30/08/2019

O Medo da Arte

Um filme, uma música, uma pintura, uma obra de arte qualquer vai além da câmera, das luzes, dos enquadramentos, da edição, da partitura, do arranjo, do ritmo, ou da tela, dos pincéis e da moldura. O expectador assiste a um filme não como se residisse ali alguma falsidade, alguma interpretação. A história existe por si só. Ela é viva. Ficção científica, comédia, drama. Não importa: há verdade, dor, riso, sofrimento e tudo o quanto os personagens revelam nos diálogos, nos atos e nos gestos.
Uma pintura bucólica deixa de ser uma simples pintura quando recepcionada por um olhar acolhedor e sincero. A tinta deixa ser tinta. Ganha vida. Envolve e convence. Emociona se o sujeito assim permitir. Envolvido, tocado pela história que o filme contém, pela fluidez da música ou pela penetrante visão diante da paisagem, a pessoa deixa de ser um expectador. Em regra, a emoção cria condições para que o coadjuvante vire protagonista. Isto porque, na arte, é a percepção do outro que valida a obra. Claro que a escultura não vista ainda é escultura. Não perde sua essência. Mas, ela só se completa diante do olhar atento e cúmplice do outro.
Diferentemente do que ocorre na arte, no caso da arte da vida humana não é olhar o outro, como se acredita neste momento histórico, que vai completar a obra. O julgamento do outro é detalhe. Significativo, às vezes. De somenos importância, na maioria dos casos. O olhar revelador, na verdade, é o do próprio indivíduo sobre si mesmo. E, esse olhar, em muitos casos é despido da naturalidade necessária para que o ser tenha uma ideia mais exata sobre o seu próprio caminho e sobre suas potencialidades.
Não faz muito, o que fugia ao padrão do aceitável era mantido escondido. Um ser que não fosse "normal" era afastado do olhar dos outros. Era uma vergonha para a família manter alguém que "não deu certo", que não preencheu os requisitos do padrão vigente. Uma limitação física qualquer era uma humilhação. Muitos viam nisso uma manifestação do criador. Uma ira da divindade. A família que recebia um ser “incompleto”, “defeituoso” carregava uma maldição, uma dor que não necessariamente precisava ser compartilhada. Havia algum demérito nisso. E o orgulho e a vaidade reinantes então não permitiam que a família validasse a existência do individuo.
Temia-se o julgamento. Temia-se o olhar do outro. Temia-se a reprovação.
É certo que em alguns locais, ainda desprovidos dos ventos que limpam as mentes e de alguma energia luminosa que torne a realidade mais clara, ainda impera o medo e  ignorância. Porém, nosso mundo caminha para a aceitação das diferenças. 
Chegará o dia em que o homem reconhecerá em si a própria obra de arte. Deixará de olhar para o outro com a sisudez do julgamento. Usará sua experiência para caminhar com mais segurança. Talvez demore algum tempo. Bem mais que anos. Bem mais que décadas. Talvez séculos. Chegará o dia. Isso é certo.

21/08/2019

Uma voz e um violão


Uma voz e um violão. Assim lembrava dela. Os cabelos eram cacheados. Longos. Jeito de menina. Moleca. “Olha a lua mansa se derramar (me leva amor)/ao luar descansa meu caminhar (amor)/meu olhar em festa se fez feliz (me leva amor)/lembrando a seresta que um dia eu fiz(por onde for quero ser seu par)”. Assim cantou uma noite numa das aulas de literatura. Andanças, de Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi e Edmundo Souto, imortalizada por Beth Carvalho, que conheci num desses tantos trabalhos de grupo que se apresentavam na sala de aula.
Fazia tempos que não a via. Mentira: na verdade, a enxergava com frequência, mas sempre nas redes sociais, o que, convenhamos, às vezes é quase o mesmo que não ver. Enfim, encontrei minha querida colega de faculdade. “Trinta anos então”, pensei. Ela nem só pensou como disse. Magda pediu um café coado. A água quente passando pelo pequeno saquinho de tecido caindo aos poucos na xícara desperta uma certa magia. O cheiro de um só café enche o ambiente pequeno e acolhedor. Eu pedi uma água mineral. Com gás. O máximo da magia que consegui foi o som do gás fugindo quando a tampa foi desenroscada. Pouca coisa.

16/08/2019

O Certo e o Errado


As expressões certo e errado carregam uma aura de objetividade raramente encontrada em outros termos. Pode-se dizer com quase certeza que todas as pessoas sabem exatamente o que é certo e o que é errado. Ou, pelo menos, acham que sabem. No dia a dia, o senso de julgamento leva as pessoas a definirem exaustivamente todas as situações para os escaninhos do certo e do errado. Acostumados estamos a analisar, a sentenciar, a decidir sobre as condutas humanas. Porém, olhando-se com atenção a paisagem que nos cerca e o andar da carroça, nota-se que entre saber o que é certo e o que é errado e fazer aquilo que convém vai uma distância abissal.
Como tudo na vida tem explicação, tenta-se, de algum modo, encontrar uma resposta para este enigma. O certo nasceu na língua latina como certus”, determinando aquilo que é seguro, determinado e garantido. Ou seja, não há muito espaço para variações. Como dirira o poeta “o certo é o certo”. O termo errado também tem como origem o latim. Vem de “erratus” e está relacionado a situações de falhas, imperfeições, desajustes, enganos e inadequações.

