Se a
noite está bela, se lua e estrelas iluminam o céu por aquelas
bandas uma certeza se tem: ninguém corre perigo. A tranquilidade não
será alterada. Os cães podem dormir tranquilos como dormem seus
donos. As ferramentas podem descansar nos galpões, depois de um dia
de muito trabalho. Os carrinhos de mão podem ficar abandonados no
quintal. Enxadas, pás e picaretas nem precisam ser guardadas.Tudo
ficará relaxando no seu devido lugar. As galinhas no poleiro, os
porcos no chiqueiro, as cabras no potreiro. Se a noite está bela,
tudo ficará onde deve. Não há certeza maior: amanhã tudo estará
no mesmo lugar.19/08/2014
Raios e trovões
Se a
noite está bela, se lua e estrelas iluminam o céu por aquelas
bandas uma certeza se tem: ninguém corre perigo. A tranquilidade não
será alterada. Os cães podem dormir tranquilos como dormem seus
donos. As ferramentas podem descansar nos galpões, depois de um dia
de muito trabalho. Os carrinhos de mão podem ficar abandonados no
quintal. Enxadas, pás e picaretas nem precisam ser guardadas.Tudo
ficará relaxando no seu devido lugar. As galinhas no poleiro, os
porcos no chiqueiro, as cabras no potreiro. Se a noite está bela,
tudo ficará onde deve. Não há certeza maior: amanhã tudo estará
no mesmo lugar.12/08/2014
O tênis branco
Estudava
no segundo grau, à noite. Na década de 70, era assim que se chamava
o ensino médio. Era o mais novo da turma. Tinha uns 14 anos de
idade. Minha turma era de pessoas mais velhas. Gente que havia
deixado de estudar e, agora, encarava novamente os bancos escolares.
Queridos colegas. Compenetrados, sérios. Eu era um moleque. Sério,
compenetrado mas, ainda assim, um moleque. Havia colegas com
incríveis 40 ou 50 anos. Gente calejada, experiente, com bons
empregos e família constituída.
Para
variar minha situação não era das melhores. Trabalhava durante o
dia num subemprego. Ganhava uma fortuna ao redor de meio salário
mínimo. Não precisa dizer que vivia invariavelmente pelado. A
impressão que tinha era que os bolsos da minha única calça jeans
serviam tão somente para esquentar as mãos. A dinheirama que
ganhava servia para a compra de uma blusa cacharel azul, uma camiseta
ou um par de tênis ou sapatos dos mais simples, em três ou quatro
vezes no crediário das Casas Luiz. Um produto a cada mês, é óbvio.
Num mês, camiseta; noutro calça; no seguinte, um tênis e assim por
diante. Ao final do ciclo, os primeiros itens já estavam surrados,
entrando novamente na lista da reposição.
06/08/2014
A pontaria
Naqueles
tempos em que a nossa infantilidade imperava, investíamos algumas
energias em atividades lúdicas. E, verdadeiramente, não tínhamos
preocupações ecológicas. Ninguém tinha, naquela época. Minto, o
José Lutzenberger tinha. Mas, ele era considerado louco. Um maluco
que pregava o apocalipse. Era um visionário que enxergava perigos na
derrubada de árvores, no lançamento de dejetos nos rios, nos lagos
e no mar. Era um homem estranho que aparecia na capa dos jornais
defendendo coisas que não falavam, que não se expressavam. Dava
valor aquilo que ninguém notava. Convenhamos, isso era uma coisa
muito estranha naqueles tempos em que o que mais havia era árvores e
água limpa. No nosso meio, ao menos, ninguém entendia muito bem o
que ele queria, afinal.
A
gurizada, por sua vez, longe das polêmicas, gostava mesmo era de
caçar passarinhos. E o instrumento usado era a funda ou o bodoque,
como também é conhecido. Durante a tarde juntávamos a munição,
pedrinhas redondas, e saíamos para o mato. A vontade era trazer
farta caça. Não se fazia barulho. Pé ante pé nos deslocávamos
procurando por uma presa. As pombas rolas eram as preferidas.
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José Lutzenberger,
passarinhos,
traquinagem
25/07/2014
Outros tempos
![]() |
| Título "Puxando Lata III", de Ivan Cruz |
Nos
tempos de infância, a lata antiga do Leite Ninho me causava certo
fascínio. Aquele desenho dos pássaros confortavelmente instalados
dentro de um ninho, sendo alimentados pela mãe, aos meus olhos era
algo de um beleza poética indescritível. Hoje sei que tudo não
passava de um mero logotipo, uma marca que identificava uma empresa.
Mas, na minha visão de então, era bem mais que isso. Achava aquilo
tudo muito mágico.
