20/11/2014

As doces ameixas

Tarde da noite, sentado à frente do computador, uma pequena palpitação no coração aparece. Coisa muito sutil. Uma leve fisgada. Vou morrer, pensei logo em seguida. Esperei alguns segundos, alguns minutos e nada. Continuei escrevendo mais uma crônica, achando graça de minha conclusão apressada. Ora, como poderia meu coração contrariar o laudo do meu cardiologista?
Certo que um dia morrerei. Disto não restam dúvidas. Aliás, esta é a única certeza que nós, os humanos, podemos carregar na vida. O nosso fim ocorrerá. E, fazendo leve exercício antecipatório, posso até ver que, enquanto o corpo frio espera a hora do desaparecimento por completo, familiares, amigos, conhecidos e curiosos se aproximarão do caixão com indisfarçável compaixão. E alguns olharão com pressa e outros com reverente atenção minha imobilidade e analisarão minha brancura e notarão o quão envelhecido estou.

13/11/2014

Ódio: tô fora!

De uns tempos para cá, especialmente nas redes sociais, vêm crescendo de maneira muito significativa as manifestações de ódio. Como diria aquele velho pensador, nunca antes na história deste país uma eleição deu tanto pano para manga. As manifestações que se sucederam, muitas delas de pacatos e cordatos cidadãos, gente boa, educada, de boa família, fariam corar até a mais gélida estátua da figura mais desavergonhado que possa existir.
Não vou dizer que não assista alguma razão aos guerreiros. Não podemos e não devemos desconsiderar a gritaria toda. Porém (sempre há um porém), convenhamos que o foco das manifestações estava no lugar errado. Os mais espertos todos se colocaram de um lado e, por conseguinte, lançaram para o outro lado todos os retardados, ignorantes, insensíveis, irresponsáveis etc etc etc.

05/11/2014

Olhos verdes

A turma não era fechada. Havia um núcleo de três ou quatro fiéis escudeiros. Somavam-se mais quatro ou cinco preferenciais. A partir daí havia liberdade de buscar novos horizontes nas redondezas. Muitos destes contatos não aderiam à turma. Mas faziam, isso sim, parte da vida de alguns deles.
Não precisa dizer que eram adolescentes. Viviam na pequena cidade. O mundo era a rua. As garotas eram, em regra, as irmãs dos membros do grupo. Bem, na verdade, não eram suas garotas. Muitas delas eram sim o que queriam como suas garotas. Porém, não avançavam muito neste terreno.
Vez por outra apareciam, de surpresa, algumas pessoas que não faziam parte do grupinho, mas, por uma ou outra identificação, acabavam participando de algumas das ações.

28/10/2014

Eu queria ser Peter Frampton

Com 10 ou 11 anos queria ser jogador de futebol. Sonhava até em vestir a camiseta da Seleção Brasileira. Disputar uma Copa do Mundo estava nos planos. Era um menino sonhador como são todos os meninos. Rivellino, com sua patada certeira e seu bigodão, cabelos longos e uma canhota de derrubar os adversários, saia dos jogos em preto e branco da Copa da Alemanha para os campinhos de pouca grama e muita areia. Todos queriam ser Rivelino, mesmo que a interpretação fosse pífia. No meu caso, faltava intimidade com o pé esquerdo e a penugem que ameaçava aparecer ainda não poderia ser chamada de bigode.
Havia outros quase tão bons quanto ele: Beckembauer, Müller, Cruyff e Neeskens. Mas eu, quando perdia a alcunha de Rivellino, optava sempre por Lato, um polonês, com poucos cabelos, mas dono de pernas ágeis e velozes e, além disso, de raro faro de gol. Em síntese, o atacante tinha tudo o quanto me faltava nas lides futebolísticas.

