16/11/2011

Sonhos frustrados

Meninos jogando futebol - Alfredo Volpi
Talvez não contasse ainda com uma dezena de anos. Não tinha ido a nenhum jogo de futebol, a nenhum estádio lotado. Na realidade, meu contato com o esporte se dava pelas ondas do rádio. Tevê era coisa de outro mundo para nós. Um objeto raro na vizinhança. Os poucos aparelhos existentes transmitiam uma imagem pródiga em interferências, com sombras, fantasmas, ruído, chiado, pouca, muito pouca, visibilidade. Em alguns momentos era necessário adivinhar o que se passava na ampla tela, em preto e branco.
A gurizada corria para lá e para cá, atrás de uma bola, subindo em cinamomos para colher os frutinhos que, depois, seriam arremessados de bodoque. Os furtos de goiabas, bergamotas e laranjas, muitas vezes ainda verdes, eram tolerados e até incentivados pela vizinhança que não via mal qualquer naqueles pequenos seres. O tempo corria numa preguiça só. Os dias de Primavera e Verão, então, eram longos. Cansávamos de tanto brincar. Não havia preocupação com violência. Droga não havia por ali. Talvez um ou outro pai na vila abusasse da cachaça, do conhaque, do bíter. Porém, bebida alcoólica não era droga. Ou, pelo menos, naquele tempo ninguém dizia isso. A violência que casualmente nascia do consumo excessivo de álcool ficava circunscrita ao âmbito familiar. O sofrimento era velado, sem escândalo, sem grandes comentários.

09/11/2011

O súbito desaparecimento

Vultos estranhos em suas
danças surrealistas

Sem que notasse, ele sumiu. Procurei daqui, procurei dali e nada. Puxei pela memória, refiz os trajetos, nada. Coloquei a família toda a procurar. Minha sogra fez promessas para São Longuinho, para São João e para todos os santos possíveis e nenhum sinal. Diante da negativa dos poderosos, novamente coloquei a família toda a procurar. Aos pequenos cheguei a prometer um incentivo, um prêmio, um agrado que pudesse aumentar a produtividade, aumentando assim o interesse na tarefa.  Que, nada! As investidas foram infrutíferas, um verdadeiro fracasso. 
Como tudo na vida serve para desencadear e aguçar a nossa percepção e o nosso conhecimento, cheguei a pensar na existência de alguma Lei da Física que relatasse o desaparecimento súbito de objetos. A mais pura bobagem é claro! Nem no Google nem em qualquer enciclopédia encontraria tal tratado científico.
O certo é que, de uma hora para outra, me tornei um órfão da minha visão. Os óculos sumiram, deixando-me com cara de Mr. Magoo. Sorte que contava com providenciais lentes de contato que usava muito pouco. Sempre na esperança de encontrar o danado dos óculos, segui usando, com certo desconforto, as lentes até o final de semana.

03/11/2011

O canto dos pássaros

Dia desses uma colunista de destaque na mídia regional, escritora conceituada e guru das mulheres de todas as tribos, ousou nadar contra a correnteza e desconstituiu uma das clássicas imagens de beleza que a natureza nos oferece. Disse que estava cansada do assédio dos pássaros que diariamente, às 06 da manhã em ponto, insistentemente protagonizavam um barulho ensurdecedor em árvore próxima à sua janela.
Nas redes sociais levou centenas ou milhares de chineladas. Gente que, democraticamente, criticou o ímpeto da articulista. Alguns mais exaltados chegaram mesmo a qualificá-la de insensível, problemática e outras coisas ainda mais pesadas. Sem contar com uma procuração fiz a sua defesa (como se ela precisasse disso). Na oportunidade lembrei que os cronistas, em regra, estão comprometidos com a sua verdade, expressando suas ideias sem censura. Fiéis às suas convicções, mesmo que momentâneas, vez por outra não agradam aqui e acolá. Além disso, o cronista não está escondido. No alto da página encontra-se seu nome e, muitas vezes, seu endereço eletrônico.

25/10/2011

Sorria, sorria


Não sei ao certo de onde vem esta estratégia atual do mundo da propaganda e do marketing de utilizar trilhas sonoras consideradas por muitos como prá lá de brega.  O Bombril, lá em 2007, apresentava o Nélson Ned cantando “que tudo passa, tudo passará”, um sucesso do início dos anos 70. Bem recentemente, em publicidade da Bradesco Seguros, o cantor Byafra apareceu com seu Sonho de Ícaro espantando um ladrão de carro.
Os publicitários não têm sossego. Correm sempre contra o tempo na busca da imagem perfeita, do texto e da canção que embalará os intervalos comerciais dos ávidos consumidores. Agora mesmo, direto do túnel do tempo, como diria aquela apresentadora, o velho Evaldo Braga ganhou vida novamente. Enquanto homens choram ao ver o lançamento da Renault passar, uma versão roqueira embala o choro dos rapazes com a inconfundível música: “Sorria, meu bem/ sorria/ da infelicidade que você procurou”.

