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20/06/2014

A culpa é da mãe

Vivi na vila durante muito tempo. Era pequeno. Fazia parte das famílias dos sem. Sem dinheiro, sem emprego decente, sem futuro. Lá era comum as vizinhas desafetas abrirem a boca e escancarar ao mundo as suas diferenças. O mulherio não economizava nos elogios. Vez por outra e o pau pegava. Entre puxões de cabelos, unhadas, gritos e pontapés as bocas liberavam os impropérios mais cabeludos que se conhece. Os casos de traições, de supostos assédios e de possíveis facilitações eram resolvidos sumariamente. Não chegavam até o Judiciário. As lides eram compostas da forma mais primitiva que se conhece, sem direito a recursos e protelações.
O palavrão existe. Não dá pra dizer que o palavrão não faz parte do dia a dia. Uma cortada no trânsito será seguido, invariavelmente, de um fdp. É um instinto natural. Uma coisa comum. Banal até. No futebol, a ofensa faz parte do espetáculo. Em muitos casos é deprimente. Mas é fato consumado. É consenso que chamar juiz de ladrão é lícito num campo de futebol. Isto é aceito até entre os homens mais sensatos e educados. Ninguém vai exigir provas concretas e nem dará direito de ampla defesa ao árbitro. Ocorre que, neste caso, ao chamá-lo de ladrão não está se dizendo que ele construiu um patrimônio a partir dos seus erros de arbitragem. Nem mesmo se insinua que ele, ao final da partida receberá um chumaço de dólares ou euros. Não. É um xingamento, um ato de descarrego. Certo? Errado? Cada um faz o seu julgamento e tire as conclusões cabíveis ao seu desenvolvimento intelectual e moral.