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23/07/2014

Os índios

Reprodução da pintura 
de Maximilian Philip – séc. XIX
No final da Rua Costa Gama havia o Barcelar. Era um armazém no estilo antigo. Tinha de tudo um pouco. Querosene Jacaré, farinha, arroz, feijão, uma mesa de mini snooker e uma tevê no alto. Acho que aquela foi a primeira tevê que assisti. Era final dos anos 60 ou começo dos anos 70, não lembro bem. No ringue dois lutadores fantasiados se agarravam de maneira intrigante no meio de rabiscos e chuviscos em branco e preto. Davam golpes improváveis. Um era do bem, outro do mal. Os homens, enquanto bebericavam uma mistura de cachaça com bíter ou coisa que o valha, denunciavam aos berros a deslealdade do maldoso mascarado. Era lutinha de mentira. Uma encenação. Mas, havia quem levasse tudo aquilo a sério. Do alto dos meus nove ou dez anos não acreditava naquilo tudo. O melhor era o intervalo comercial: “Seu Cabral ia navegando/quando alguém logo foi gritando: Terra à vista/Foi descoberto o Brasil/A turma gritava: bem vindo seu Cabral...”