Tarde da
noite, sentado à frente do computador, uma pequena palpitação no
coração aparece. Coisa muito sutil. Uma leve fisgada. Vou morrer,
pensei logo em seguida. Esperei alguns segundos, alguns minutos e
nada. Continuei escrevendo mais uma crônica, achando graça de minha
conclusão apressada. Ora, como poderia meu coração contrariar o
laudo do meu cardiologista?
Certo
que um dia morrerei. Disto não restam dúvidas. Aliás, esta é a
única certeza que nós, os humanos, podemos carregar na vida. O
nosso fim ocorrerá. E, fazendo leve exercício antecipatório,
posso até ver que, enquanto o corpo frio espera a hora do
desaparecimento por completo, familiares, amigos, conhecidos e
curiosos se aproximarão do caixão com indisfarçável compaixão. E
alguns olharão com pressa e outros com reverente atenção minha
imobilidade e analisarão minha brancura e notarão o quão
envelhecido estou.