20/10/2011

Conto da escolinha

Tinha algo em torno de cinco anos de idade. Diariamente era acometido de crises de choro. Minha mãe, atenta ao sofrimento infantil, levou-me até a professora da escolinha. Disse que já não aguentava mais ter em casa aquele menino chorão, que não se consolava com a explicação de que ainda não havia atingido idade para frequentar as aulas.
A professora, de maneira diplomática, informou que não poderia ser admitido como aluno regular. Porém, poderia frequentar as aulas livremente, sem matrícula. “Ele pode ficar encostado”, afirmou, alertando que minha mãe não forçasse minha ida à escola. “Com o tempo ele vai enjoar e desistir!”, decretou. Talvez não acreditasse na sua capacidade de sedução ou, ainda, desconfiasse que o menino chorão apenas fizesse uma manha passageira.
Ir à escola foi, talvez, a maior alegria que tive na infância. Os primeiros dias então foram inesquecíveis. Meu pai trazia do seu trabalho grandes folhas duras, branquinhas. Ali rabisquei desenhos que eram coloridos com os poucos lápis que dispunha. Certa vez notei a cara de espanto de minha professora diante de um conjunto de rabiscos com tons avermelhados e azuis. Talvez tivesse algum conhecimento de psicologia ou algo assim. Concluiu que o excesso de vermelho talvez não fosse positivo. Acredito que sua análise possa ter influenciado no meu afastamento da preferência clubística de meu pai e irmão mais velho.

13/10/2011

A questão da identidade

Recentemente lancei-me na empreitada de digitalizar o acervo da Revista O Planador, criada pelo José Vilmar, o May. O periódico circulou em Osório e região entre 1975 e 1977. O professor Benito Isolan, diligente mestre, sempre atento na manutenção da memória local, emprestou a sua coleção. Pacientemente tenho "escaneado" as páginas e postado num blog (http://revistaplanador. blogspot.com) que criei para recepcionar este material.
Folheando prazerosamente a revista do May, nota-se uma mudança brusca no Município. O Município dispunha de uma extensão territorial excepcional e uma variedade econômica de fazer inveja a todos os outros. A economia local era impulsionada na temporada de veraneio quando milhares de gaúchos tomavam de assalto a nossa praia de Capão da Canoa. A produção agrícola baseava-se muito nos distritos de Palmares dos Sul, Capivari, Maquiné e Terra de Areia.

10/10/2011

Trabalho e dignidade

Trabalho escravo (ilustração Debret)
Nos primórdios da civilização o trabalho era um castigo, uma pena. No mito Adão e Eva a pena para a transgressão foi a expulsão do paraíso e a necessidade de suar o rosto para o atendimento das necessidades. Entre gregos e romanos, o trabalho era uma tarefa para os seres de classes inferiores. Os cidadãos se dedicavam à política, à defesa do Estado, à administração pública e ao clero. Para Platão, o estado ideal seria composto por três classes: filósofos, guerreiros e produtores. Os trabalhos manuais seriam executados só pelos escravos.
Lembremo-nos de que aqui mesmo, nestas paragens, há pouco mais de 120 anos atrás, indivíduos vindos da África eram vendidos como mercadorias. Arrancados de suas famílias, aprisionados em um navio, perdiam a identidade e, muitas vezes, a vida antes de chegar ao Brasil para cultivar café e algodão.
A concepção que se tem hoje do trabalho, segundo se diz, vem do protestantismo. João Calvino pregava que “privar um homem de seu trabalho é pecar contra Deus, pois o trabalho é dom de Deus”. Hoje sabemos que o trabalho possui um viés pedagógico. Nas relações de trabalho o homem se relaciona com seus pares, interfere nas relações e se modifica. Aprende a conviver com a cobrança de patrões (nem todos bons e justos), com um salário (nem sempre digno e relevante), com as angústias de uma carreira (nem sempre bem sucedida).
Enganam-se aqueles que acreditam que o nosso trabalho diário se resume ao esforço remunerado. Todo o esforço feito pelo homem é uma forma de trabalho. Trabalhamos quando lemos uma revista, quando assistimos um programa de televisão, quando cumprimentamos alguém, quando estamos absortos com nossos pensamentos.
Mesmo quando nosso corpo parece desligado das atividades corriqueiras, durante o sono, nosso cérebro está trabalhando, mantendo o funcionamento do corpo, e nossa alma pode viajar pelos confins do universo, revendo o passado, espiando o futuro ou, ainda, resolvendo nossos traumas e nossas preocupações.
E, nesses tempos atuais, preocupação é o que não nos falta. Além dos dilemas normais, o homem de hoje é capaz de criar outras preocupações, outras necessidades para se enquadrar na sua era. E, convenhamos, muitas das necessidades que criamos são coisas absolutamente dispensáveis. E, no entanto, nos tomam quase todo o nosso tempo e dão um trabalho!

07/10/2011

Os dois Brasis

Charge retirada do blog
Jornalismo 24 horas 
O professor Airton Figueiredo certa vez propôs a leitura de uma obra chamada Dois Brasis. Lá se vão duas ou três décadas. Não lembro maiores detalhes do texto, porém, foi ali que tomei conhecimento da existência de duas realidades distintas num mesmo espaço territorial.
De certa forma, esta é a minha percepção nestes momentos em que a autoestima nacional está sendo embalada pelo sucesso das políticas econômicas, implantadas por Fernando Henrique Cardoso e seguida por Lula e Dilma, com suaves e quase imperceptíveis alterações. A satisfação pelo novo momento histórico tem justificativa. Vivíamos em um país com processo inflacionário insuportável. Os produtos mudavam de preço a toda hora. Os trabalhadores perdiam parte de seus salários minuto a minuto, sem uma recomposição justa . O panorama era de desolação, de desesperança, até de vergonha.