Por óbvio que é não é culpa do meio, mas de quem o utiliza. A bem
da verdade, é lícito que se declare que esse uso equivocado do
processo de comunicação não é uma característica do nosso povo.
Não é exclusivamente retrato de nosso atraso, de nosso atavismo, de
nossa falta de cultura e de traquejo social. A falta de etiqueta, de
compromisso com a verdade é mundial. Claro, isso não absolve quem
usa este meio para atacar, para difundir o ódio, para reafirmar os
preconceitos contra grupos sociais ou defender ideias políticas ou
políticos notadamente ignorantes ou mal-intencionados.
11/06/2019
O Método da Desinformação
03/06/2019
Quero-quero, a mula sem cabeça e outros bichos
Aqui
perto há um terreno baldio na esquina. Outro grande logo ali. Por
aqui há também algumas áreas grandes com gramado e bem
arborizadas. Ainda que esteja chovendo um pouco, os pássaros são
insistentes. Pelo pouco que conheço, noto que há sabiás, pardais e
quero-queros ocupando o mesmo território. Não são os pingos da
chuva que os colocam a descansar. Na hora em que escrevo um
verdadeiro alarido de sons vai tomando conta do ambiente. Parece que
cada pássaro quer ser ouvido mais longe. Se estão dialogando falam
línguas distintas. Como cantam com decisão estes pequenos.
Contam
os mais entendidos sobre o costume dos pássaros que um deles, o
quero-quero, coloca-se a cantar longe do ninho para afastar os
invasores e garantir a segurança dos filhotes. Serzinho inteligente,
faz um alarido com se o ninho estivesse por ali prestes a ser
invadido. Dá rasantes, canta desesperadamente demonstrando sua ira e
sua determinação. Às vezes, conta com a solidariedade de um ou
outro que se junta no intuito de atacar com mais insistência e
efetividade o ameaçador. É conhecida a sua ferocidade,
especialmente pelo esporão que apresenta na ponta das asas. Acuado,
torna-se um gigante, apesar de medir algo em torno de 37 centímetros
e pesar insignificantes 280 gramas.
Por
ser um defensor intransigente de seu território, o quero-quero foi
adotado como símbolo do Rio Grande.
23/05/2019
Os boatos, as fofocas e as bizarrices
17/05/2019
O Reino da Mixórdia
"...só queriam um pouco mais de justiça e hoje enxergam que assinaram um cheque em branco e que a conta será muito mais salgada do que a anunciada".
O Brasil já vivenciou alguns episódios de mal-estar e constrangimento no passado. Na história recente, a posse de José Sarney como presidente é um desses fatos. Para os mais jovens, é claro, faz-se necessária uma explicação. Tancredo, que vem a ser tio-avô de Aécio Neves, era um político mineiro que concorreu à presidência numa eleição indireta, onde só votavam os congressistas. Naqueles tempos, o povo era alijado de votar diretamente. Este direito de escolher o presidente cabia aos deputados e senadores que, em regra, referendavam o general de plantão escolhido pelo presidente general ou pelo partido do tal militar.Sei que este papo histórico é um tanto chato. Insistir nesta toada de explicar tudo direitinho parece ser daqueles erros imperdoáveis a um cronista. Continuando assim e metade dos leitores vai jogar o jornal para o lado ou seguirá adiante fazendo coisas bem mais interessantes. Então: corte na história e vamos em frente. O congresso elegeu Tancredo tendo como vice José Sarney, um aliado do regime militar, escritor casual e, talvez por carteiraço, membro da Academia Brasileira de Letras, com a significativa obra Marimbondos de Fogo. Pois, a ironia do destino venceu de 7 a 0, tal qual a Alemanha fez há algum tempo. Tancredo ganhou. Mas, não assumiu. Morreu antes. O fato gerou uma comoção nacional. Mílton Nascimento e seu Coração de Estudante embalaram os atos fúnebres. A impressão era de que toda a esperança do povo estava sendo enterrada junto. Sarney, que não venceria, acabou presidente.
