20/03/2019

O perigoso mundo dos remédios


O pensamento até que tem alguma lógica: surge uma doença, pesquisadores analisam o caso, laboratórios investem pesado e desenvolvem um remédio. Uma revista científica publica o trabalho assinado por um escritor. O médico receita a medicação. O paciente toma. E a doença vai embora.
Assim deveria ser. Porém, nem sempre é assim que ocorre. Existem inúmeros alertas de que esta tabelinha entre doença, pesquisa, desenvolvimento de medicação e cura não se estabelece como deveria. O mais contundente deles é de Robert Whitaker, jornalista americano, escritor especializado em medicina e ciências, que publicou quatro livros sobre o tema e venceu inúmeros prêmios de jornalismo nos EUA. Segundo ele, a indústria farmacêutica investiu na relação com a psiquiatria e o que se vê hoje é uma sociedade altamente medicada e sem uma resposta positiva para os transtornos que atingem o ser humano.

14/03/2019

A caça e o caçador – A lei da selva


É da natureza dos animais a luta pela sobrevivência. Nas florestas que restam em todo o planeta, notadamente cercadas e mantidas por governos como reservas biológicas, é normal a luta encarniçada das espécies para matar a fome e prosperar até o dia seguinte. Não há dó nem piedade. Um leão ou um leopardo não viverão dramas existenciais quando avistarem um filhote de gazela disperso de sua manada e, portanto, indefeso. A graça e a beleza se vão para sempre. Restam pedaços de carnes e ossos trucidados por dentes fortes e engolidos por uma boca faminta.
Entre os homens civilizados, cultos e pretensamente conhecedores das razões da existência esta ação natural que acomete todos os seres bem que poderia ficar ao largo. Mas, vez por outra, essas guerras animalescas bem que tomam conta da realidade humana.

26/02/2019

Sobre memes e vírus


Os meios de comunicação influenciam sobremaneira na forma como as pessoas se manifestam no seu dia a dia. Há algumas décadas, a informação circulava com alguma lentidão. Houve um tempo em que os maneirismos dos programas de tevê, os bordões dos programas humorísticos, eram incorporados no vocabulário da molecada e mesmo dos adultos sem noção. “Vai pra casa, Padilha!”, “tem pai que é cego!”, “e o salário, ó!”, “o macaco tá certo!”, “Cacildis”, foram algumas dessas expressões criadas por humoristas como Jô Soares, Chico Anysio e Mussum que os meninos gostavam de usar no meio de suas conversas um tanto quanto despretensiosas. A ingenuidade ainda dava as caras.

A Visão da Montanha


O mundo é mental dizem os entendidos. Vão mais longe, dizendo que há uma mente inteligente por trás de tudo o que existe, do que existiu e do que existirá. Boa parte da civilização chama esta mente inteligente de Deus. É uma forma de reduzir a complexidade e tornar palpável o que não é. Ou, até mesmo de certa desídia e conformidade.
Porém, enganamo-nos todos quando cremos que a mente inteligente substitui a mente da gente. Nossa visão de mundo depende mais de nosso foco e da nossa lucidez do que da intervenção de terceiros.
Pode parecer muito complexo isso tudo. Mas, no fundo, reside alguma simplicidade por aqui. Senão vejamos: imaginemos agora, usando este atributo fantástico que é nosso cérebro (um mundo infinito de conexões que geram realidades distintas a cada um), que vamos subindo uma montanha. Olhando do sopé da montanha avista-se um horizonte. Ora, este horizonte vai sendo modificado cada vez que a marcha avança em direção ao topo. Chegando lá em cima, a escalada revelará um horizonte mais amplo. O panorama será muito diferente daquele observado do sopé.