09/08/2019

O Fim dos Rituais


Quando sua moto vinha em direção à minha casa disparava um sinal. Os cachorros se assanhavam com chuva ou com sol. Corriam para a frente e latiam anunciando a chegada de notícias novinhas em folha. O jornal era arremessado apressadamente pelo entregador. Pegava o exemplar que, nos dias de chuva, vinha estrategicamente colocado dentro de um saquinho plástico. Depois, era tomar um café folhando o diário de trás para a frente. Primeiro o esporte e suas minúcias por vezes desinteressantes, depois as coisas mais sérias como a política, a economia, o caderno de cultura e a geral.
Era um ritual. Uma folheada no jornal e um gole de café. Uma passagem de olhos rapidamente para descobrir os temas mais importantes e outro gole. No fim, a xícara se esvaziava e o jornal ainda tinha conteúdo para ser consumido. Hora de renovar. Mais uma dose.

02/08/2019

Vencer o tempo: essa é a questão?


Do Suplemento Mundo das Ideias
Por Fabiano de Souza Marques*

Não há tempo mais para nada! No meu tempo era melhor! Corra! Você não pode perder tempo! Tempo é dinheiro! Perdemos a chance. Não dá mais tempo. O tempo urge, então corra! O que está ocorrendo com o tempo? Qual é a necessidade que temos de preencher o tempo? Por que falamos isso?
Vivemos num momento em que o tempo anda acelerado? Mas como assim, o tempo está acelerado? Estamos correndo mais do que nossos antepassados? E nossos filhos correrão mais e mais rápido para vencer o tempo? Podemos dizer que tempo escorre pelas nossas mãos? Percebemos as relações humanas cada vez mais efêmeras.
Na era primitiva a jornada humana se dava na relação com tempo ligado às questões de sobrevivência. Elas aconteciam por observação de elementos naturais como o Sol e as Estrelas, pela vivência em cavernas, pelas caçadas, pelas lutas entre as tribos, pelas conquistas de outros territórios entre outras situações.

25/07/2019

Breve olhar sobre o fanatismo

Ilustração: Bruno Reis
Por Jerri Almeida*

O fanatismo é um problema humano, potencializado pelo poder das narrativas, sejam elas de caráter religioso, ideológico ou político. Para o sociólogo francês Edgar Morin, há uma boa dose de loucura no homem. A loucura não conduziu a espécie humana à extinção. Contudo, quanta destruição de culturas, de sabedoria, de obras de arte! Em 2015, um vídeo produzido pelos militantes do Estado Islâmico chocou o mundo. Utilizando tratores e explosivos, destruíram na cidade de Palmira, Síria, o templo de Baal-Shamin, um patrimônio histórico da humanidade construído por volta do século II a. C, dedicado à divindade Baal, também chamado Beelshamên. Palmira, a cidade que foi parte do Império Romano até o ano de 273, era parada obrigatória para os comerciantes que faziam a famosa Rota da Seda que interligava o comércio entre Europa, Ásia e China.

21/07/2019

Envelhecimento Precoce


Escrevo uma crônica por semana para publicação no Jornal Bons Ventos. Nos dias de hoje, velozes como nunca, os assuntos são derrubados a cada minuto. O que era importante deixa de ser num já. Sempre tem algo novo no pedaço. No caso do Brasil, então, nem se fala. Mas, apesar disso, continuamos na luta, escrevendo vez por outra sobre o que vem a ser o assunto atual.

Envelhecimento – Faz alguns dias virou febre nas redes sociais um aplicativo que deixa a pessoa mais velha. Foi uma inundação. De um dia para o outro todo o mundo envelheceu. Alguns amigos meus ficaram irreconhecíveis. Outros até que mantiveram traços de um rosto conhecido. Foi divertido para alguns. Experiência traumatizante para outros que preferiram nem postar sua imagem jogando sua velha cara na lixeira. Pouco tempo depois matérias jornalísticas informavam que o aplicativo, na realidade, visava capturar os dados do internauta e enviá-los à Rússia para alguma operação que sabe-se lá a que se destina. Os velhinhos caíram no golpe. Mas, mesmo assim foi divertido.

11/07/2019

O Bicho Homem


O gênero humano é um bicho complexo. Muito mais complexo do que se imagina. Isto porque, em regra desconhece de onde vem e quais são os seus limites. Além disso, apresenta múltiplas funções, carrega talentos ocultos e milhões de possibilidades de desenvolvimento ao longo da sua caminhada. Ele pensa, fala, ouve, age, reage, interage, planeja, dissimula. Dá voltas sobre os outros e sobre si mesmo. Enfim, o humano não é nada previsível. Menos previsível e, portanto, mais autêntico, é o indivíduo quando não está sendo observado. Quando suas ações ocorrem em liberdade plena aí se revela o verdadeiro ser.