22/10/2013

Nada mais do que palavras

Há certas obviedades que escapam à percepção. De tão claras, tornam-se invisíveis aos olhos mais desatentos. De tão frequentes, corriqueiras, usuais, parecem sofrer uma estranha mutação. Fingem-se de invisíveis. Quietinhas permanecem escondidas por um fino tecido, quase transparente. Estão ali, mas não são vistas.
A importância da palavra talvez seja uma destas obviedades. Logo ela, a palavra, que nos cerca diariamente. Exagerando, poderíamos dizer que as palavras movem o mundo. São ditas, escritas, cantadas, recitadas e lidas. As palavras estão em todos os lugares. Para elas não há vácuo. As palavras estão ali, espreitando. Ficam em repouso, aguardando o momento para atuar.

16/10/2013

Uma página em branco

Uma página em branco é um desafio. É um desafio para o desenhista que olha aquela imensidão e lança traços imaginários, construindo figuras aos poucos. Sombreando aqui e iluminando ali, o branco vai sumindo. Paisagens, rostos, objetos vão povoando aquele espaço antes tão límpido, tão estéril. Porém, neste processo de criação, nem sempre as porções de tinta lançadas no papel satisfazem os olhos exigentes do autor. Algumas folhas, reprovadas pelo controle de qualidade do ilustrador, morrem amassadas ao lado da mesa.
Uma folha em branco é um desafio para o acadêmico que encara, enfim, o seu trabalho de conclusão. Às vezes, aquela estrutura pálida e frágil agride o olhar cansado do estudante. O período é de nervosismo. Alguns colegas, no entanto, mais falam é da formatura, da festa, do formato do convite e do buffet. Outros brigam obstinadamente para definir quem será o orador, o juramentista, o paraninfo e o professor homenageado. Uns brigam por tudo. Encrencam com o formato das fotos, com a contratação da empresa que fará a filmagem e a decoração. Porém, é certo que nas madrugadas uns que outros despertam depois de um torturante pesadelo. Acordam apavorados depois de perderem a voz diante da cruel banca examinadora.

09/10/2013

Os ditados populares

Água mole em pedra dura...
Não se sabe ao certo quando nem onde surgem os ditados populares. O que se sabe é que mais dia menos dia alguém vai lançar mão de algum conhecimento que vem sendo repetido desde “os tempos do epa”. É comum pensar nesses chavões como  fórmulas repetidas à exaustão, muitas vezes de gosto duvidoso, que se destinam tão somente para ilustrar os bate-papos das pessoas humildes, desprovidas de vocabulário, de traquejo no trato da língua. No entanto, cá entre nós, apesar de singelas, há algumas destas expressões que são impagáveis. Mesmo que o indivíduo cultive todos os cuidados para evitar que seu discurso não pareça assim tão simples, tão desprovido de requinte, vez por outra os ditados populares escapam da memória coletiva e se intrometem como algo definitivo, insuperável e inevitável.
Agora mesmo, diante das repetidas manchetes do empobrecimento do maior empresário brasileiro dos últimos tempos, não há como não lembrar dos nossos irmãos portugueses que, diante de uma situação semelhante repetem que  “quanto mais alta a berlinda, maior é o trambolhão”, ou, traduzindo para o Português do Brasil, “quanto mais alto fores, maior o tombo”.

01/10/2013

A mania das frases

 Uma mania das mais comuns nos dias de hoje está na difusão de frases e pensamentos nas redes sociais. A garotada e os marmanjos de toda ordem adoram abrir o dia com uma daquelas sentenças que diz tudo ou quase tudo. A escolha, por certo, é motivada pelo estado de espírito do pessoal. Se o momento é de felicidade, dê-lhe frases de exaltação à vida. Se, por outro lado, os dias são mais sombrios, as sentenças caminham neste sentido. Já se a rodada da semana não foi muito feliz para o time, recuo estratégico. Leve sumiço. Culpa da conexão que é lenta. Se o time voltar a vencer... Bem aí o sinal recupera sua força e os sumidos voltam a viver e a gozar da alegria momentânea e das ilusões que o esporte bretão reserva a cada um dos apreciadores.

25/09/2013

Olhares diversos

Num desses papos despretensiosos, onde o que mais se quer é filosofar, disse em alto e bom som que não há órgão de imprensa imparcial. Todos estão comprometidos. Antes que pudesse seguir na linha de raciocínio que vinha sendo traçada, outro se deu por ofendido e, tal qual um suicida que se lança na frente da locomotiva, avocou a si e à empresa que representa a total democracia e transparência. O sujeito cresceu na minha frente. Suas veias do pescoço subitamente inflaram. Suas narinas se alargaram como que buscando mais oxigênio no amplo ambiente em que nos encontrávamos. Parecia um herói de historia em quadrinhos em plena transformação.
Cheguei a pensar que ele sofreria algum distúrbio sério tal a transformação que experimentara em questão de segundos.

18/09/2013

A pequena história


A história da humanidade é contada a partir dos grandes acontecimentos. Invenções, descobertas, celebrações, pactos e acordos. Sempre haverá a atuação de um grande homem ou, para ser politicamente correto – de uma grande mulher-, por trás de algum acontecimento significativo. 
Na verdade, é uma imposição da história oficial a presença de personalidade que vai representar o papel de protagonista. Alguém precisa levar o crédito. Alguém tem que ser o responsável pelos fatos. Com o tempo, os historiadores vão personalizando os acontecimentos de tal forma que restam tão somente alguns nomes. São ícones, verbetes. São sínteses de fatos complexos que foram resumidos à exaustão.

11/09/2013

O mal que entra na boca do homem

Doce é bom. Bom é pouco, é muito bom. Ambrosia é o preferido pelos deuses. Seu sabor inigualável, associado ao néctar, confere às divindades nada mais do que a imortalidade.  E isso não é pouca coisa.
Rapadura e pé-de-moleque são imbatíveis entre a gurizada. Nos aniversários de crianças nada bate o brigadeiro, por aqui chamado singelamente de negrinho. Tantos outros sabores poderiam ser lembrados como os simplórios sagu e a torta de bolacha, que aparecem tanto na mesa trivial ou naquela que guarda certo requinte; a abóbora, desde que apresente uma casca durinha porque molenga ninguém atura; as musses de toda a ordem (de chocolate, de limão ou de maracujá). Tudo muito bom.

03/09/2013

As provas

Não sei ao certo quem foi. No entanto, a inovação apresentada pelo professor naquela prova mudou drasticamente a forma como deveríamos estudar. Até então, a cobrança se baseava somente na decoreba. Ou seja, tínhamos que decorar frases inteiras para responder corretamente às questões que se apresentavam naqueles momentos fatídicos que se transformavam o dia da sabatina. 
O sistema da  múltipla escolha, onde o professor, após o enunciado, enumerava cinco possibilidades de resposta, era um achado e tanto. Era uma ajuda para aqueles moleques extremamente atarefados com suas atividades futebolísticas e que não dispunham de muito tempo para os estudos.