, de compreensão, de perdão para aqueles que não seguem o caminho da perfeição. Não há no discurso de Jesus nenhuma expressão como “bandido bom é bandido morto” ou alguma recomendação para que a violência seja combatida com o uso de armas. Pelo contrário. Muito pelo contrário.
Apesar de ser um estado laico, sem uma orientação religiosa oficial, é flagrante o uso da religião no ambiente político. Na busca do poder cada um usa o que tem. E os líderes religiosos têm uma massa que os ouve com regularidade. Na hora do voto não é certo que o eleitor vai votar naquele candidato que sua igreja indicou. Ele tem liberdade. Toda a liberdade.
Mas, Deus está vendo!

24/08/2018

Os Velhos Jornais

Os textos hoje são pequenos. Dizem que ninguém tem muito tempo para gastar com leitura. Se o tema é complexo, então, o poder de síntese tem que, obrigatoriamente, imperar. Como se lê mais no computador e no celular, quanto menor melhor. Com isso, vive-se o tempo das ideias rasas, da conclusão a partir da manchete, da falta de detalhes. Objetividade é a norma.
Às vezes, opto por contrariar solenemente esta regra dos novos tempos. Se houvesse alguma pesquisa juro que gostaria de saber o resultado. Quantos leitores desistem de continuar lendo após o segundo parágrafo?
Na feira, no mercado, na loja ou na caminhada pela cidade, vez por outra encontro alguém que, sem grandes papos, de forma direta e objetiva como tudo tende a ser, informa que tem lido com frequência a coluna que publico com regularidade aqui no jornal. Sempre brinco, em pensamento, é claro, “alguém lê!”.
Os primeiros impressos que li, fora as famigeradas cartilhas escolares com seus desenhos primários e suas lições repetitivas, foram exemplares do Correio do Povo, o antigo, em formato standart. Suas fotos eram enormes e os textos da mesma forma. Ainda guardo na memória aquelas matérias grandiosas com imagens impressionantes de jogadores do Grêmio e do Inter disputando a rodada do final de semana. Havia impensáveis fotos de mais de um palmo e meio ou dois. Eram gigantes gremistas e colorados quase saindo da página do jornal.
O mais impressionante era a forma como estes exemplares chegavam até os meus olhos. Eram jornais velhos de dias e dias atrás, semanas ou talvez até meses. Em regra, eram usados no armazém, na venda, como forma de embalar o aipim ou a batata doce. Como estes tubérculos normalmente vêm sujos de terra preta ou vermelha, antes de ler e apreciar as “novidades” futebolísticas, havia um exercício de limpeza a ser feito: passava a mão levemente sobre a sujeira para não entranhar no jornal e prejudicar a compreensão da notícia ou da fotografia. Era um santo remédio. Uma ação simples. Sujava a mão, mas limpava o periódico.
Os jornais encolheram. As imagens são minúsculas. Os textos também. Muitas redações fecharam. Viraram sites de notícias. Caminham para a extinção, anunciam os que já chegaram no futuro. Se o seu Zé de antigamente ainda tivesse o armazém haveria de encontrar outra forma para empacotar os aipins e a batata doce.
Pesquisas – As pequisas eleitorais que vêm sendo publicadas não surpreendem, pelo menos neste momento. Lula, que é um candidato não-candidato, venceria todos os demais. Como não vai concorrer, ao sair do páreo é que se terá uma real noção do panorama político que se estabelecerá na nação. Uma guinada a uma visão repressora e fanfarrona, uma volta aos anos 90 com a social-democracia de FHC ou a consagração do poder de Lula, através de seu pupilo Haddad? Uma reviravolta com Marina ou Ciro? Como não vejo o futuro, sou incapaz de apostar um exemplar de jornal velho para que lado a população vai pender. Essa é uma daquelas questões que só o tempo vai responder. Aguardemos, então, o desenrolar de mais um emocionante capítulo da história desta jovem e não muito forte democracia pátria.

19/08/2018

A viagem no tempo

 
"Mas, há quem consiga viajar para o futuro sem máquinas. Nem chegam a desafiar as leis da física, pois, na verdade, seus corpos não saem do lugar em que estão. São os videntes. Enxergam o futuro. Ao menos assim dizem. Virou moda".

 A viagem no tempo é um sonho antigo dos seres humanos. Apesar de ser algo impossível nos dias atuais, a ficção científica há muito realiza este exercício. Segundo consta, desde os anos 30 do século passado já haviam películas propondo uma viagem acidental ou planejada para o passado ou para o futuro. Porém, dos anos 60 em diante é que este assunto parecer ter ganhado muita força. A Máquina do Tempo, baseado no livro de W. G. Wells, foi o primeiro filme a apresentar um humano usando um dirigível para viajar para um período previamente estabelecido. Antes disso, era o acaso que levava os seres até a quarta dimensão.

