Vivi
na vila durante muito tempo. Era pequeno. Fazia parte das famílias
dos sem. Sem dinheiro, sem emprego decente, sem futuro. Lá era comum
as vizinhas desafetas abrirem a boca e escancarar ao mundo as suas
diferenças. O mulherio não economizava nos elogios. Vez por outra
e o pau pegava. Entre puxões de cabelos, unhadas, gritos e pontapés
as bocas liberavam os impropérios mais cabeludos que se conhece. Os
casos de traições, de supostos assédios e de possíveis
facilitações eram resolvidos sumariamente. Não chegavam até o
Judiciário. As lides eram compostas da forma mais primitiva que se
conhece, sem direito a recursos e protelações.
O
palavrão existe. Não dá pra dizer que o palavrão não faz parte
do dia a dia. Uma cortada no trânsito será seguido,
invariavelmente, de um fdp. É um instinto natural. Uma coisa comum.
Banal até. No futebol, a ofensa faz parte do espetáculo. Em muitos
casos é deprimente. Mas é fato consumado. É consenso que chamar
juiz de ladrão é lícito num campo de futebol. Isto é aceito até
entre os homens mais sensatos e educados. Ninguém vai exigir provas
concretas e nem dará direito de ampla defesa ao árbitro. Ocorre
que, neste caso, ao chamá-lo de ladrão não está se dizendo que
ele construiu um patrimônio a partir dos seus erros de arbitragem.
Nem mesmo se insinua que ele, ao final da partida receberá um
chumaço de dólares ou euros. Não. É um xingamento, um ato de
descarrego. Certo? Errado? Cada um faz o seu julgamento e tire as
conclusões cabíveis ao seu desenvolvimento intelectual e moral.
