24/10/2018

Pernas Longas

Mitomania: s.f, psicopatologia, tendência a narrar extraordinárias aventuras imaginárias como sendo verdadeiras; hábito de mentir ou fantasiar desenfreadamente.

 Minha mãe, Dona Araci, que já saiu deste plano faz algum tempo, dizia que mentira tem pernas curtas. Eu acreditava nisso. Vez por outra, uma ou outra traquinagem feita por mim ou pelos meus irmãos, era resolvida diante da maternal inquisição seguida da ameaça: “tu juras que isso é verdade? Olha que mentira tem pernas curtas!”. Eram pequenas bobagens que se faziam. Coisas poucos significativas como quem deixou uma xícara cair, quem derrubou o açúcar na mesa ou, ainda, quem tinha começado a algazarra ou a briguinha entre irmãos.

23/10/2018

Divinos Candidatos

Deus Criando o Sol e a Lua- Michelangelo







O sentimento religioso é aquela sensação intrínseca, imanifestada, primitiva, que nasceu no instinto e se perpetuou, chegando até o homem intelectualizado. É a impressão da existência de um ser superior. Afirmam os estudiosos do campo da antropologia espiritual que este sentimento, atualmente racionalizado, nasceu com o próprio ser humano.
As primeiras manifestações humanas em relação ao supremo foram ainda na fase pré-civilização. O primitivo encontrava-se no subsolo do conhecimento. Projetava nas coisas o seu sentimento dando vida ao inanimado. As experiências do momento são representadas no material. Para alguns, a pedra foi o primeiro objeto de adoração, naquilo que se chama de litolatria ou adoração de pedras, rochas e relevos do solo. Depois a fitolatria, adoração dos vegetais, plantas, flores, árvores e bosques; seguindo-se da zoolatria, adoração dos animais e, posteriormente, a mitologia, que é uma explicação rudimentar do funcionamento do universo, através do componente mágico.

16/10/2018

Do Lado do Avesso

Habitualmente publico aqui textos autorais. São reflexões que  normalmente são publicadas em uma coluna que assino no jornal Bons Ventos, de Osório. Hoje, no entanto, valho-me de uma reflexão da talentosa amiga e colega de faculdade Magda Altafini, que recentemente foi postada em sua página pessoal no Facebook. Abração, Magda. 

 Do Lado do Avesso


O lado do avesso é o lado da contramão, é o lado onde ficam amostra as costuras, os remendos, os defeitos ... Nas roupas costumamos observá-lo para verificar se o trabalho foi feito com capricho. A moda, já o está utilizando em roupas menos formais, mudando um conceito de lado certo ... Já temos até coleções inteiras e de grife "Lado do Avesso".
Do Lado do Avesso é também álbum ao vivo da cantora brasileira Cássia Eller, lançado em dezembro de 2012 como uma das homenagens aos 50 anos que a cantora faria. Caetano até compôs uma faixa instrumental instituída: Do lado do avesso.

10/10/2018

Mais um jogo de futebol

"No fim, tudo vira partida de futebol: meu time contra o teu. E isso faz sentido pelo menos para quem gosta de jogo". 

De tempos em tempos o Brasil se reinventa. Foi assim com o Collor. Foi assim com o Lula. Será assim daqui para a frente. De lado a lado, esperanças e ressentimentos, ódios e amores doentios gerando ansiedades e angústias.
Tem gente que não está nem aí para as questões mais profundas. Importa ser contra alguém, bater boca nas redes sociais, divulgar notícias falsas e mensagens das mais morais possíveis, estabelecendo um novo padrão de comportamento: respeito aos valores da família e tiro nos outros. O pano de fundo é o combate à corrupção, aliás um dos maiores males da nossa civilização, e que merece ser combatido desde sempre.
Assim, o cidadão que muitas vezes está alheio às discussões mais intelectualizadas e teóricas que envolvem a história, as conquistas da civilização e outras coisas que fazem a alegria dos estudiosos, fica só na torcida. Ouve o pastor da igreja, o vizinho mais sabido ou alguém próximo e vai para a urna. No fim, tudo vira partida de futebol: meu time contra o teu. E isso faz sentido pelo menos para quem gosta de jogo.
Esse é o Brasil que temos. Estamos todos juntos nessa. Decidimos o futuro uns dos outros. Aceitar o resultado é preciso. Curar as feridas e seguir em frente é o remédio da hora.

