21/06/2018

O Paraíso


A ideia de um salvador é religiosa. Os homens primitivos, incapazes de compreender a grandiosidade do processo existencial, entendiam que eram incapazes de lutar por si só. Haveria de ter alguém mais forte, mais sábio e dotado de algum poder que, quando evocado, pudesse suprimir as dores e os sofrimentos pelos quais todos passavam. Construiu-se assim, a figura do deus salvador. A adoração e a ritualística visavam dar uma inflada no ego do Criador para que, de algum modo, elegesse aqueles que tinham maior mérito espiritual e, desta forma, mereceriam, sem sombra de dúvidas, um lugar ao Seu lado.
Apesar de reconfortante, a ideia de que alguém de fora iria suprimir o indivíduo do seu caminho imprimindo uma realidade menos austera e sofrível num processo de correção de rumo, em alguns momentos parece ilógica. Os espiritualistas e os filósofos conceberam sistemas de crescimento e desenvolvimento individual, sem a ideia salvacionista. Ou seja, cada indivíduo tem um caminho, uma trajetória, uma história para contar ao longo dos tempos. E os dias que virão serão sempre resultantes dos dias que vieram. O suor do rosto de cada um vai sedimentando esta estrada de superação e de insistência.

Jesus na Causa


A argumentação é uma arte. Arte complexa. Isso porque depende da capacidade do indivíduo em defender uma ideia e da capacidade de interpretação do outro. Faltando uma das condições, a coisa não funciona. A comunicação fica truncada. Nem  todo o argumento é válido. Alguns são desprezíveis.
Nos períodos eleitorais, os políticos carreiristas saem por aí vendendo seu peixe. Como de regra, tentam ser o que não são. Misturam-se ao povo, comem coisas como come o povo, mudam as vestimentas para parecer povo, falam como se povo fossem. Vão às feiras atopetadas de gente, abraçam indiscriminadamente, beijam crianças, dão tapinhas nas costas de João, de Zé e de Maria Ninguém. Um assessor ao lado vai dizendo os nomes dos eleitores para causar uma boa impressão. E o pior é que causa!

03/06/2018

Os Candidatos


As campanhas eleitorais não estão nas ruas. Há candidatos que ainda vão desistir da maratona. Analisarão o tempo de exposição na televisão, os números colhidos nas pesquisas de opinião pública, a rejeição entre os eleitores e a viabilidade de ajudarem na constituição de bancadas regionais no Congresso, entre outras coisas. Sem contar nas costuras com partidos que, oportunamente, jogarão no lixo seus programas (se é que os têm) por uma promessa de cargos e de arranjos outros tão comuns na vida política brasileira há algum tempo.

Vinte linhas


Nos tempos de colégio, os professores, vez por outra, pediam uma composição. Era assim que chamavam o que se convencionou chamar depois como redação. Vinte linhas era o mínimo que pediam. Suplício para uns, moleza para outros. Os temas eram abrangentes. As ideias que apareciam nas composições eram restritas. Não havia muitas fontes de informação. Entre a população de baixa renda, um rádio na casa era obrigatório. Uma tevê quase um luxo. Jornais e revistas eram artigos raros.  
Um colega tinha uma letra miúda. Numa linha cabiam dezenas de palavras. A composição dele era formada por pequenas formiguinhas azuis, quase todas do mesmo tamanho naquele vasto fundo branco atravessado por linhas negras. Era a exceção à regra. Para ele, convencionou-se que dez linhas eram suficientes. Dava  para contar sua vida toda, de sua família e, talvez, dos vizinhos mais próximos.

29/05/2018

Master/Blaster: a intervenção


Corpos gigantescos nem sempre ostentam cabeças com massa encefálica suficiente para coordenar os movimentos e determinar as ações mais indicadas para cada caso. Em Mad Max 2 – Além da Cúpula do Trovão, uma cidade é movida  por esterco de porco. Vive-se o caos. Não há muito combustível fóssil à disposição. Os litros de gasolina e diesel são disputados a tapa, a tiro e a facadas. Vale tudo pelo precioso líquido. Não há governo. Restam sobreviventes fazendo a própria lei. E, neste contexto, todo o mundo tem razão.
A geração de energia é comandada por uma dupla: o gigante Master/Blaster. Master é dono de um corpanzil. Nos seus ombros reside Blaster, um anão que o comanda e comanda também o submundo da usina de geração de metano. A parte superior é governada pela Titia Entity (Tina Turner). Como não acontece só na realidade, um governo compartilhado é um prato cheio para servir de disputas. Titia quer mandar mais, Master/Blaster se defende. Às vezes sabota o mundo superior, reduzindo a entrega de energia, aumentando o desespero e o caos.