O Brasil já vivenciou alguns episódios de mal-estar e constrangimento no passado. Na história recente, a posse de José Sarney como presidente é um desses fatos. Para os mais jovens, é claro, faz-se necessária uma explicação. Tancredo, que vem a ser tio-avô de Aécio Neves, era um político mineiro que concorreu à presidência numa eleição indireta, onde só votavam os congressistas. Naqueles tempos, o povo era alijado de votar diretamente. Este direito de escolher o presidente cabia aos deputados e senadores que, em regra, referendavam o general de plantão escolhido pelo presidente general ou pelo partido do tal militar.Sei que este papo histórico é um tanto chato. Insistir nesta toada de explicar tudo direitinho parece ser daqueles erros imperdoáveis a um cronista. Continuando assim e metade dos leitores vai jogar o jornal para o lado ou seguirá adiante fazendo coisas bem mais interessantes. Então: corte na história e vamos em frente. O congresso elegeu Tancredo tendo como vice José Sarney, um aliado do regime militar, escritor casual e, talvez por carteiraço, membro da Academia Brasileira de Letras, com a significativa obra Marimbondos de Fogo. Pois, a ironia do destino venceu de 7 a 0, tal qual a Alemanha fez há algum tempo. Tancredo ganhou. Mas, não assumiu. Morreu antes. O fato gerou uma comoção nacional. Mílton Nascimento e seu Coração de Estudante embalaram os atos fúnebres. A impressão era de que toda a esperança do povo estava sendo enterrada junto. Sarney, que não venceria, acabou presidente.
09/05/2019
Intrigas palacianas
“Os piores inimigos são os que aplaudem sempre.” -
Tácito, historiador romano.
Boa
parte da história romana nos chega pela pena de Tácito. Sensível,
estiloso, atento, o escritor esculpia a história misturando à prosa
um pouco de poesia. Descrevia com presteza e atenção o cenário do
poder. Naqueles tempos, como nos dias atuais, os bastidores decidiam.
As tramas familiares, com assassinatos providenciais para limpar o
campo do processo sucessório, as intrigas políticas, com as falsas
acusações sobre os opositores que geravam falsos julgamentos com
penas verdadeiras, presenteavam o reino com governantes ilegítimos.
Chegava-se ao poder através do sangue e da articulação política.
A adaga, a espada e a forca eram argumentos políticos dos mais
utilizados.
02/05/2019
Ler, escrever e fazer contas
![]() |
| Sala de aula antiga |
Meu
avô era um homem rude. Viveu num tempo em que conforto existia
somente para os ricos. Iletrado, consumiu a vida nas lides mais
insalubres que se tinha na época. Enfrentava o frio e o calor na
pesca, na lavoura, cuidando de uma ou outra criação. Eram dias
difíceis. Tinha umas terrinhas. Mas, terra naquela época nem valor
tinha. Um eito dava para trocar por uma junta de boi, por um cavalo
magro, por uma carroça ou uma carreta.
As
escolas eram distantes. Os mais aplicados subiam no lombo de um
matungo e viajavam por entre matos seguindo trilhas e caminhos
precários, passando por sangas e riachos. Nos dias de intempérie ir
a aula estava fora de cogitação. Estudar era um luxo. Cresciam
conhecendo poucas letras, quando muito as que completavam o próprio
nome, e alguns números. Operações mais complexas ficavam para os
mais letrados.
26/04/2019
A Santa e o General
Sucedi
Luiz Henrique Benfica na produção do programa Olho Vivo, da Rádio
Osório. Era a maior audiência da emissora. Na realidade, continua
até hoje sendo um referencial no radiojornalismo da região. Por ali
o litoral norte se comunicava. Osório, Capão da Canoa, Tramandaí,
Palmares do Sul transitavam pelas ondas da rádio. Num tempo em que
só havia telefone fixo o trabalho era penoso. As entrevistas eram
agendadas no dia anterior. O chiado na linha telefônica por vezes
inviabilizava o bate papo. Pedro Farias, diretor da rádio,
apresentava o programa.
O
grande desafio era conseguir entrevistados para o sábado pela manhã.