03/10/2018

As fake news e o medo

Esta não é a primeira eleição brasileira onde o boato vale mais do que o fato. Quem participa do processo há um pouco mais de tempo deve lembrar dos boatos que favoreceram Fernando Collor de Mello, em 1989, levando-o à presidência da República num dos episódios mais traumáticos da vida política nacional. Dizia-se na época que Lula confiscaria a garagem de todos aqueles que tinham carro para jogar dentro uma família de sem-teto. As casas na praia também seriam confiscadas e entregues aos necessitados. A Globo editou o debate no Jornal Nacional e, entre outras baixarias, a campanha de Collor encontrou uma namorada do líder oposicionista, Míriam Cordeiro, que afirmou que Lula teria pedido para que fizesse um aborto. Anos mais tarde, Collor disse que se arrependia de ter abordado o caso na sua propaganda.
O clima de ódio fez de Collor, o Caçador de Marajás, presidente do país. Pouco tempo depois, o orgulho deu lugar à vergonha. Os colloridos foram despejados do poder, gerando um sentimento de vergonha nacional.

27/09/2018

A Cegueira

Estamos na década de 60. O crescimento das repúblicas socialistas do leste europeu é uma realidade. Brigam EUA e URSS pelo poderio econômico e tecnológico. O risco do comunismo se alastrar e tomar conta do mundo é um fantasma que assola as cabeças, tira os sonos, fomenta políticas de ataque e toma conta dos discursos. Apesar disso, convive-se. Com medos de lado a lado, mas convive-se. Restou uma certeza: era necessário destruir o comunismo.
Como se sabe, o tempo é relativo. Então, voltamos no tempo e já estamos no início do século passado. A Itália, como boa parte da Europa, vivia em petição de miséria. Eram necessárias medidas radicais para colocar a nação nos trilhos. Benito Mussolini, político habilidoso, cresceu como uma verdadeira esperança de redenção do povo italiano. Foi a mente brilhante por detrás do fascismo que tinha como principais características a valorização do masculino, a mobilização das massas, a militarização e a defesa de símbolos e cultos.

22/09/2018

Cacareco, Macaco Tião, Mosquito e Asno

Houve um tempo em que o voto era em papel. Chamava-se cédula eleitoral. O eleitor chegava na sua seção eleitoral, identificava-se com o seu título e recebia do mesário um papel impresso. Não havia essas urnas eletrônicas. Assim, ao invés de digitar um número o eleitor escrevia o número do candidato ou seu nome ou, ainda, somente o partido político. Como o analfabetismo era imenso, alguns votos viravam motivo de gargalhada. Nas cidades pequenas, então, um voto poderia fazer a diferença e a luta era ferrenha para validar um voto duvidoso.
Um dos aspectos mais curiosos nesses pleitos foi o lançamento de candidaturas alternativas. Assim, animais, personagens de filmes e novelas recebiam votos de eleitores irresponsáveis ou gozadores.
A tentativa mais consagradora foi do rinoceronte Cacareco. Corria o ano da graça de 1959. Já naquele tempo, imperava o sentimento de desgosto e de decepção em relação ao panorama político. Um jornalista, Itaboraí Martins, do Estado de São Paulo, numa bem humorada iniciativa, lançou Cacareco como candidato a vereador. Imprimiu milhares de panfletos e distribuiu na capital paulista. O animal conseguiu a impressionante marca de 100 mil votos. A performance de Cacareco foi tema da conceituada revista Time, dos EUA, que destacou a manifestação de um eleitor:"É melhor eleger um rinoceronte do que um asno”.

Campo Minado

Nas zonas de conflito enterram-se minas para atingir o inimigo. O passo seguinte pode ser o passo final do guerreiro. Pisar numa mina ativa é abrir caminho para o fim. É morte na certa. Quase certa: se houver um destes milagres o corpo estará dilacerado. Nada será como antes. O que sobrar será sempre uma parte. O todo ficou na explosão da mina.
O processo eleitoral que está em andamento por aqui é quase como um campo minado. Uma guerra. Cada passo pode conduzir ao fim. Os mortos vão ficando pelo caminho. Estilhaços de minas detonadas vão ferindo as carnes. Às vezes, o campo fede. Há sinais claros de decomposição pelo caminho.