Gostava
tanto que, de vez em quando, assaltava a latinha amarela. Obviamente
de modo furtivo, longe e acoberto das vistas de minha mãe, é claro.
Sorrateiramente, temendo ser pego em flagrante, surrupiava a lata,
abria sua tampa evitando qualquer barulho e, finalmente, do seu
interior emergia uma colher cheia de leite em pó que era solenemente
levada à boca. Os farelinhos grudavam no céu da boca. E o sabor
lentamente ia se espalhando.
23/07/2014
Os índios
![]() |
Reprodução da pintura
de Maximilian Philip – séc. XIX
|
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Costa Gama,
DKW,
Vila das Pererecas
09/07/2014
A pescaria
O fedor
de podre era muito forte na vila. Nos dias de vento, então, era
quase insuportável. Chegava a arder o nariz. Vinha do matadouro. Era
assim que o pessoal chamava o frigorífico, que abastecia a cidade
com carne bovina. Os moradores da vila, famílias pobres com muitas
bocas a alimentar, ali o que mais adquiriam era alguma carne de
segunda com muita gordura, coalheiras, tripas, fígados e rins.
Diziam que o cheiro vinha do sangue e dos restos dos animais mortos.
Atrás
do fétido matadouro, no entanto, havia um vasto mundo inexplorado.
Os olhos da molecada brilhavam pensando em conquistar aquele
território. Um belo campo com açudes de águas cristalinas. Diziam
que ali havia peixes graúdos às toneladas.
E foi
para este lugar que saímos. Eu o Sérgio, meu irmão, nos aventuramos numa
pescaria de final de tarde de primavera. Ao passar pela cerca que
separava os dois mundos, fomos alertados por um funcionário do
matadouro: muito cuidado com os bois brabos que estão no fundo da
área! Ficamos apreensivos, mas não havia como abortar a missão.
Os caniços estavam prontos e as minhocas aguardavam numa velha lata
de leite ninho, previdentemente cobertas por um punhado de areia
úmida.
O banquete
Lá
vou eu de novo contar histórias do século passado. Mais
precisamente dos anos 70. Não sei precisar o ano. Mas, acho que era
1974. Tinha onze anos de idade. Estudava numa escola particular da
cidade, o Colégio Conceição. Vindo de uma família muito pobre,
não tinha dinheiro para a mensalidade. Na realidade, nem para o
material obrigatório tinha. Foi graças a uma bolsa de estudos
concedida pelo Deputado Romildo Bolzan que acabei por ali. Não havia
como negar que era um intruso naquele ninho. Com exceção de dois ou
três bolsistas, todos os demais colegas faziam parte das mais
tradicionais famílias da cidade.
Mesmo
que os colegas fossem extremamente gentis, não nego que sentia na
pele as diferenças causadas pelo abismo econômico que nos separava.
O desnível aparecia especialmente na hora do lanche. Tão logo
soava o sinal de intervalo, meus colegas partiam como carros de
corrida em direção ao barzinho da Tia Ana. Ali se fartavam com
prensados acompanhados de Pepsi (a Coca não mandava ainda neste
chão). Em regra, eu e mais um e outro, ficávamos na sala de aula
mexendo nos cadernos e livros, como se alunos aplicados fôssemos,
disfarçando uma falta de grana que impedia de matar a fome naquele
instante. Vez por outra minha previdente mãe forçava que levasse na
pasta uma banana ou um pedaço de pão caseiro com margarina.
Confesso que tinha vergonha quando chegava a hora do recreio e me
obrigava a abrir a bolsa e de lá tirar aquelas iguarias tão
diferentes das dos meus colegas. Coisa de guri!
02/07/2014
Não pare de sonhar
A placa diz PARE.
Colocada num cruzamento de duas vias no interior de Maquiné, o sinal
de trânsito recebe um acréscimo. Alguém, com alma de vândalo
poeta, grafou em letras pretas: “não pare de sonhar”. Não
obstante o flagrante dano ao patrimônio público, o alerta ou
desabafo de um desconhecido pode ser um conselho extremamente válido
nos dias de hoje.
Enquanto a cidade
descansa: a menina sonha. No dia seguinte encontrará aquele que a
fará feliz. Será por acaso. Caminhando num dia chuvoso, feio,
baterá de frente com seu guarda-chuva no rapaz. Quase o derruba na
calçada molhada. Ele sorrirá como um príncipe. Ela, estabanada,
não conseguirá falar. Não sabe se dá atenção ao guarda-chuva
que caiu, ao seu celular que se estatelou no chão ou ao rapaz.
Murmurará um desculpe-me que não sairá de sua boca. Ele continuará
a sorrir. E depois seguirá seu caminho. A menina, por sua vez,
lamentará não ter falado, não ter explicado, não ter trocado o
número de telefone. No fundo, sonha que o verá de novo.
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