As prefeituras encontravam-se fechadas, as câmaras de vereadores
também. Naqueles tempos os sábados eram mais preguiçosos. As
autoridades, que normalmente eram ouvidas durante a semana,
descansavam naquele dia. O esforço era grande para encaixar alguém
que tivesse um bom papo para preencher os espaços que se tornavam
cada vez maiores. Às vezes a vítima escolhida demonstrava pouca
intimidade com o microfone e a entrevista minguava. Era um desespero
pegar o telefone e ligar para deus e o mundo, acordando uns que se
negavam a falar ou, ainda, ouvindo pacientemente o telefone chamar
sem resposta até final no tradicional puc puc puc .
Certa
vez o Pedro saiu de férias. Pegou uns dias para descansar. Fiquei
responsável pela produção e apresentação do programa a semana
toda. Gastei todo o repertório. Sexta-feira, no final da tarde,
bateu o desespero. Era verão e ninguém estava disponível. Fiz uma
verdadeira ronda e nada.
Mas,
havia sempre uma carta na manga. E a carta era ouvir um historiador
para falar sobre o passado da cidade e da região. Uma entrevista
leve. Convoquei o dr. Guido Muri, historiador e entusiasta pela vida
osoriense, que vez por outra salvava o programa. Era conhecida sua
posição contrária à mudança do nome da cidade. Acreditava que
Osório deveria retornar ao antigo nome Conceição do Arroio.
Criticava o ato arbitrário do governo do Estado que, em 1934, através
de um decreto e sem ao menos consultar os cidadãos, abandonou a
santa e homenageou o militar. Isso, segundo ele, de algum modo
contribuía para que a cidade vivesse na míngua, sem crescimento
econômico e progresso.
De
conceição do Arroio para o Mundo
A
Rádio Guaíba e o Correio do Povo mantinham no período de verão um
repórter para acompanhar as notícias da Orla Gaúcha. Waldomiro de
Oliveira, de voz suave, agradável e dicção limpa, era o
responsável pelos boletins e textos. Pois, na segunda-feira, após a
manifestação do dr, Guido Muri, o Correio publicou uma pequena e
curiosa nota destacando o “movimento pela mudança de nome da
cidade”. Aventou-se a possibilidade de realizar um plebiscito para
ouvir a comunidade. Não sei ao certo se foi por causa disso. Porém,
pouco tempo depois, Pedro voltou aos microfones e nervosamente
enterrou a tese.
Crônica publicada no Caderno Mundo das Ideias, em 25.04.2019, encartado no Jornal Bons Ventos.
17/04/2019
O Complexo de Vira-Latas
![]() |
| Barbosa, goleiro brasileiro na Copa de 50 |
A Síndrome do Cachorro Vira Latas ou Complexo de vira Latas foi
diagnosticada pelo dramaturgo brasileiro Nélson Rodrigues. Ela
atinge o imaginário da população brasileira que tende a acreditar
que tudo o que se produz por aqui, tudo o que se faz neste pedaço de
chão não apresenta a mesma qualidade do que é feito lá, nos
países mais desenvolvidos. Inconscientemente transita a informação
de que há um débito permanente que persegue o povo tupiniquim.
Assim, se justificam expressões como “isso é Brasil” dita,
invariavelmente, depois de algum deslize cometido por autoridade do
governo ou mesmo por algum cidadão imperfeito.
Obras inacabadas, políticas públicas capengas, lideranças
despreparadas, carências estruturais, dificuldades a torto e a
direito são algumas das coisas mais do que corriqueiras registradas
por aqui com alguma insistência, o que de certo modo colaboram para
que a população carregue permanentemente este sentimento de
inferioridade. Paralelamente, somos acossados por ideias nem sempre
precisas de que no restante do mundo as coisas funcionam com maior
precisão e, assim, as pessoas são mais felizes. É comum, por
exemplo, sair da boa de alguém que jamais cruzou o Rio Mampituba
afirmações de que “lá nos EUA não é assim” ou “na Europa
essas coisas não acontecem”. Às
vezes ocorre coisa pior.
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