20/10/11

Conto da escolinha

Tinha algo em torno de cinco anos de idade. Diariamente era acometido de crises de choro. Minha mãe, atenta ao sofrimento infantil, levou-me até a professora da escolinha. Disse que já não aguentava mais ter em casa aquele menino chorão, que não se consolava com a explicação de que ainda não havia atingido idade para frequentar as aulas.
A professora, de maneira diplomática, informou que não poderia ser admitido como aluno regular. Porém, poderia frequentar as aulas livremente, sem matrícula. “Ele pode ficar encostado”, afirmou, alertando que minha mãe não forçasse minha ida à escola. “Com o tempo ele vai enjoar e desistir!”, decretou. Talvez não acreditasse na sua capacidade de sedução ou, ainda, desconfiasse que o menino chorão apenas fizesse uma manha passageira.
Ir à escola foi, talvez, a maior alegria que tive na infância. Os primeiros dias então foram inesquecíveis. Meu pai trazia do seu trabalho grandes folhas duras, branquinhas. Ali rabisquei desenhos que eram coloridos com os poucos lápis que dispunha. Certa vez notei a cara de espanto de minha professora diante de um conjunto de rabiscos com tons avermelhados e azuis. Talvez tivesse algum conhecimento de psicologia ou algo assim. Concluiu que o excesso de vermelho talvez não fosse positivo. Acredito que sua análise possa ter influenciado no meu afastamento da preferência clubística de meu pai e irmão mais velho.
Certo é, poucos meses depois do ingresso, chegou ao final do meu primeiro ano de escola. Fui submetido às provas junto com os colegas. E fui aprovado. Isto gerou um impasse, eis que não era aluno regular. A diligente professora, então, marcou uma reunião com minha mãe. Eu fui junto e ouvi sua ponderação. Disse que não havia como sonegar o direito do pequeno aluno de continuar estudando. Que daria um jeito de regulamentar a questão. E assim o fez.
Até a terceira série estudei na pequena e extinta Escola Municipal Neyhta Ramos, no Loteamento Popular, conhecido como Vila das Pererecas. Para chegar até ela suplantávamos um valão, fazendo, diariamente, um teste de equilíbrio sobre um tronco de eucalipto que, providencialmente, servia de ponte. Aí constatei pela primeira vez que a educação pouca atenção merecia dos governantes. A Prefeitura, naquele tempo, certamente tinha algo mais importante a fazer, ou talvez o custo da obra fosse muito elevado, que impedisse de providenciar uma pontezinha com três ou quatro tábuas de polegada para garantir bom acesso daqueles pirralhos até a escolinha.
Na minha caminhada nunca fui um exímio, um ás, um destaque. Fui um aluno medíocre, esforçado às vezes, mas sempre respeitador e consciente de que dependia muito mais do meu esforço e da minha dedicação do que qualquer outra coisa. No entanto, espero que nenhum dos meus antigos professores tenha arquivado trabalhos e provas, como faz o mestre Labouriou. Isto, certamente, será a prova cabal de minha incompetência especialmente com os números. 
No ano que vem novamente teremos eleições. Os políticos, estes artistas, impregnarão este país de promessas por melhorias na educação, na saúde e na segurança, conseguirão seus milhares de votos, tomarão de assalto as faixas do comando e, depois, “nem te ligo!”. Nos grotões os pirralhos continuarão a pular valetas, em todos os níveis os professores continuarão na luta por melhores salários e tudo continuará sendo o que era antes. Educação, saúde e segurança voltarão à pauta depois, nas eleições estaduais e assim por diante. 

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