11/02/2019

Roda Pião

Pião. Imagem: Wikipedia

Essas tragédias que vez por outra consomem vidas, comovem a todos e trazem dor e sofrimento, especialmente aos mais próximos, os familiares, em regra, apresentam pontos em comum: falta de fiscalização, relaxamento de entes públicos e privados, legislação frouxa que permite que empresários e dirigentes continuem jogando com a sorte e a demora excessiva no estabelecimento de culpados, gerando uma total garantia de impunidade.
Foi assim na Barragem de Mariana, será assim na de Brumadinho, talvez assim seja no Ninho do Urubu, do Flamengo, onde meninos sonhadores tiveram seus sonhos interrompidos por um desses “acidentes” que bem poderiam ter sido evitados. Tivesse a tragédia ocorrido no centro de treinamento do Cacimbinhas ou de um dos clubes do Acre, ainda assim, seria lamentável. Mais lamentável ainda quando se sabe que o Flamengo tornou-se uma potência econômica nos últimos anos, tendo faturado só com a venda de dois jogadores no ano passado (Lucas Paquetá e Vinícius Jr.) algo em torno 80 milhões de euros ou 340 milhões de Reais, aproximadamente.

As minas


Mina terrestre, artefato de guerra
Os dramas coletivos são capazes de inscrever no mapa locais até então desconhecidos da grande maioria das pessoas. Em 2015, Mariana, a primeira capital da Província de Minas Gerais, vinha vivendo um período de pouco destaque, muito embora a grande produção de minérios. A mineradora Samarco protagonizou um desastre com o rompimento de uma barragem matando 20 pessoas e causando praticamente a destruição do Rio Doce. Até o momento era o maior desastre ecológico registrado no país.
Agora foi a vez de Brumadinho, uma pacata cidade mineira de menos de 40 mil habitantes, vivenciar um drama ainda maior. Entre mortos e desaparecidos mais de 300 pessoas. A Vale, empresa que explora a mineração na área, lamentou muito o ocorrido. Suas ações na bolsa de valores caíram 20%, diz a manchete do jornal.

30/01/2019

A Terra é Plana



Vivendo e aprendendo. O Brasil na vanguarda, de novo. Agora por retomar teorias já vencidas, abandonadas. É tempo de coisas novas e, às vezes, de passar um pouco de vergonha, também. Sobre o desafio de vencer os mares e cruzar a Terra escrevi esta crônica há uns anos atrás, mais precisamente em 2014. Jamais imaginei que fosse reeditá-la. Coisas da vida. Coisas de um novo tempo que, muitas vezes, nos joga de volta à Idade Média.


O Navegante

A Terra é chata. É plana. Quando os limites dos mares findarem, as embarcações cairão num profundo fosso e daí jamais voltarão. E com elas se vão os homens, sua coragem, seus sonhos e seus projetos. Não adianta desespero, não adianta luta nem qualquer reação. A verdade é essa. E ponto final.
Outros diziam que quando as águas rareavam, monstros gulosos levantavam-se e abriam suas bocas enormes e, sem esforço, engoliam todas as embarcações. Adeus navegação, adeus homens, adeus vida. Enfrentar as águas rudes do mar nos tempos antigos era uma viagem sem fim. Sem glória, sem qualquer possibilidade de vitória. Era a viagem definitiva, sem qualquer possibilidade de apelação. Era quase uma pena capital. Um suicídio que só os loucos e os desequilibrados poderiam cometer. Navegar era desprezar a vida. Era correr para a morte. Era entregar a alma aos monstros e daí jamais ser resgatado.

25/01/2019

O Rádio


O rádio de tempos atrás era muito diferente. Por aqui, na aldeia, a programação local por muito tempo esteve baseada na música e nos apresentadores. Lá pelos anos 70, liam-se cartinhas com pedidos musicais. “Janaína da Baixada oferece a próxima página musical para seu noivo Leopoldo”. Página musical, no caso, era uma canção, uma música. A própria locução era mais solene. Alguns tratavam seus ouvintes de dileto ouvinte. Em alguns horários, as propagandas eram destinadas à dona de casa, pois o homem saia para trabalhar e o rádio entretinha a mulher, responsável pelas lides domésticas.
No interior, demorou até a interatividade migrar do papel das cartinhas e dos bilhetes para a linha telefônica. Ocorre que telefone era coisa rara, um produto muito caro suportado somente por empresas e profissionais liberais de reconhecida capacidade financeira. Com o surgimento dos orelhões, telefones públicos alimentados por fichas, a comunicação entre o rádio ouvinte e o apresentador do programa ganhou em dinamicidade. O desafio era reduzir o chiado e tornar a voz do participante um pouco mais audível.