28/05/2018

Empanturrado


Minha mãe fazia pão de forno. O cheiro exalado pelo lento processo aumentava sobremaneira a vontade de consumi-lo.  Era uma verdadeira tortura. Parecia que o processo demorava a tarde inteira. Não era bem assim. Mas, na verdade, alguns dias ela aumentava ainda mais o tempo de espera. Quando eles estavam no ponto, recém-retirados do forno, quentinhos ainda, uma fina fumaça que se dirigia até o teto e um cheiro que tomava conta da pequena casa, vinha ela com uma sentença negativa e definitiva: “não se come pão quente porque dá dor de barriga!”. Desânimo completo. A fome aumentava ainda mais. O valor de uma fatia daquele pão ia às nuvens. Aos nossos olhos, aquilo tudo valia ouro.
Na hora em que ela amolecia o coração e partia o pão em fatias, dando a cada um o seu quinhão, mudava a preocupação.  “Não pode comer muito porque empanturra!”.  Comíamos o que dava. Ou melhor, o que ela dava porque a quantidade era definida por ela. Jamais tivemos nosso estômago dilatado por pão quente, outra preocupação da zelosa mãe.

10/05/2018

Casa no Campo


Tinha saído do cemitério faz pouco. Um sol muito forte mostrava-se sobre a cidade. Era um desses verões fora de época. As pessoas saíam de casa pela manhã ainda encasacados e, ao meio-dia, se tanto, começavam a se despir. 
Era experiente o morto. Mas, pela idade que tinha alcançado, ainda poderia ficar por aqui mais alguns anos. Tinha casa, família, carreira, uma aposentadoria razoável e tudo o mais. Gostava de cantar. Na infância tinha jogado bola pelas ruas irregulares da sua cidade. Talvez até tivesse quebrado alguma vidraça num desses chutes que saem do controle e depois viriam dor de cabeça diante de um vizinho zangado ou de uma mãe preocupada com  a disciplina do filho.

06/05/2018

Os Descartáveis

Praticamente tudo o que o homem inventou para o bem, acabou sendo usado para outra finalidade.  O exemplo clássico é o avião. Ao mesmo tempo em que reduziu o tempo para percorrer grandes distâncias virou uma máquina de guerra competente, sendo possível atacar o inimigo de uma distância segura lançando bombas sobre alvos pré-determinados.
Chegar à conclusão de que em todas as coisas há mão dupla não é difícil. Um  simples telefone celular, que inscreve o indivíduo no mundo virtual, é muito mais do que um aparelho de comunicação. Se bem usado é uma biblioteca sem limites, é um instrumento que conecta a pessoa a um infinito mundo de facilidades: tevê, rádio, jornal, cinema, restaurante, meio de transporte, academia, consultório, igreja  e muito mais. Ao mesmo tempo é meio para propagação de mentiras, de ódio e para formação de grupos extremistas, milícias e quadrilhas.

27/04/2018

O não-saber

Pouco mais de 4% da matéria
que compõe o universo é conhecida
Um pouco mais de 4% de tudo o que existe no universo é conhecido. Mesmo que não seja muito bom em matemática, posso deduzir, com algum grau de certeza e sem medo de falar uma besteira, que algo em torno 96% de tudo o que há por aí, entre vivos, mortos, vistos e sentidos são meros desconhecidos. Ora, a física explica, então, uma pequena parte dos fenômenos existenciais porque o desconhecido, por si só, não tem explicação.  Talvez por isso mais sábio é quem admite que nada sabe,  ou pouco sabe, do que quem arrota sua sabedoria no contato privado ou socialmente através das redes sociais.
Diante disso tudo crescem sobremaneira os conceitos relacionados às possibilidades em detrimento daqueles ligados às certezas. Como ter certeza se o desconhecido é imensamente maior do que o conhecido? Eis a questão.

19/04/2018

Parabéns, Pindorama!


"Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro",
Oscar Pereira da Silva, 1922
Essa terra, onde as palmeiras buscam os céus e os sabiás cantam como só os sabiás sabem fazê-lo, faz aniversário no próximo domingo. A história desta porção de terra é cheia de controvérsias e incertezas, apesar dos esforços dos historiadores e apresentar versões críveis aos fatos.

02/04/2018

A Pressa

John Wayne
Nos velhos filmes do Velho Oeste só sobreviviam os que eram rápidos no gatilho. A rapidez era sinônimo de vida. A lerdeza era punida com um punhado de balas. Ao menos assim era nos filmes estrelados por John Wayne e Clint Eastwood, que faziam justiça com as próprias armas e eliminavam os valentões e bandidos que saqueavam os rancheiros norte-americanos. A mesma destreza valia para eliminar os temidos indígenas que atacavam os colonos numa luta sanguinária pela terra. Mas, neste caso, já é outro história. Os índios, retratados como cruéis assassinos eram os mocinhos da história, mas isso não era levado em conta por roteiristas, diretores e pelos expectadores. Naqueles tempos, índio bom era índio morto.

Hoje, amanhã e depois


O Facebook pergunta: o que você está pensando. O Facebook responde: não, não precisa dizer. Nós sabemos o que você pensa!

