23/03/2011

O silêncio oriental diante do caos

Um terremoto que destrói centenas de prédios, milhares de vidas consumidas, corpos resgatados dos entulhos. Um tsunami que inunda cidades, destruindo ruas, pontes, praças, engolindo gente. Pessoas procurando familiares que se perderam. Falta de luz, pane na comunicação. O deslocamento das placas tectônicas e a violência das águas causaram outros males. Atingiram usinas nucleares. Caos. Não é o apocalipse, o fim do mundo, o final dos tempos. Muitos  dramas num mesmo lugar. No Japão. Tão distante dos olhos, tão presente nestes tempos de instantaneidade da informação. A força incontida da natureza mostrando novamente as garras. Tem sido comum nos últimos tempos.

16/03/2011

Nos tempos da magrinhagem

Cascalho  - imagem:carosouvintes.com.br

Ser magrinho nos anos 70 era ter um estilo pessoal. Cabelos longos, em desalinho, camiseta, calça apertada na canela e jaqueta jeans. Havia, também, as calças com boca de sino, muitas delas alargadas com uma nesga com uma cor diferente. O magrinho era o jovem descolado, urbano. Era o cara que jogava uma mochila nas costas e ia para a praia ou para Santa Catarina de carona. 
Os termos magrinho, magrinhagem, ganharam força na voz do Cascalho, o Carlos Contursi, que comandava um dos programas jovens mais apreciados de então, na Continental AM 1120 - a Superquente-, o  Cascalho Time. Nas sociedades, Contursi promovia o Baile dos Magrinhos.

11/03/2011

Tristes manchetes

Esta sexta-feira é um dia de tristes manchetes. Fúria da natureza no Estado, terremoto, destruição, mortes, tsunami. A imprensa não tem tempo para respirar. Por aqui, a tarde foi corrida. Zum-zum-zum, notícias desencontradas, informações incompletas. Tumulto, correria. Pelas ruas da cidade um movimento incomum. No Hospital São Vicente de Paulo uma aglomeração jamais vista. São centenas de pessoas na frente querendo saber algo mais. Um jovem osoriense foi assassinado. 16 anos de idade. Comoção geral. O atleta de futuro partiu.

08/03/2011

Crônica para uma quarta de cinzas

Carnaval de salão - foto: patosonline

Palavras que denunciam

As escolas já passaram. Passistas, comissões de frente, alas das baianas e destaques são coisas do passado. Na avenida vazia alguns garis recolhem o que sobrou. Quem brincou, brincou; quem sambou, sambou. Agora é só esperar aquela inconfundível voz, em rede nacional, anunciando a “nota 10!”. Vibro com a nota 10, mesmo sem saber para que quesito, para que escola ela foi atribuída. Nesta busca pela perfeição, nota 9,5 é merreca, é fracasso, é derrota. O que vale mesmo é a vibração do “10!”.

01/03/2011

Scliar, o Carnaval e as mulheres

Scliar (arte sobre foto)

Moacyr Scliar é imortal. Não só pela cadeira na Academia Brasileira de Letras, que ocupava desde 2003, mas sim pela produção de 70 obras entre contos, novelas, ensaios e romances. São histórias vivenciadas por cada um dos seus milhares de leitores espalhados por todo o mundo. Os anseios, as lutas, os problemas dos seus personagens são as mesmas lutas, os mesmos anseios e os mesmos problemas dos homens e mulheres comuns que se identificam com suas obras.
Scliar bem que poderia ser pedante. Bem que poderia posar de estrela. Teria todo o direito de lançar em suas muitas colunas semanais na Zero Hora expressões difíceis, palavras rebuscadas. Porém, preferia sempre atingir o maior número de pessoas. Nestes tempos de culto à celebridade, onde muitos representam personagens, Scliar interpretava a si mesmo.  É o que dizem seus amigos mais próximos. É o que diz sua obra.

23/02/2011

A queda dos muros

Os muros, construídos com suor e sangue, com destruição de homens e mulheres, com perseguições políticas e religiosas, estão sendo destruídos, no mundo árabe.  A população oprimida por regimes de força reage sitiando os tiranos, encurralando seus comparsas de maneira surpreendente. Encastelados, protegidos por soldados hesitantes, os ditadores tentam se segurar na cadeira. Com a força de águas represadas, a população pressiona de tal forma que vai abrindo fendas, corroendo vagarosamente as estruturas do poder.

17/02/2011

As dores de Ronaldo

Fenômeno (arte sobre foto)
A comovente despedida de Ronaldo Nazário, apelidado apropriadamente de Fenômeno, deixou pelo menos meia dezena de questões a serem dissecadas. Uma delas é o limite do corpo. Ronaldo sentia dores, intensas dores, resultantes das intervenções cirúrgicas a que foi submetido para combater as lesões colecionadas ao longo da vitoriosa carreira. 
Dono de uma arrancada inconfundível, Ronaldo jamais pediu licença para defensores. As tevês cansaram de mostrar, nesta semana, o atleta na sua melhor forma bufando, partindo para cima da zagueirada adversária, jogando a bola na frente e atropelando aqueles que encontravam-se na sua frente. Imagens de um passado brilhante. Juntando força e sutileza na medida certa, vencidos os zagueiros, bastava uma ginga para derrubar o goleiro e empurrar mansamente a bola para as redes.

10/02/2011

Os heróis e os super-heróis

Capa da primeira revista
do Super-Homem (1938)
O Bruno tem nove anos. É o meu filho mais novo. Dia desses, num final de tarde, envolvido em suas fantasias, enquanto caminhávamos entre as praias de Atlântida Sul e Mariápolis, lançou uma questão curiosa: caso fosse possível, qual o super-poder que gostaríamos de ter? Perguntinha danada esta! Vai daqui, vai dali e nem eu nem minha esposa Marta conseguimos chegar a uma resposta objetiva.
Acredito que o primeiro entrave que aparece é a dificuldade dos adultos perceberem o mundo como os pequenos. O componente da magia, do surpreendente, do extraordinário, que compõem as histórias dos heróis, ficou para trás suplantado por preocupações como a administração do tempo, das relações familiares, carreira profissional, contas a pagar etc. Enquanto as crianças ainda vivem no meio da fantasia, entre nós, adultos, predomina a realidade. Assim, o tempo dos heróis vai se distanciando cada vez mais, permanecendo, quando muito, restrito a um cantinho da memória.