27/10/2014

A vida comunitária

E durante toda a noite, os casais rodopiarão
pelo salão apinhado 
Na pequena vila a vida é comunitária. As dores de uns são as dores de outros. Os prazeres de uns são os prazeres de outros. Os sonhos e os pesadelos de uns são sonhos e pesadelos dos outros. Porém, os pecados são casos particulares.
Quando raramente alguém morre por ali, a vila toda se compadece. E todos choram ao redor do caixão e abraçam os familiares com verdadeiro pesar. Lembram passagens de glória do morto e dos tempos em que era um indivíduo cheio de virtudes. Alguns lançam aos céus sua inconformidade. Questionam Deus que o levou. E há os ajudam nas lides dos atos fúnebres. Alguns se encarregam de avisar os parentes que moram mais longe. As tias mais velhas invadem a cozinha. Fazem café forte para enfrentar a noite. Algumas trazem biscoitos feitos no dia anterior. E sempre haverá alguém que fornecerá mel, salame e queijo colonial. Os donos de casa perdem a direção do lar. Devem se ocupar tão somente de viver a tristeza da perda. É para isto que estão ali. E todos vão contribuir para que isto aconteça.

16/10/2014

Cheiro de pastel

Seguia pela avenida principal da cidade. Era o ponto de maior movimento. Uma ambulância havia passado pertinho dele. Sentiu mesmo no rosto o vento que fez. O som da sirene ainda reverberava na sua cabeça. As luzes do semáforo na frente se misturavam com todas as outras cores. Galhos de árvores, anúncios luminosos, letreiros anunciando promoções. Vozes se juntavam num zumzumzum incompreensível. Três por dez, três por dez. Calcinhas, calcinhas. Olha a mega, tenho os números premiados. Só 12 pilas. Fotos para documentos, fotos para documentos em um minuto.
Um cheiro forte de fritura saia da pequena lancheria. Era de pastel. Pastel de carne moída. Podia sentir o cheiro rançoso do azeite insistentemente aproveitado. Um aroma de café vinha do mesmo lugar.

09/10/2014

O Estado Febril

Dominado por uma febre, tentava dormir. Mas, algumas ideias esparsas tomavam conta de sua mente. Sem esforço, fatos contínuos foram sendo rememorados como se uma grande novela estivesse sendo encenada naquela hora. Sem forças para reagir, deixou-se entrar naquele louco teatro. Não sabia de onde vinham aquelas histórias que se uniam sem sentido. Talvez fossem coisas que lembrava, que inventava ou memórias de outras experiências que sem explicação surgiam como que magicamente.


A ilha
Era um navegador. Talvez fosse implacável. Achava que era poderoso. E exercia o pretenso poder. Não fosse isso e não teria sido abandonado na ilha. Apesar de ser o comandante, não ficava somente dando ordens. Tomava a frente em tudo. Achava que aquilo era correto. Mas, não aceitava erros. Não perdoava os que erravam.

02/10/2014

A viagem

Quando nos damos conta,
 nossa memória está quase apagada.
Vai restando muito pouco.
O cronista, às vezes, parece viver fora deste mundo. Isto não é coisa nova. É uma tendência antiga. Porém, nestes dias tão marcados pelo excesso de informações, talvez soe mais estranho, ainda, esta determinação dos cronistas de permanecerem ao redor de seus sonhos, de suas constatações filosóficas e de seus delírios. E, mesmo enquanto muitos rangem os dentes e se agridem e se matam e transformam a vida no planeta num aparente caos, resistem o que podem, optando por temas que não estão na pauta dos telejornais.
O mundo pega fogo. Guerras, denúncias de corrupção, disputas pelo poder, permanentes bombardeios reais e virtuais. E o cronista ali, quieto no seu mundo, falando de coisas de sua infância, da cena que viu na padaria da esquina, do gosto do café que tomou no barzinho ou em suas significativas conquistas que, aos olhos dos outros, não passam de prosaicas histórias do dia a dia. Coisinha leve que, no fundo, não têm o poder de mudar o rumo da humanidade.