30/06/2019

Aquilo que une, também afasta, e muito...


Por Marcelo Reis, advogado, professor, coordenador do Curso de Direito da Unicnec - Osório.
Em uma palestra sobre cybebullying em uma escola um menino de cerca de oito anos me relatou o seguinte: “quando minha mãe ganhou um celular novo, ela não saía do celular. Eu falava pra ela, “mãe, mãe, mãe”. Eu queria atenção e ela não dava. Aí eu falei pra ela: “o dia que eu tiver um celular, também não vou te dar atenção. Hoje minha mãe me chama e eu não respondo, fico de fone de ouvido e ela grita comigo”.

Liberdade de imprensa sob ameaça no Brasil

Por Gabriela Prestes (jornalista)

Desde que o novo governo assumiu o comando do país em janeiro deste ano, infelizmente, vários episódios contra a liberdade de imprensa vem trazendo prejuízos para a nossa democracia, ao acesso livre às informações e deixando o trabalho jornalístico cada vez mais tenso e difícil. Nesta última semana, presenciamos mais três formas indiretas de ataque à liberdade de imprensa. Dois jornalistas e um comentarista de grandes veículos de comunicação do país foram afastados e ameaçados nas suas funções de comunicadores.
No mais recente caso, Paulo Henrique Amorim, depois de 13 anos, foi afastado da função de apresentador do Domingo Espetacular da Rede Record de TV. O jornalista é um crítico do atual governo e usa as suas redes sociais para fazer as suas análises políticas. Antes dele, a apresentadora do SBT, Raquel Sheherazade, jornalista, foi alvo do ataque de um dos principais patrocinadores do canal, Luciano Hang, proprietário de uma rede de lojas espalhada pelo país. Ele pediu que o SBT demitisse a jornalista pelas críticas feitas por ela nas suas redes sociais contra o governo Bolsonaro.

27/06/2019

A Realidade Paralela


Um pensador francês do século XIX, Lèon Denis, disse que o pensamento é a própria voz do espírito. A conclusão que se chega, depois de algumas páginas, é a de que a realidade é aquilo que se vivencia. Ou seja, a própria pessoa a partir do que pensa vai criando sua experiência existencial. A psicanálise lida com esta questão, mesmo que de outra perspectiva, a partir de Lacan e sua conceituação de real, do imaginário e do simbólico.
Os avanços tecnológicos têm proporcionado uma mudança significativa na percepção da realidade. O pesquisador e tecnólogo americano Aviv Ovadyam tem se debruçado sobre os efeitos das mentiras virtuais espalhadas com a ajuda da tecnologia. Em recente matéria do site El País, alerta que é possível chegarmos a um ponto onde a mentira vai se agigantando de tal forma que as pessoas vão perdendo a noção do que é verdade e o que é falso. Contribuem para isso as estratégias de uso de robôs para disseminação de ideias dando a impressão de que aquilo realmente tem alguma importância. Assim, criam-se realidades a partir de falsidades.

20/06/2019

Questão de Tempo



Não restam dúvidas de que os ciclos duram menos nos dias de hoje. Sinal dos tempos: tudo, nos dias que se seguem, movimenta-se num ritmo mais acelerado. Tudo é muito rápido. Alguns dizem que a percepção do tempo vai mudando conforme o número de tarefas e o envolvimento que se tem. Como estamos todos - querendo ou não-, conectados, alguns quase escravizados a aplicativos de mensagem, nem se nota que os minutos correm como um atleta queniano na maratona. E assim apressados seguem-se as horas, os dias e as semanas.
Uma notícia, uma imagem, um meme, uma postagem prosaica, uma bomba ou uma bombinha com ímpeto atravessam o mundo em segundos. Num passado muito recente não era assim. A vida era mais lenta. As coisas demoravam mais. As novidades envelheciam até chegar nos cantões mais distantes.

11/06/2019

O Método da Desinformação


Boa parte dos meus amigos e conhecidos tem optado por garantir uma certa distância das redes sociais. Eventualmente postam uma ou outra coisinha para não cair no esquecimento total neste mundo chamado apropriadamente de virtual. Fenômeno decantado como a expressão mais vívida da democracia, não é menos verdade que as ferramentas virtuais, como o Facebook, Twitter e outros da mesma corrente, às vezes, se prestam mais a escancarar o alto grau de ignorância e truculência dos nossos tempos do que a tarefa primordial que é conectar as pessoas.
Por óbvio que é não é culpa do meio, mas de quem o utiliza. A bem da verdade, é lícito que se declare que esse uso equivocado do processo de comunicação não é uma característica do nosso povo. Não é exclusivamente retrato de nosso atraso, de nosso atavismo, de nossa falta de cultura e de traquejo social. A falta de etiqueta, de compromisso com a verdade é mundial. Claro, isso não absolve quem usa este meio para atacar, para difundir o ódio, para reafirmar os preconceitos contra grupos sociais ou defender ideias políticas ou políticos notadamente ignorantes ou mal-intencionados.