Não vou cair na esparrela de repetir tudo o que se disse nos últimos dias. Nem vou usar este espaço aqui para jogar ainda mais negatividade quanto ao futuro do país e da humanidade. Muito menos vou aproveitar para lamentar que uma desembargadora, do alto de sua respeitável posição jurídica, tenha usado argumento de discussão de mesa de bar para condenar o morto ao invés de quem matou. Nem vou lembrar outra desembargadora, que se valeu de ironia para criticar uma jovem com Síndrome de Down que exaltava sua alegria em ter concluído um curso para educadora. O Brasil vem surpreendendo o mundo.  E não é pelo bolão que vem jogando. É pela bola que não joga.

15/03/2018

Mudam os tempos


Periodicamente chegam por aqui informações sobre mudanças profundas. Mudam os hábitos. Mudam os tempos. Mas, mudanças significativas na forma de viver aqui na Terra são poucas. Mesmo hoje, nestes dias marcados pelo avanço tecnológico e científico, continua a vida como há muito tempo atrás. E olha que a humanidade avançou em termos de invenções. As comunicações ficaram mais rápidas, instantâneas, as bibliotecas estão à disposição de todos no mundo virtual, o conhecimento juntado pelos homens por milhares de anos está todo disponível para consulta.

10/03/2018

A Boa Sorte


Boa dose de sorte acompanha os afortunados. Carência de sorte assiste os desafortunados. Há boa sorte e má sorte. Ela bafeja alguns poucos e parece ignorar a grande maioria dos sujeitos.
A sorte é um desses seres pouco compreendidos. Há dúvidas reais se realmente existe. Para alguns é uma criação da sabedoria popular, um  mito que vem se perpetuando para explicar de um modo muito pouco preciso os caminhos vitoriosos de alguns e os  tropeços de outros.
Cientificamente não há explicações plausíveis para a sua existência. Nos últimos tempos, porém, com a difusão do conceito quântico de que o observador pode alterar a reação das partículas ínfimas, não se duvida tanto de que existam princípios ainda não provados que favorecem a ocorrência deste ou daquele fenômeno desconhecido.  Assim, a inexistência de uma comprovação científica não é taxativa quanto à existência ou não de alguma coisa neste vasto mundo do desconhecimento.

21/02/2018

As Curtidas


As redes sociais vieram para mudar tudo. Eu disse tudo. Mas, nem sempre foi assim. No começo era mais uma brincadeira de nerd. Hoje é coisa séria. A vida passa por ali. Se não tá na rede não existe. O mundo virtual é o mundo real. A vida chata de alguém que carrega dentro de si uma carga enorme de infelicidade pode ser filtrada de tal forma que os outros a percebam como a mais feliz das criaturas.
Não é discurso moralista. Nem estou dizendo que um dia foi melhor. Não é isso. Na verdade, o homem vem, desde os tempos da penumbra das cavernas, tateando. Saiu da escuridão para a luz sem óculos escuros. Viu seu reflexo na água e ali nasceu um deus.  E foi criando deuses e mais deuses porque se encantou com tudo o quanto era majestoso e inexplicável.

18/02/2018

Sobre cães e músicas


Perseguição – É final de tarde. Três cães se encontram na praia. Um é de madame. Os outros nem tanto. Mesmo diferentes juntam-se pelo mesmo ideal. Perseguem insanamente três quero-queros que voam baixo sobre a cabeça de corpos bronzeados e de branquelos de toda a ordem que ainda resistem na faixa de areia. Os pássaros se divertem e os cães também. Os caninos talvez pensem que é possível alcançá-los. Na vã tentativa, às vezes chegam a dar saltos. Coisa pouca. Sem resultados práticos. Os pássaros parecem zoar. Dão voltas e voltas pela praia. Voam baixo dando alguma esperança aos perseguidores. Súbito sobem um pouco mais. É risível a brincadeira. O pescador esquece o anzol na água e ri. A senhora sisuda ri também. Ri o menino pequeno que toma banho de cuequinha do Batman. Minutos depois, extenuados, os cães vão desistindo da brincadeira. Voltam a marchar seriamente. Os quero-queros seguem voando baixo.

10/02/2018

Você tem razão



Um debate vez por outra não faz mal a ninguém. Se for sobre algo irrelevante é até divertido. Quem jogou mais: Pelé ou Maradona; Maradona ou Messi; Pelé ou Messi? Se a discussão envolver gente mais vivida, que teve a honra de assistir, mesmo em videotape ou nos documentários do Canal 100, no cinema, Pelé ganhará de lavada. Se o debate for na terra de Gardel, o caso muda de figura. Racionalmente, porém, sabemos que não dá para comparar coisas de grandezas diferentes, de tempos diferentes. Como se dizia há algum tempo: cada um no seu quadrado.
Nos dias atuais, no entanto, há um fascínio exagerado, quase obsessivo, de manter discussões intermináveis sobre determinadas questões que parecem ser os grandes problemas de humanidade. O tatame onde estas quase lutas se arrastam são as redes sociais. Uma das técnicas mais usadas nesta guerrinha virtual é desqualificar radicalmente o argumento do outro. Se houver insistência: soltar o verbo recheado de impropérios, procurando criar constrangimento ao oponente.