07/08/2018

A necessidade do controle


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"O universo vasto, desconhecido e imensurável não combina com a necessidade que se tem de ter sempre razão, de impor a opinião num debate ou prever a ira de Deus contra esse ou aquele".


Os comentários nos sites da internet talvez revelem, de maneira mais cristalina, a disparidade de pensamento das pessoas. Ali é possível, por exemplo, entre xingamentos e zoações, navegar de zero a cem, do céu à terra em termos de opiniões e posturas existenciais. Claro que nem sempre se tem paciência para dar uma averiguada em como a tigrada está pensando sobre os grandes temas de humanidade.
Creio que não é de hoje: arrisco até afirmar que o homem sempre agiu deste jeito, tentando demonstrar uma certeza, tentando mostrar que ele tem razão. Na religião isto é muito claro. Os europeus sempre acharam muito estranho que outros povos, como os africanos e americanos, tivessem seus próprios totens, homenageassem seus ícones e não seguissem o caminho que parecia ser o certo, o da salvação.

05/08/2018

O progresso e o retrocesso

"O mundo cresce em tecnologia. As coisas ficam mais fáceis. Mas, o homem continua sendo o que sempre foi: um ser em constante construção. Um ser inacabado que conhece muito sobre muita coisa e pouco sobre si mesmo. O mundo tecnológico, com suas facilidades, torna-se facilmente um mundo de distração".


As últimas décadas foram pródigas em avanços tecnológicos. Nada disso foi por acaso. A corrida espacial levou ao desenvolvimento dos satélites. Os satélites, por sua vez, levaram a um melhoramento inimaginável nas comunicações. Com isso, os telefones saíram da sala e viraram item obrigatório nas mãos do pobre, do remediado e do rico. Nem artigo de luxo é. É de primeira necessidade. Telefone é tudo junto reunido: rádio, tevê, cinema. E muito mais do que isso.
Não faz muito, uma ligação telefônica era uma coleção de chiados. No meio disso, vez por outra ouvia-se alguma mensagem válida. Uma rede que iniciava numa mesa e seguida por cabos e fios levava as mensagens de um lado a outro. Hoje o telefone o que menos leva é a voz. Transporta imagens, músicas, traça rotas para turistas, reserva bilhetes para o cinema e mesa no restaurante, com direito a escolha de cardápio e forma de pagamento. Atualiza o gol do time, o capítulo da novela e as notícias que interessam a alguns, as curiosidades do falso mundo das celebridades e as novidades de um mundo frenético que não tem tempo para descanso nem um mínimo segundo. Enfim, um só aparelho é capaz de colocar o mundo todo na mão de uma pessoa com tudo o que há de bom e de ruim.
Tudo isso era impensável para o humano comum. Só os autores de ficção científica poderiam prever mudanças significativas como estas.
O mundo ficou pequeno. Porém, com tudo isso, o homem não se tornou maior. O homem é o mesmo de antes. Com uma diferença básica: conta com um meio mais eficiente e rápido para suas práticas. Os avanços das comunicações que possibilitam a realização de cirurgias delicadas com grande grau de precisão, também facilitaram os exércitos de fanáticos que explodem aqui e ali, gerando pânico, incerteza e medo em vários pontos do planeta. Ou seja, o homem é capaz de usar seus avanços tecnológicos tanto para facilitar a vida como para criar tantas outras dificuldades aos seus semelhantes.
Creio que essa é uma das principais características humanas: dar largos passos à frente e, depois de um tempo, voltar alguns passos atrás. Felizmente, os passos atrás são menores e o que fica é o progresso que se impôs. É uma impressão pessoal. Acredito que muitos pensam muito diferente. Afinal, há os totalmente otimistas que enxergam insistentemente o lado bom das coisas. Há os pessimistas que lamentam o dia do aniversário porque ele representa menos tempo de vida. Há os realistas que acham que nem tanto o otimismo nem tanto o pessimismo, mas sim o que deve ser focado é o real que se revela diante dos olhos da maioria das pessoas. Há outras formas de pensamentos que seria impossível nestas poucas linhas nominar as correntes e as ideias que se defendem consciente ou inconscientemente.
Uma coisa é certa. O mundo cresce em tecnologia. As coisas ficam mais fáceis. Mas, o homem continua sendo o que sempre foi: um ser em constante construção. Um ser inacabado que conhece muito sobre muita coisa e pouco sobre si mesmo. O mundo tecnológico, com suas facilidades, torna-se facilmente um mundo de distração. Há muita coisa para se fazer. Há muito conhecimento no ar. Tudo está disponível. O homem, porém, para conhecer a si mesmo nem precisa de tanto. O mergulho interno dispensa tecnologia. É primitivo, arcaico, simples, rústico. Talvez por isso não desperte tanta atenção assim.