03/06/2019

Quero-quero, a mula sem cabeça e outros bichos


Aqui perto há um terreno baldio na esquina. Outro grande logo ali. Por aqui há também algumas áreas grandes com gramado e bem arborizadas. Ainda que esteja chovendo um pouco, os pássaros são insistentes. Pelo pouco que conheço, noto que há sabiás, pardais e quero-queros ocupando o mesmo território. Não são os pingos da chuva que os colocam a descansar. Na hora em que escrevo um verdadeiro alarido de sons vai tomando conta do ambiente. Parece que cada pássaro quer ser ouvido mais longe. Se estão dialogando falam línguas distintas. Como cantam com decisão estes pequenos.
Contam os mais entendidos sobre o costume dos pássaros que um deles, o quero-quero, coloca-se a cantar longe do ninho para afastar os invasores e garantir a segurança dos filhotes. Serzinho inteligente, faz um alarido com se o ninho estivesse por ali prestes a ser invadido. Dá rasantes, canta desesperadamente demonstrando sua ira e sua determinação. Às vezes, conta com a solidariedade de um ou outro que se junta no intuito de atacar com mais insistência e efetividade o ameaçador. É conhecida a sua ferocidade, especialmente pelo esporão que apresenta na ponta das asas. Acuado, torna-se um gigante, apesar de medir algo em torno de 37 centímetros e pesar insignificantes 280 gramas.
Por ser um defensor intransigente de seu território, o quero-quero foi adotado como símbolo do Rio Grande.

23/05/2019

Os boatos, as fofocas e as bizarrices


Nos papos de comadre, ou de compadre, “sabe qual é a última?” era a senha para abrir o leque da conversa e, assim, deliberar sobre questões que diziam respeito à vida da mulher alheia ou das pessoas que transitavam pelo pedaço. “Não vi, mas me contaram” de vez em quando aparecia no meio da confabulação. Era como se um salvo conduto. Uma desculpa para a falta de exatidão e, mesmo, para os eventuais desvios e exageros que a notícia primitiva poderia conter. Não havia, ainda, naqueles tempos, esse fenômeno da rede social. Assim, as notícias da comunidade eram repassadas de boca a boca. Em regra, os fatos iam ganhando interpretações mais ou menos maliciosas, detalhes eram acrescidos conforme a disposição dos comunicantes e o fato, muitas vezes, era mero arremedo da sua versão final.

17/05/2019

O Reino da Mixórdia


"...só queriam um pouco mais de justiça e hoje enxergam que assinaram um cheque em branco e que a conta será muito mais salgada do que a anunciada".

O Brasil já vivenciou alguns episódios de mal-estar e constrangimento no passado. Na história recente, a posse de José Sarney como presidente é um desses fatos. Para os mais jovens, é claro, faz-se necessária uma explicação. Tancredo, que vem a ser tio-avô de Aécio Neves, era um político mineiro que concorreu à presidência numa eleição indireta, onde só votavam os congressistas. Naqueles tempos, o povo era alijado de votar diretamente. Este direito de escolher o presidente cabia aos deputados e senadores que, em regra, referendavam o general de plantão escolhido pelo presidente general ou pelo partido do tal militar.Sei que este papo histórico é um tanto chato. Insistir nesta toada de explicar tudo direitinho parece ser daqueles erros imperdoáveis a um cronista. Continuando assim e metade dos leitores vai jogar o jornal para o lado ou seguirá adiante fazendo coisas bem mais interessantes. Então: corte na história e vamos em frente. O congresso elegeu Tancredo tendo como vice José Sarney, um aliado do regime militar, escritor casual e, talvez por carteiraço, membro da Academia Brasileira de Letras, com a significativa obra Marimbondos de Fogo. Pois, a ironia do destino venceu de 7 a 0, tal qual a Alemanha fez há algum tempo. Tancredo ganhou. Mas, não assumiu. Morreu antes. O fato gerou uma comoção nacional. Mílton Nascimento e seu Coração de Estudante embalaram os atos fúnebres. A impressão era de que toda a esperança do povo estava sendo enterrada junto. Sarney, que não venceria, acabou presidente.